JOSÉ MARIA FERREIRA DE CASTRO[1898-1974]


Reunidos em grupo, indicou-lhes o mar, de um lado ate outro da ilha. Estavam no ponto mais elevado que a estrada atingia. Dali se escortinava o oceano, ao norte e ao sul, dali os olhos podiam medir a largura da Madeira. Para o sul, a vista baixava, entre a soberbia deslumbrante das montanhas, até as costas da Ribeira Brava; para o norte, ia, entre urzes e loureiros, salvando serras e abismos, alcançar o Atlântico, além da capelinha de San Vicente. E ali perto, mesmo no flanco da estrada, nascia, a querer prolongar a montanha, novo mamilo que as águias gostariam de ter para ninho. Seguia-se-lhe logo outra proeminência, grave, pesada, estranha e tão caprichosa na forma que, mais do que obra natural, saída de primária convulsão, dir-se-ia majestoso templo assírio. E a cordilheira continuava ainda, continuava sempre, a partir-se, ao longe, em ciclópica fantasia.

Álvaro propôs:

--Se querem, podemos almoçar aqui.

Mr. Crawley consultou o relógio:

--São dez e meia. Para mim é cedo...

--Bem; então, almoçaremos lá em baixo, antes, de chegarmos a San Vicente.

Na descida, as lombas e desfiladeiros já não ostentavam apenas árvores dispersas, cómoda outra banda. Agora, urzes e louros formavam mata cerrada, cobriam as encostas, vestiam as barreiras da estrada e murmuravam por toda a parte. Centenárias, as urzes haviam adquirido corpulência Ide árvores, de grossos e retorcidos troncos, cujos ramos vinham debruçar-se na via, quase roçando a face de quem passava. E, por entre elas, serra acima e serra abaixo, os loureiros entregavam ao sol as suas folhas dum verde vivo e mui lustroso.

--Mais devagar!--pediu M.me Lacretelle ao «chaufreur».

Os automóveis desciam, lentamente, na paisagem cortada de sombras e claridades. M.me Lacretelle desejava porem, que aquele que a conduzia descesse mais devagar ainda. Juvenal contemplou-a, um instante, rectificando Juízos apenas esboçados. «Também teria sido tocada, apesar da sua frivolidade, pelo encanto,daquela

--Devagar. . . Assim.

O carro que levava o casal Cranvley e Alvaro distanciara-se.

A mata era cada vez mais bela: a cada nova curva, a cada clareira vislumbrada, os loureiros sugeriam horas pretéritas, gastas por outras civilizações--os cornos vestidos de túnicas, ondulando à brisa que passara há muitos séculos já. E, lá para cima, os píncaros voltavam a adquirir a imponência perdida quando vistos de perto. O que semelhava um templo assírio dir-se-ia que acendera, com o revérbero do sol nas suas penedias, centenas de janelas e de pórticos fantásticos.

A uma volta do automóvel, o corpo de M.me Lacretelle deslizou novamente, até encontrar resistência no de Juvenal. E esteve assim, colada a ele, alguns segundos. Depois, inclinou o busto para a frente e ordenou:

--Pare ai.

Juvenal procurou-lhe os olhos. Mas já ela, ludibriando o sentido do momento, acrescentava:

--Vamos um bocadinho a pé... Estou fatigada de tanto vir sentada...

E para o «chauffeur», com o mesmo tom autoritário de pouco antes:

--Vá andando e espere-nos aí em baixo.

Desceram. Ele estava surpreendido com aquelas transições da voz ide M.me Lacretelle. Uma solidariedade com o «chauffeur» nascia de repente. Ela ficara parada, ao seu lado, e olhava em derredor.

--Que lindo isto é! Não lhe parece?

--Os gregos não teriam tantos louros...--disse ele, com um sorriso frio

(…)

A cordilheira ia de um a outro extremo da ilha. Nascia na vizinhança da Ponta de S. Lourenço e crescendo, ora em curvas de lombo de dromedário, ora em ondulações mais amplas, lá ia, lá ia, gigantesca e ciclópica, até a Ponta do Pargo. Floria em jardim e verdejava em sussurrantes bosques no Santo da Sem; e, tomba aqui, levanta acolá, entregava ao sol a calvície do Poiso. Somando serras e outeiros, costelas do espinhaço central, caminhava ainda, caminhava sempre, abrindo bocarra enorme no Curral das Freiras, dando passo à estrada na Encumiada de S. Vicente e formando, além, por súbito capricho, a terra lisa do Paul da Sem, larga e alta de mil e quinhentos metros. Mas essa lhanura, aberta de passagem, significava excepção, pois à cordilheira não agradava solo livre de obstáculos para os olhos. O seu deleite era criar anfractuosidades monstruosas, enfiando serra com serra, lombadas, montes, cocurutos, picos que parecia quererem traspassar o céu e precipícios e ravinas onde regougavam torrentes, nas noites de rijo temporal. Seguindo sempre, cada vez mais irregular e variada, perspectiva além de perspectiva, ia esparramar-se na Ponta do Pargo, na Madalena, no Porto Moniz, contornando do Sul para o Norte, sempre abrupta e sempre grandiosa.

A Madeira era a cordilheira. Posta no centro da ilha e a todo o seu comprimento, dir-se-ia que se derretera pelas bandas, escorregando lentamente, para um lado e outro, a massa ainda informe. Hesitando no rolar de pesadelo, mais mole aqui do que acolá, quedara-se, umas vezes, em proeminências, abrira-se, outras, em sulcos profundos; e, na preguiça da descida, deixara por toda a parte encostas de arbitrária expressão e acidentes de singular fantasia.

Logo, para cobrir mazelas que lhe ficaram do nascimento, se vestira de tão denso arvoredo que, mesmo com o sol a pino, não havia palmo de terra desprotegido de sombra. Fora assim que a viram, sugerindo todos os mistérios, 08 descobridores; e mais de um mareante que, tendo como roteiro bíblicas páginas, andava em busca do paraíso termal, julgara tê-lo encontrado ali. Tanta opulência vegetal, murmurando, na solidão atlântica, árias de estremecer e ocultando, nos seus abismos, quem sabia se bichos temíveis ou homens mais ferozes ainda do que os bichos, levantou nos primeiros trilhadores cautelas e perplexidades. Dizia mesmo a tradição oral, por vários cronistas dada como segura, que, por essas ou outras razões, fora um dia lançado fogo à ilha de verde fisionomia. Rabiando de ponta a ponta, as chamas teriam formado ígnea apoteose, bem digna, pela grandeza, da imensidade oceânica onde se reflectia. Mas tivesse tido o destruidor fácil propagação ou houvesse caminhado devagarinho, revelando a sua marcha apenas com um risco de fumo a elevar-se da mata, a ilha ficara em tições, esbranquiçados, uns, pela cinza, e outros enegrecidos. Adubaram, então, a terra, destruídos, para sempre, todos os répteis e demais alimárias que causam dano e susto nas outras partes do Mundo. E posta assim ao léu, sem regaços de mistério, sem recantos ensombrados, negra e nua, negra e nua, a Madeira mostrava toda a sua grande carcaça, tão árida e desolada como se fosse de novo um formidável vómito de lava, acabado de arrefecer.

Mas, com o tempo, raízes mergulhadas mais fundo ou sementes perdidas onde as labaredas não chegaram, deram em pôr à superfície folhitas tenras, delicadas; e, se havia humidade, fora só crescer e multiplicar, vestindo a toda a pressa o que o fogo desnudara. Rocha de onde brotava água teve logo em derredor, e onde quer que a vivificadora passasse, bosques de encantamento e de frescura inigualável. Nunca mais, porém, a cordilheira, nem quanto dela descia até o mar, se cobrira de todo. Neste e naquele anfracto, nos cimos e na terra ribeirinha, ficaram largas cicatrizes; umas, estéreis, outras, propicias a ser amanhadas pelos colonos recém-chegados. E cômoros arriba ou nas achadas, longe ou perto do oceano, o homem fora disseminando a agricultura e elevando o seu abrigo. A ilha deixara de ser apenas bosque, para ser bosque, horta e jardim. Já não era A só mancha verde, ancorada no Atlântico e tendo a coroar-lhe os píncaros grande auréola de bruma. Era, agora, imenso painel de muitas e variadas cores.

No Poiso, porém, a terra continuava sáfara, como se tivessem passado há pouco tempo ainda as labaredas já lendárias. Nem mata a substituir a que teria existido, nem couve, roseira ou vinha metida a dente de enxada. O seu despovoado, animal e vegetal, só podia ser aprazível a quem necessitasse dessa forte solidão em que o homem, nos seus solilóquios constantes ou se transforma a si próprio em centro do Mundo ou finda por criar o vício das interrogações sem resposta.

(…)

Fora uma cena muito rápida. Holdsworth não a notara sequer e, com um sentimento prático, perguntava:

--Para onde vai esta água?

--Para os campos--respondeu Juvenal. E explicou-lhes que toda a ilha estava cortada por essas cordas líquidas, que rabiavam ao longo das serras, por entre as matas sussurrantes, furando as rochas, atravessando as montanhas, salvando precipícios abissais, outrora entre duas tábuas de til, formando calha, hoje em aquedutos de boa pedra, que a humidade tornara limosa e escura. A linfa corria, assim, quilómetros e quilómetros, para ir irrigar canaviais e vinhas, hortejos e pomares da terra baixa, que nem por estar à beira do oceano tinha menos sede. Nas levadas, que se contavam por centenas, residia toda a economia da Madeira, pondo de fora os bordados. Algumas tinham origem remota: as suas águas cantavam há muitos séculos já, dia e noite, noite e dia, por entre a folhagem murmurosa e o silêncio dos grandes abismos. Pertença do Estado ou de «hereos», seus donos associados, cada uma das suas horas, disputadas e valiosas, representava a vida da agricultura--aqui, ali, acolá, em toda a parte onde verdejasse o que dava sumo ou se podia trincar. Tinham-se gasto fortunas na abertura dos líricos canaizitos, nessa obra hidráulica singular de que a Madeira legitimamente se orgulhava, pois não era só utilidade que ali se colhia, mas também beleza e da melhor, uma beleza ora discreta, íntima, ora duma espectaculosidade deslumbrante. Quem visse a ilha por fora, do Funchal, de Machico, de Santa Cruz ou de Câmara de Lobos, não poderia avaliar quanto encantamento paradisíaco ela brindava a quem trilhasse os mainéis das suas levadas. Metro que se andasse, ou sugeria um parque original ou abria janela festonada para vales e montanhas de inverosímil recorte, como se tudo houvesse sido feito para ultrapassar o mais imaginativo de todos os criadores. Só ao longo das levadas o, espírito conseguia apreender a magnificência e a sedução da ilha famosa.

E não era das mais belas aquela que trilhavam. A do Rabaçal e das Queimadas superavam ainda toda a volúpia já sentida pelas pupilas curiosas. A água, o arvoredo, os despenhadeiros abruptos, as sinuosidades do terreno, os seus esporões e alcantilados imprevistos, criavam uma variedade panorâmica de fulgurante e inefável beleza. A água era uma ladainha, uma sinfonia da ilha. Ia múrmura ali, na estreita e intérmina prisão, mas antes de adquirir esse ritmo suavíssimo, que era quase silêncio, cantava nos desfiladeiros, nas gargantas, de fraga em fraga, por entre musgos e arbustos, ou caía de alto, num jacto, como se fosse despejada de cântaro colossal, que nunca mais se esgotasse. As vezes, era pingo sobre pingo, gota após gota, pranto manando de ignorados olhos verdes, que só o verão enxugaria; outras, um fio ténue, molhando chapéus e ombros de quem passava segurando-se à ribanceira, não fosse escorregar; outras, ainda, deslizava lentamente ao longo de altíssimas penedias--e tão certa, tão constante se mostrava na largura e na descida que, vista a distância, mais do que água luzindo ao sol, parecia lâmina de prata. Só o Rabaçal tinha, juntos uns dos outros, vinte e cinco jorros, mais belos do que todos os repuxos de jardim; e não havia levada que, no seu andamento de flanco para flanco, não fosse capturando e conduzindo para longe, pequenas cataratas de música vigorosa ou fontes de terno cicio.

Ao mesmo tempo, a população vegetal ostentava uma vida opulenta e fantástica. Era como se o incêndio tradicional não houvesse chegado até ali ou as cinzas das árvores que morreram tivessem servido de húmus à vegetação futura. Exceptuando a de Santa Luzia e uma ou outra vizinheira de povoados, as levadas alimentavam, no seu trajecto, bosques de bíblicas sugestões. Ele pr6prio, na das Queimadas, sobre a pontezita do Arrochete, tivera, um dia, a sensação de que ia ali surgir, nu, peludo, amaçacado, o homem edénico. A serra recolhia-se, em aguda e alta vertente, oferecendo de cada lado um tumefacto quadril. De cima, ao longo duma rocha, a água escorregava, luzidia e cantante. Acompanhava-a na descida, a um lado e outro, densa multidão de arbustos, musgos, fetos, azevinhos, de frutos que lembravam contas vermelhas, urzes de todas as idades, loureiros esgrouviados, frondes por toda a parte. Emaranhavam-se em ramos de extraordinárias expressões, folhitas que eram rendas vegetais, conjunto que matava o indivíduo para dar uma visão de totalidade maravilhosa. E sempre, sempre, na frescura dominante, a catavina da água, musicando o silêncio de floresta virgem.

Menos recatados e mais teatrais eram o Caldeirão Verde e o Rabaçal, onde se sentia, imperativamente, a necessidade de um ser inverosímil, de uma mulher enigmática e de eterna juventude, para quem a água executasse, nas imensas solidões, a sua intérmina melodia. As árvores, os recantos sombrios, as clareiras, discretas como uma alcova, o que se via e o que se imaginava e a água, sempre a água em melopeia, sugeriam um amor extra-humano, a vida feita só de amor--sem outra preocupação, sem outro objectivo, sem outra realidade !

[Ferreira de Castro, Eternidade, Lisboa, 1977, 13ª edição, pp. 65-66, 147-149, 196-197]