Os compêndios de geografia dizem, referindo-se às Desertas: «Um grupo de ilhoas sem importância».
- Efectivamente sem importância.
- Não existem habitantes nas Desertas, nem culturas, nem fontes, nem arvoredo. A vegetação é rara e magra, o solo é quase todo constituído pela rocha viva; não há, se pode dizer, terra arável. E as cabras selvagens e os coelhos bravos que lá crescem lutam com sérios embaraços para conseguirem viver..
Mas para mim as Desertas são um mundo.
Têm uma alma; uma alma estranha, profunda, eloquente. . . e variável também, como as almas humanas.
-Ao contemplá-las surgem-me na imagem as mais assombrosas evocações. Esqueço o tempo, encantada a ouvi-las, enquanto os meus olhos admiram os seus cambiantes divinos, os seus aspectos sempre novos e inesperados.
Ora se afastam para distâncias infinitas (visões etéreas, longínquas, inacessíveis) ora se aproximam claras, nítidas, com um. ar de sonoridade e de graça, mostrando os ângulos afiados das suas ravinas, os recortes agudos dos seus campanários, as rectas das suas torres e das suas ameias de basalto, o estranho conjunto da sua arquitectura de sonho que a luz transforma e onde o homem não tocou.
- As vezes são azuis, opacas; entristecem lá no meio do oceano como se tivessem nostalgias e se tornassem de repente misantropas. Outras vezes desatam a rir, fúteis, transparentes, radiosas de luz e de ligeireza.
Passam do azul escuro e turvo para o rosado macio da carne, como um barómetro de cobalto.
Falam de todas as tristezas e de todas as alegrias; são expressivas como gestos de tribunos, como rostos de actores; são impressionantes como vozes inspiradas de sibilas e de iluminados.
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Ah, minhas lindas Desertas, que eu agora mesmo estou vendo, irisadas, poisadas sobre o mar com a ligeireza de nuvens transparentes e efémeras! Que belas histórias elas me contam e como povoam a minha solidão! - As vezes, à hora do poente, nos dias em que o Sol mergulha no mar deixando no horizonte um brasido e o céu em volta semeado de nuvens resplandecentes, afigura-se-me que a luz ao despedir-se abraça e beija as Desertas e lhes confia, até à madrugada seguinte, o depósito sagrado das cores. - E então, enquanto o horizonte se vai a pouco e pouco apagando e que as sombras da noite principiam já a surgir do lado do nascente, eu vejo as Desertas imóveis e concentradas como três relicários. Tornam-se côncavas, translúcidas; transformam em cristal as suas rochas opacas; irradiam uma claridade sobrenatural como a taça milagrosa do Santo Gral. Contem no seio, fundidos, os amarelos pálidos, opulentos ou alaranjados dos topázios, o vermelho luminoso e rico dos rubis, o carmesim das granadas, o intenso e divino azul das safiras, o verde das esmeraldas límpido e profundo. Assemelham-se a três virgens cristãs ajoelhadas defronte do altar onde tivessem comungado e onde se -conservassem extáticas, transfiguradas pela intensa ilusão de possuírem em si um Deus de infinita bondade e de suprema beleza.
Mas o poente empalidece a mais e mais; a noite avança lá do nascente... E nas Desertas as cores amortecem lânguidas, descoradas, a morrer de saudades. Os rubis perdem o seu fulgor, as esmeraldas transformam-se em opalas, as safiras em turquesas, os topázios em ametistas doloridas, magoa.
Depois, na ilhota maior, as rochas altas e agudas desenham recortes vagos de catedrais goticas; e as cores prisioneiras, que momentos antes brilhavam como um tesouro pagão, cintilam agora amortecidos e misticos vitrais iluminados interiormente por círios lacrimosos e lâmpadas de azeite brujuleantes em volta de sacrários.
E eu evoco as lendas cristãs glorificadas na Idade Média, lembro-me dos milagres, dos martírios, dos prodígios; revejo as multidões de Belini em volta de Santa Úrsula, a Santa Catarina de Luini levada ao Céu pelos - três anjos, o S. Jorge de Carpaccio combatendo o dragão, todas essas coisas encantadoras e radiosas criadas pela fé e enobrecidas pela arte.
Os últimos reflexos do Sol vão desaparecer no poente... Em torno das Desertas, de toda a orquestração das cores triunfantes fica apenas o verde puro que não se funde, que envolve as ilhas moribundas numa auréola suave antes de ser absorvido pela sombra.
E a noite desce; e a lua surge no seu quarto crescente, como a lâmina duma foice, polida e fria, mostrando-me as Desertas negras boiando lá ao longe no mar.;.
Então o rumo das minhas ideias muda mais uma vez: penso nas focas de olhos de veludo que se abrigam nas misteriosas grutas daqueles blocos de basalto, gemendo e lamentando-se como almas penadas.
As focas... E aí vai a minha imaginação...
É que as Desertas tem a magia de Xerazade; e eu compreendo o Sultão que escutou as histórias maravilhosas, sem fastio e sem cansaço, durante mil e uma noites.
[Virgínia de Castro e Almeida, No Mar Tenebroso, 1934, in Cabral do Nascimento, Lugares Selectos de Autores Portugueses que Escreveram sobre o Arquipélago da Madeira, Funchal, 1959, pp. 123-128]