A Ilha da Madeira, indiscutível maravilha da natureza pela sua incrível formosura, pelo pitoresco extraordinário da sua paisagem, pela graça dos seus costumes, e pelos primores das suas flores perfumadas e dos seus frutos saborosos, é um imenso rincão de magia e de sonho, verdadeiro Éden ou Paraíso Terrestre que encanta, embriaga e entontece o visitante.
Ao admirar pormenorizadamente esta linda terra, fica-se tomado de emoção e assombro. A grandeza do espectáculo empolga-nos inteiramente. Os horizontes surpreendem-nos e dominam-nos a alma e os sentidos.
Desde os vagos e distantes planos, até aos trechos próximos e motivos parciais, os traços de beleza multiplicam-se numa riqueza estupenda e indescriptível. As grandes linhas gerais sucedem-se num ritmo de grandiosidade e imponência. As manchas polícromas e de forma variada salpicam todo o vasto âmbito, e tornam-no numa grande e rica paleta de pintor. Os trechos imprevistos impõem-se por toda a parte. Os pormenores característicos e graciosos abundam e gritam em uníssono um coro triunfal de vida, de carácter e expressão.
De relevo muito acidentado, de claro-escuro violento, e de cor forte e riquíssima, a ilha da Madeira desdobra-se em infinitos horizontes, em matizes empolgantes, em efeitos estranhos, e em panoramas parciais de número ilimitado.
Contudo, não é propriamente a altura, a realidade da cota de nível em que nos encontramos, e as altitudes dos pontos que se vislumbram em volta, que nos causam aqui o sentimento admirativo, mas sim os grandiosos contrastes que caracterizam esta paisagem de gigantes na brusquidão, a rudeza verificada na escala de altitudes, a variação de cotas existentes entre os píncaros e os fundões, entre o cimo das agulhas e penhas e a linha plana das águas, que nos surpreendem. É o contraste teatral da cor entre a negridão das serranias requeimadas pelo sol, e a alvura azulada do mar, a diferença de cambiantes entre os verdes da vegetação e as chapadas amarelas dos pontos áridos, a gradação da luz entre a penumbra misteriosa dos vales e a auréola apoteótica da claridade do céu, que nos desconcertam, amesquinham e assombram.
Em qualquer outra terra há harmonia, evolução gradual de região para região. Aqui há desordem, acaso, paisagem de cataclismo. Um trecho idílico, um recanto virgiliano desdobra-se ao lado de um colossal monstro de lava petrificada. O gérmen da criação está ao pé da morte, a fina penugem verde de uma vegetação exuberante cobre a carcassa das serras desventradas, as plantas revestem as encostas, a vida fez brotar a água, nascer as florinhas, criar as giestas e crescer os pinheiros. Mas o drama lá está bem patente num cenário expressivo de luta de elementos, em que sobressaem o belo, o gigantesco e horrível.
Nesta privilegiada terra, todos os motivos interessam, todos os recantos são típicos, todos os aspectos são curiosos, todos os trechos são quadros, e todos os quadros são maravilhas.
Feliz conjunto de terra e mar, a ilha da Madeira é uma terra de contrastes violentos, pois reune em pouco espaço os mais assombrosos, e encantadores motivos naturais que se podem imaginar. A serra e o mar acham-se juntos, metem-se um pelo outro, colaboram na mesma obra de beleza trágica, dando consequentemente lugar a uma variedade incrível de pontos de vista e de cenários naturais.
A serra é forte, brava, angulosa, maciça, cheia de mamelões, de precipícios, de ravinas e de covões. As suas cores fundem-se em tonalidades e cambiantes irreais, e parecem a distância um embutido de esmaltes, de madrepérolas, e de pedrarias preciosas.
O mar é ameno, tépido, transparente, ao pé; azul profundo, ao longe, e envolve graciosamente esta paisagem alpestre e grandiosa, com vários colares de espuma branca.
As povoações parecem presépios atulhados de casinhas brancas e de cores, recortados de caminhos íngremes e ruas enladeiradas, ornados de ingénuas igrejas, de torres altivas, de pontes ousadas, e de graciosos e singelos terreiros e miradouros; as fazendas são frescas, fecundas e paradisíacas; os pomares, ricos e perfumados; os hortedos, fartos viveiros de mimos e especialidades.
Em parte alguma há jardins tão interessantes como na Madeira. A fragrância das flores mais variadas e raras, os maciços espessos e emaranhados dos arbustos e arvoredos, as sombras frescas e arroxeadas, as chapadas de sol de oiro e alaranjado, as ruelas calcetadas de seixo à moda local, os larguitos e pracetas de terra vermelha, o colorido extraordinariamente intenso e variegado, e a exuberância pasmosa de tudo, estonteiam e levam ao sonho e ao lazer.
Os parques e bosques frondosos ostentam as mais lindas e irreais tonalidades nas suas folhagens, possuem retiros ensombreados, encantadores mirantes de poesia sobre o mar, socalcos e esplanadas sobre os terrenos mais baixos, fresquidão, água, nascentes abundantes, fontes naturais, e aromas embriagantes.
O clima, indiscutivelmente um dos melhores do mundo, completa o formidável conjunto de encantos deste paraíso. O ar leve, muito puro, doseado dos mais finos elementos para a saúde, enche amplamente os pulmões, espalha um bem estar indefinível no corpo, e uma paz perfeita na alma.
Na serra há odores imponderáveis. Há malmequeres de várias cores, flores silvestres perfumadas, ar vivificante de campo sadio, e um vago cheiro a cera e a mel.
No mar, o marulhar das ondas junto das rochas e dos calhaus, levanta a maresia, torna o ar afrodisíaco, um tudo-nada espevitante, tempera-o com o iodo, e torna-o ligeiramente salgado e apetitoso.
A Madeira é uma ilha formosíssima, uma terra cheia de prendas e de bênçãos de toda a ordem, uma inestimável jóia de alto valor, o paraíso perdido no oceano. A Madeira é um verdadeiro retiro de encanto e poesia, onde a vida é um deleite c decorre como um sonho e uma canção.
Quer seja vista a distância e do mar, quer seja observada de perto, em pormenor, e de qualquer ponto da própria ilha, a Madeira possui aspectos de imprevisto inexcedível, os quais se sucedem e multiplicam numa transmuta estonteante e única.
A orografia da ilha é tal que, cada ponto domina sempre grande parte dos territórios que lhe ficam mais baixos, e é dominado por outros, que por seu turno lhe ficam mais altos. De qualquer lugar vêem-se sempre rochas, socalcos, fazendas, matas ou casario aconchegado ao fundo dos vales, ou junto dos ribeiros profundos, assim como se vêem também, ameaçadoras, como fortalezas prestes a caírem, outras rochas, outras casas, outros socalcos de fazendas, outras muralhas, outras matas e outras terras que lhes ficam em plano superior.
Descortinam-se extensos panoramas seja qual for a direcção em que se olhe. Observam-se escarpas descarnadas de encostas que ficam acima de nós, e que ameaçam desabar sobre as nossas cabeças, ou sobre os telhados das casas que habitamos. De qualquer lado se vê o mar, de qualquer parte se vêem as serras.
Assim, cada casa, cada jardim, cada penhasco, telhado, torre, rua, caminho ou estrada, é sempre um miradouro voltado para a terra e para o mar, é sempre um observatório debruçado sobre os domínios dos vizinhos, sobre os telhados das outras casas, sobre outros jardins, sobre outras ruas, outros caminhos e outras estradas.
Assim, cada ponto é na Madeira, um mirante que tudo vê em redor, e que também é visto de toda a parte. Cada casa é uma vigia graciosa, ao mesmo tempo virada para os horizontes marítimos e para os horizontes serranos. Cada quintal é uma esplanada proeminente, donde se vê a passagem, a chegada e a largada dos barcos. Cada corredor, uma colunata que marca como adorno, nas vistas da paisagem. Cada fazenda, um jardim que nos chama de longe. Cada jardim, um tapete colorido que ornamenta os panoramas.
Para qualquer lado que se olhe, vêem-se sempre casas mais baixas do que o nível em que nos encontramos. Vêem-se sempre casas mais altas, tão altas que parecem inacessíveis. Vêem-se sempre parques a nossos pés, jardins sobre as nossas cabeças, igrejas lá no fundo, capelas lá no alto, estradas planas à beira-mar, caminhos íngremes pelos montes, telhados sobre telhados, chaminés graciosas, janelas floridas, casas de prazer, tapassóis verdes, paredes coloridas, primeiros planos fortemente pormenorizados e polícromos, longes esbatidos, azuis e irreais, serras altas, chapadas íngremes, vertentes matizadas e verdejantes, renques de piteiras bravas, grupos de tabaibeiras marroquinas, campos de bananeiras e de cana de açúcar, jacarandás, tílias e dragoeiros, e por fim, um mar de cobalto, e um céu diáfano, cerúleo e vaporoso.
Além das belezas naturais, a ilha da Madeira é também um dos recantos portugueses onde a densidade de população é maior, e consequentemente um dos pontos em que os terrenos são mais largamente aproveitados.
Assim, mercê da superabundância de habitantes, e da sua configuração geográfica, graças aos recortes bizarros do seu litoral, aos inúmeros e férteis vales, e às infindáveis e criadoras encostas em que se desdobra o território vulcânico, rugoso e acidentado da Ilha, os sinais de vida vislumbram-se por toda a parte, numa extraordinária variedade de circunstâncias, impossível de imaginar.
Existem vilas, aldeias, quintas e casais, em todos os lugares desta terra. Desde a beira-mar até aos cumes formados pela lombada das serranias que constituem a cordilheira principal, que se desenvolve no sentido Este- Oeste, a qual define em duas grandes vertentes, a fisionomia orográfica e estrutural da Madeira, a vertente Sul e a vertente Norte, as povoações sucedem-se numa profusão admirável, ostentando-se maiores ou menores, mais ou menos belas e típicas, mais ou menos ricas e populosas, mais ou menos alpestres, camponesas ou marítimas, segundo as suas condições de vida e a sua situação.
Algumas povoações anicham-se em recôncavos sombrios, e vales profundos e estreitos, não sendo visíveis senão de muito perto. Outras dispersam-se pelas chapadas soalheiras das encostas, vendo-se perfeitamente a distância, com as suas características igrejas a destacarem-se por entre os apinhados de casas e arvoredos. Outras, ainda, espreguiçam-se à beira-mar, em vales ou encostas que descem até junto dele, ou em fajãs recentes, situadas na base de ribas altíssimas.
Nestas condições, o homem habita desde a orla marítima, extremamente populosa e cheia de recursos de vida, até aos pontos mais inacessíveis situados nas altas serranias interiores, e que, falsamente, à primeira vista e de longe, parecem lugares estéreis, inóspitos e adversos à vida.
Como complemento desta abundância extraordinária de povoações e de gente que vive por toda a parte, vêem-se largas manchas de vegetação, riscas de estradas, curvas que aparecem, para em seguida se esconderem, fontes pitorescas, levadas abundantes, miradouros, caminhos bordados de opulentas flores, veredas tortuosas e íngremes, e escadozes perigosos lavrados nas rochas.
E todas estas povoações, caminhos, fontes e matas, são verdadeiros quadros, encantados presépios ou ingénuas lapinhas.
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PAISAGENS DE TITÃS OS BALCOES DO RIBEIRO FRIO
Conheceis o Ribeiro Frio e os seus balcões de maravilha? Conheceis este lugar admirável situado a meio da Ilha?
Vinde até ao Funchal. Vinde até às terras portuguesíssimas da Madeira, onde há mais sentido nacional e mais lusitanismo, do que em grande número de terras do Continente.
Vinde até à sagrada terra onde há mil recordações da época gloriosa da expansão racial e civilizadora dos portugueses. Vinde até estas paragens admiráveis do Atlântico, onde as gentes descendem directamente dos mareantes e navegadores do tempo das descobertas promovidas pela Escola de Sagres. Vinde até à terra onde vereis caras, tipos e expressões, que vos lembrarão as figuras pintadas nas tábuas de Nuno Gonçalves, e os decididos e bravos homens do Infante.
Vinde até esta privilegiada terra que se desentranha perante vós, em mil curiosidades, em mil quadros de uma grandeza esmagadora e impressionante. E, em êxtase e recolhimento, admirai a grandiosidade da natureza, a imensidade das serras, a vastidão do mar, e a força e eternidade da matéria e do espírito divino do mundo.
Deitai pelas estradas fora em direcção às serranias interiores. Subi pelas ladeiras íngremes até ao Monte, ao Terreiro da Luta, ao Poiso, e descei em seguida à região ravinosa do Ribeiro Frio, onde uma vegetação exuberante, fartas sombras, e uma fresquidão de mistério vos esperam, para vos encantarem, seduzirem, e embalarem em sonhos vergilianos.
Deixai depois a pousada local com os turistas abancados às mesas. Esquecei os olores dos manjares regionais, o tilintar dos copos e talheres, o vozear alegre, e as risadas femininas. E ide até aos Balcões. Trilhai o carreiro macio, fofo de relva, ladeado de água, e guarnecido de hortênsias, que vos conduz a esse lugar famoso, pois um espectáculo deslumbrante espera-vos,--um destes espectáculos que só a natureza pode proporcionar, e em que os protagonistas são as serras, os rios, o céu, o mar e as nuvens.
O panorama é de grandeza e proporções excepcionais. Diante de vós, sob o piso do balcão proeminente em que tendes os pés, rasga-se uma ravina de profundidade inconcebível, em cujo leito contorcido, pejado de pedras e cavado de socalcos e cachoeiras, corre um ribeiro frio, bravo e caudaloso.
Grandes linhas angulosas, rochedos nus, portelas e desfiladeiros, tudo parece instável, desaprumado, prestes a desabar no abismo e a perder-se no fundo vago e distante da ravina.
Uns farrapos de nuvens ténues e soltas toldam parte das serras fronteiras, o que torna o espectáculo, ainda mais inesperado, estupendo e belo.
No fundo, as formas são imprecisas. Mal se lobrigam as rugosidades do terreno, as largas superfícies negras dos rochedos de basalto, e as chapadas de tufa vermelha e vulcânica que formam a base desgastada das enormes penhas que nos assombram e esmagam.
Caminhos perigosos descem em zigue-zagues, em degraus e rampas vertiginosas até ao plano inferior, para depois novamente se embrenharem em trajectos idênticos, esfalfantes, e escorregadios, e sumirem-se no labirinto serrano que se avista na frente.
Divisam-se alguns pormenores isolados, tais como penedos fazendas, bosques dispersos, e fundos cinzentos do zimbros e loureiros .
A alguns centenares de metros mais acima, estão as nuvens. movediças e lentas, tal como se fossem cortinas de fumo branco, impelidas por brisa suave. Neste nível tudo é nevoento, arrepiante de desconforto e frio. Mas mais alto ainda, em cota superior a esta facha de penumbra e humidade, a romper as nuvens, eis os píncaros acúleos da cordilheira, as agulhas intangíveis dos rochedos, e as fragas espantosas das cumiadas, a sobressaírem vitoriosamente, tal como torreões de castelos gigantes ou muralhas de fortalezas imaginarias que palrassem nas regiões etéreas.
Então, perante um quadro de tais proporções, diante dos cumes das serranias a espreitarem a alturas prodigiosas e por sobre as nuvens, em face da nitidez dura dos contornos, da luminosidade extraordinária do céu límpido, e da irradiação do sol quente, belo e glorioso que enche todo o espaço de reflexos de oiro, o espectador esmagado, inquieto e confundido, sente-se frágil, tem a sensação de se achar deslocado em meio de uma paisagem de titãs, rende glória ao Criador, e confessa-se pequeno, mísero e efémero.
[Edmundo Tavares, Terra Atlântica- Impressões da Madeira, Lisboa, 1948, pp.21-28, 79-83]