O aproveitamento do solo e do clima
Quanto mais se serpenteia em automóvel ou em carro pela costa sul da Madeira, mais se arreiga a convicção de que a ilha é um immenso rochedo fendido por todos os lados e que a terra aravel apparece alli aonde o antigo colono aguentou no socalco, industriosamente, em leito assente sobre armação de pedra, um quarteiro d'essas materias friaveis que são vestígios de decomposições de varias naturezas d'escoreas de mineraes arrefecidos apoz uma combustão produzida pelas forjas infernaes de vulcões espantosos, que reduziram os 760 killometros quadrados da superficie da ilha da Madeira a massas incandescentes. N'esse arrefecimento constituiram-se os basaltos, com o decorrer dos séculos, que se encontram em expessas camadas de rochas e que servem aos habitantes de material industrial constructor, como: diques d'escoreas mais ou menos desaggregadas e barreiras de conglomerados que se acamam stratificados aos veios.
Tudo isso se vê n'uma quebrada de ravina ou n'um corte de barranco e olhando-se para os planos dos degraus da enorme installação amphitheatrica da Agricultura da Madeira julga-se immediatamente pelo colorido e pela qualidade do solo a que constituição pertencem. Assim, o terreno acascalhado é o formado pela decomposição do agglomerado basaltico; o de saibro, que é o mais conveniente á vinha, é fornecido pelo tufo vermelho e constituido por quasi metade de sillex, quasi um terço d'oxido de ferro, vindo depois na composição as materias organicas, em maior quantidade, alumina, agua e enfim soda: a pedra molle, que e o tufo amarello, mais desaggregado do que o vermelho, compoe-se mais ou menos das materias d'este; o massapez contém bastante argila e é mais duro e consolidado do que os outros terrenos; os barros de côr avermelhada, esses são de composição aluminosa.
Todos esses terrenos, essencialmente seccos pela sua natureza areienta, desprovidos de materias organicas, portanto pouco humosos e humidos, constituem um solo muito especial, solto, oxigenado é certo, mas pouco provido d'elementos nutritivos proprios à alimentação das plantas e sobretudo de vegetaes que exigem, pelo caracter da sua cultura intensiva industrial, fortes e consubstanciosas massas de detritos animaes, humidade e mesmo dos proprios vegetaes decompostos, aonde possam prover- se de calvareos, phosphatos, azotes e hydratos.
Assim, excluindo os elementos chimicos de que se compõe o solo e que são fracos, se attendermos á extracção que fazem n'elles as culturas continuadas e que não deixam germens para uma transmutação, como nos bannanaes ou nas florestas que vão guardando o producto da queda d'esses germens que assim engorduram o terreno sob a protecção das proprias plantas; nem que tão pouco concorram para a fixação do terreno solto como se dá egualmente com a arborisação que cobre e protege a terra: excluindo esses elementos naturaes do terreno, só os estrumes ou adubos organicos, misturados com as regas das aguas das levadas, trazem a fertilidade á agricultura da Madeira.
E não será erro afirmar que os primeiros povoadores que assentaram na vastissima fajã do Funchal, estudaram n'ella os processos de fertilisar a terra e transformar a ilha n'um paiz habitavel e prospero ás commodidades da vida civilisada.
A ilha, segundo os chronistas, foi encontrada coberta d'arvoredo, e esse arvoredo, que no litoral era constituido por arvores de madeiras tenras e improprias para obra, como as dracenas, foi incendiado. Essas cinzas do bosque queimado, que serviu de clareira para o levantamenlo das primeiras habitações, foram os primeiros fertilisantes de que se serviram os colonos para os primeiros ensaios agricolas que fizeram na ilha; e as aguas das ribeiras de Santa Luzia e de João Gomes forneceram os hydratos e a humidade ao solo secco e areiento.
Ainda em vida de D. João I, isto é, antes de 1431, onze annos apenas apoz a descoberta, a agua das ribeiras, ás suas nascenças, era de tão reconhecida importancia para a agricultura, que foi pelas auctoridades regulada por diplomas especiaes, que tiveram por fim excluil-a da propriedade particular, tornada um bem commum, utilisavel pela collectividade com tanto mais direito quantos fossem os serviços por ella prestados á sociedade, submettida a principios juridicos discernidos pela magistratura, em caso de litígio.
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A Encumeada e a Costa Sul. Nas cercanias da Encumeada a Madeira offerece o aspecto pouco mais ou menos do estado em que se achava quando os navegadores a surprehenderam na sua virgindade e no seu isolamento.
Subindo a encosta que vae da Serra d'Agua á Encumeada na estrada da Ribeira Brava para S. Vicente, desfralda-se aos pés do viajante um d'esses macissos densos de verdura em que a flora é constituida por especies autocthonas, tão antigas como a descoberta em 1418.
Por entre um tapete verde glauco de folhados, de loureiros, de paus brancos e de tis, d'urzes arboreas que estendem os seus troncos contorcidos por cima da estrada, de 7 e 8 metros d'altura, nascem as uveiras, cujos pedunculos e folhas tenras d'um ruivo avinhado coloram a extensa encosta que desce da serra ao mar, gretada ininterruptamente por grotas, desfiladeiros, gargantas, ravinas, lombos, riscando o solo que, aonde é escalvado no corte abrupto d'alguma rocha ou no cabeço de qualquer monte, mancha de preto dos basaltos ou do vermelho acobreado do oxido de ferro dos barros, o panorama triste e solitario d'aquellas regiões situadas a mil metros d'altitude, batidas pelas nevoas em farrapos que de quando em quando cobrem-nas por completo, juntando-se em massa corredia, açoitada pelo vento, esbranquiçando o ambiente frio e cortante.
N'aquella magnificencia de linhas e profusão de contornos em que os caprichos da natureza accentuaram a sua phantasia inexgotavel d'inspiração e de gosto, não se repete mais o desenho; nada se avista de vida animal ou se regista de civilisação mais do que a nova estrada para onde vae descer o automóvel, e que é das poucas estradas que na Madeira não são onduladas a camalhão, calcetadas a seixos e usadas por carrinhos e corças a patins deslisantes para transporte de gente ou de cargas.
Do desfiladeiro cortado no terreno para a passagem da estrada e que assenta no cimo preciso da Encumeada entre o pico dos Ferreiros a leste e o Redondo a oeste, avistam-se umas nesgas dos dois mares que banham a ilha a sul e a norte e por entre as garganta da cavadissima ravina em que a comarca de S. Vicente se apega pelas vertentes, lá muito pelo fundo e muito dispersa, invisivel do alto da serra, mesmo na foz da ribeira que atravessa a villa, para poetisar a extensa solidão esquecida da civilisação e apenas lembrada, e mal, pela estrada, avista-se poisada quasi n'agua no extremo da ravina, pelo fundo da qual serpenteia a agua da ribeira de S. Vicente, uma capellinha de pescadores que parece um rochedo e que de facto é, no cimo do qual foi collocada uma cruz da fé e aberta uma cavidade para o lado da terra em que foi armado o altar no fundo do corpo do recinto, fechado por uma portinha rasgada n'uma fachada de maçonaria caiada em branco, simulando os dois tectos de qualquer construcção vulgar.
Já no caminho da Ribeira Brava por Figueiras e Serra d'Agua na vertente sul, durante a subida, se toma conhecimento com essas construcções d'estylo primitivo d'edades remotas e antediluvianas em que a rocha era aproveitada para camaras e fundos d'edificios, utilisada para lojas, tabernas e mesmo casas de moradia nas margens da estrada. Para este lado a casaria dispersa das aldeias é frequente á maneira que se vão offerecendo á vista os varios lanços da estrada galgando ribeirinhas, contornando grotas, marginando sempre o curso da Ribeira Brava, escavada na vertente oeste do mais profundo e estreito valle de toda esta encantadora ilha; e além da existencia humana que se manifesta nas casinholas cobertas de telha, construidas de pedra e cal, rebocadas d'argamassa e caiadas a côres vivas; não são raros os grupos de trabalhadores do campo que descem da serra com os seus molhos de folhado para os gados guardados nos palheiros, ou companhias de camponezes que desviadas roçam o matto para n'elle semearem cevada e trevo ou outras forragens e comidas.
A Encumeada prolonga-se por quasi loda a extensão da ilha na direcção este-oeste e constitue o berço aonde descançam secularmente tantas d'essas bellezas naturaes d'esta terra e que extasiam d'admiração os touristes que a vizitam, no Rabaçal, no Paul da Serra, no Curral Grande, no Arieiro, nos Balcões, em Santo António da Serra, etc.
É mesmo d'essa Encumeada, vertice da cordilheira estendida em espinha sobre o dorso da ilha, que descem como contrafortes, os lombos e os espigões em ondulações convexas e salientes que se intercalam com as reentrantes ou concavas, n'uma sinuosidade infinita e caprichosa, tão variada nas formas como constante e permanente no movimento.
Quer pelo lado do norte das vertentes da cadeia montanhosa, quer pelo lado do sul, raras são as chãs, as planicies, as rectas; o terreno é sempre em declive e corta-o uma grota ou uma ravina, no fundo da qual corre ás vezes a ribeira; ou barra-o um combro, uma sebe, uma collina; Um lombo, um barranco. A terra é por tal forma accidentada que mal cabe n'ella um espaço para concentrar uma povoação, e as aldeias, com raras excepções, são edificadas ao longo de ruas, e joeiram-se, offerecendo então essa curiosidade da dissymetria caprichosa que dispoz as conveniências dos habitantes e dos proprietários da localidade, em collocação desataviada, ao redor de um cabeço, pelo fundo de um valle, no calço de um comoro, nos degraus d'um d'esses numerosos socalcos que amphitheatram, de vinhedos e pequenas culturas caseiras, essa monumental escadaria rochosa que é a Madeira do calhau á serra.
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Duas habitações proprias á muda dos serviços de locomoção--duas bem providas tabernas com um outro edificio desoccupado que serviu a moinho d'agua --constituem essa posta da Choupana, dividida pelo caminho do Meio, marginado a nascente por mattas do Visconde de Cacongo e a poente pela Ravina que no inverno engrossa com as suas aguas as da Ribeira de João Gomes.
Os retoques do pincel espontaneos da natureza que outr'ora matisaram este local, foram substituidos pelas decorações dos artistas da industria: a ravina reveste-se de densas copas d'acacias floridas, acima das quaes sobem as filigranas dos ramos de frondosos carvalhos, que mancham do luzimento doirado das suas folhas, ainda lá em baixo, o espesso guarnecimento da profunda cova. incensos guarnecem as partes altas das suas bordas, onde dois chalezinhos de verão se encarrapitam em comoros sobre o espigão que forma uma das grandes paredes do Curral.
O sitio é isolado mas o solo offerece qualquer coisa de acommodador, de convidativo, sentindo-se a mão da Junta Agricola semeando e dispersando exemplares escolhidos dos seus jardins experimentaes, que agora mostram ridentes e decorados os outr'ora ermos e vetustos terrenos, entregues e abandonados ás transmutações da sua limitada flora.
As mattas extensas e espessas d'eucalyptos e pinheiros do Visconde de Cacongo marginam a leste a estrada do Meio e a levada da Serra, cujas aguas veem do sopé do Pico da Serra na vertente norte, passam pelos Lamaceiros, ladeiam a encosta leste da cordilheira do Santo da Serra e veem a 3 quartos d'altura na aba sul da cordilheira, atravessando a Camacha, quasi juntarem-se ás levadas que banham o Funchal.
São 40 killometros de calhas de boa alvenaria, das quaes se retira agua para extensas culturas de trigo, de vinha e de canna d'assucar nos terrenos cultivados pela encosta situados abaixo do aqueducto.
A matta é extensa e percorre-se bem meia hora de caminho sob as sombras do arvoredo aromatisado a effluvios d'eucalypto e de pinho, pisando-se a terra humida, até á encosta do Pico do Infante dominando as ravinas. D'ahi ve-se o Funchal lá muito no fundo, como anichado n'uma enorme concavidade abobadada, aberta ao alto, aguardando os seus cimos a archivolta recortada na Serra. A nevoa cobre-o, pairando por cima, n'uma immobilidade protectora, propria da primavera, tão tenue e diaphana como gazes tafues dos paramentos festivos proprios da estação; atravez, a casaria em esmalte destaca-se em massa confusa, como mosaico bysantino, desenhando a cidade, e n'esse fundo de abside invertida, guarnecida de verde, uma mysteriosa estrella ao acaso scintila as reverberaçoes dos raios solares, que incidem sobre uma claraboia d'edificio ou galeria envidraçada d 'atelier, luminosos como chamas de magnesio queimando de fogo branco a cidade em todas as direcções.
Atravessada a matta e contornado o Pico do Infante chega-se adeante a outro bosque plantado d'essencias varias em estylo de quinta d'acclimação, agrupando enumeras especies exoticas, n'um vasto predio que dá o nome ao cabeço e valle que reveste--Valle Paraizo; e para dentro, ao redor d'um jardim d'alegretes, por entre sébes d'arbustos, de pergolas floridas cobrindo alamedas, eleva-se a casa de campo dos viscondes d'esse título.
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A região que vem da Choupana por Valle Paraizo á Camacha, entre o caminho do Meio e a estrada dos Pinheirinhos, que desce da Camacha para o Palheiro, e que se acha plantada de abundantes tractos de matta, esta região era comprehendida no antigo Bardo, em parte logradoiro commum, e n'elle pastavam os gados manadios, que os proprietarios lançavam para lá marcados e ferrados e que viviam sob os olhos dos pastores inteiramente no estado selvagem. No Poiso a Santo Antonio da Serra, dirigindo-me para o Charco, supposto ser uma extincta cratera de vulcão, vi uns exemplares d'esses animaes selvagens--uma porca rodeada de bacoros, que pastava e que apresentava as caracteristicas d'animal serrano, com a espinha dorsal acorcundada, os pellos hirsutos e cerdosos, um grunhir desvairado.
Os Ornellas, proprietarios da região e de terras que se estendiam para Santa Anna na costa do Norte, começaram logo no primeiro quarteiro do seculo as culturas dos pinheiraes para lá, assim como na Camacha e para os lados de Valle Paraizo e Choupana, para onde se estendiam os terrenos que Luiz d'Ornellas e Vasconcellos acabou de cobrir de arvoredo n'uma extensão de cerca de 22 moios de superficie.
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N'um relatorio por elle dirigido ao Ministerio da Marinha em 10 de Agosto de 1823 se diz que 20 mil arvores tinham sahido dos viveiros do Monte para varios pontos da ilha da Madeira e do Porto Santo, o que dá uma ideia da influencia que tiveram os viveiros na decoração florestal e florida d'esta encantadora ilha; e que hoje mesmo em plena serra se verificam não só nos eucalyptos, nas acacias, nos carvalhos e nos pinheiros que cobrem os mattos e revestem as ravinas, como nas fuchsias que crescem sobre os muros e sobre as sébes, nos pelargonios arroxados ou avermelhados que se vêem em macissos, nas violetas que se intermedeiam pelas grotas com os morangueiros, e nas margaridas, malmequeres e papoulas que nascem nos campos.
As mattas estendidas n'essa facha da aba do sul da cordilheira e que do monte correm até á Camacha e sobem até ao Santo da Serra, são bem um documento do movimento florestal dos principios do seculo XIX, tão genuino como o Palheiro, situado na orla baixa d'essa zona d'arborisação, que acolheu uma variedade grande de plantas, entre as quaes aquellas que se desenvolvem mal nos jardins do Funchal, como as camellias, os rhododendros arboreos, os loiros-cerejos, as carochas ou magnolias, as groselheiras, as betulas, os lilazes.
Os jardins da vivenda, que se estendem para os dois lados e para detraz do palacete e dos tanques aquarios construidos pelo fundador, estáo profusamente plantados no coração do predio e correm ao longo de veredas cobertas de rosas marginaes, de bucheiros tosquiados em bordadura baixa, formando nos angulos e nos extremos caprichosos modellos d'aves ou balaustres: para dentro os canteiros juncados d'arvores, arbustos e plantas herbaceas cobrern-se de flores que desabrocham exhalando subtis e delicados perfumes que aromatisam o ambiente; para traz dos ultimos alegretes floridos e da arborisação, que é rala, começa a matta, por entre a qual desce a grota do Inferno, onde os fetos arboreos e negros se ellevam a 12 e 15 metros d'altura sob a copada de carvalhos, castanheiros e outras arvores a porte elevado n'um ambiente humido e a ingreme declive; emfim, na parte mais alta da quinta crescem as gramineas, e os carneiros aos bandos pastam á solta.
Sem ter entrado nos edificios nem nas dependencias,
nem tampouco ter visto as cavallariças ou a grania, que
constituem as outras curiosidades da Quinta do Palheiro, vi o
sufficiente para avaliar da fecundidade da flora de jardim acima
de 600 metros, que no Jardim da Serra, acima do Estreito de Camara
de Lobos, hoje pouco se avalia da influencia que teve na horticultura
da Madeira. Situado a 750 metros, a mais de 120 acima da altitude
do Palheiro, o Jardim da Serra estende-se ao longo da vertente
leste do espigão que avança pela ravina do Vigario
e divide a Ribeira d'este nome da do Jardim, que é sua
affluente e que lhe passa á cancella em corrente assaz
nutrida para conter a frescura no valle.
[Marquez de Jacome Correia, A Ilha da Madeira- Impressões e Notas Archeologicas, Ruraes, Artisticas e Sociaes, Escriptas de Janeiro a Maio de 1925, Coimbra, 1927, pp.77, 119-122, 165-167, 172, 175-176]