RAUL GERMANO BRANDÃO [1867- 1931]
Ao fim da tarde começa a erguer-se diante de mim uma coisa azulada e indistinta com uma grande nuvem cinzenta acachapada em cima. O sol que bate nos altos ilumina o cone dum monte e esguicha de entre as névoas sobre a extremidade dum morro quase negro. Já se distinguem as nodosidades disformes da terra e paredões, envoltos em fumaça que entra em rolos pelas fendas abertas da pedra; destacam-se, com majestade, do horizonte plúmbeo. Acentua-se a dureza, as chapadas, as ravinas, os cortes perpendiculares e cor de ferro, adivinha-se o drama que deve ter sido este parto, cheio de convulsões e de desmoronamentos, quando o grande cataclismo dilacerou e desmembrou o continente submerso, deixando patentes, neste resto, feridas que ainda hoje sangram. E nos bocados de cisco, que por acaso caíram e alastraram à beira-mar, agarraram-se meia dúzia de casinhas que têm por pano de fundo a massa espessa erguida logo pelo lado de trás. Seis horas:--tudo avança e se impõe em roxo, com riscos verdes de culturas e cumes doirados de montanhas; para o norte fixou-se uma aglomeração de pastas solenes que escondem a terra.
E a costa caminha, direito a mim, cada vez mais violenta e mais negra. Mete medo. Mal se distinguem as florestas nos altos enevoados, e os vales profundos por onde a água no Inverno deve cair em torrentes. O navio segue encostado à falésia, que deste lado da ilha não tem fundo, mostrando-nos a Madeira cortada por um machado que a abriu de lés a lés, atirando com a outra parte para o fundo do mar. 12 um bronze severo e trágico, que contrasta com a entrada do Funchal e a outra costa da ilha. Vou olhando para as povoações--Jardim do Mar, Paul do Mar, agarradas às muralhas, onde só distingo escorrências de zinavre. Só o homem! só o homem é que se atreve a cultivar socalcos abertos a fogo na perpendicularidade da falésia! (Vamos tão perto de terra que ouço os galos cantar.} Madalena do Mar, esmagada entre dois morros, que se reflectem em negro no veludo da água, Ponta do Sol e Cabo Girão, que a noite torna mais espesso e maior... Todo este panorama, na cinza do crepúsculo, recortado em negro num céu cor de chumbo, transformado pelas nuvens que baixam ainda mais, e desdobrando-se em sucessivos recortes sobre a tinta parada das águas, assume proporções extraordinárias. Já mal distingo a terra até à ponta desmedida da Cruz, por trás da qual nos espera o porto de abrigo. A cada momento que passa, mais alto e mais escuro se me afigura o paredão que nos intercepta o mundo. Só há uma vaga claridade para o lado do mar; o resto é negrume alcantilado e monstruoso colaborando com a espessura da névoa e o indistinto da noite. Uma luzinha se acende na imensa solidão e na mancha cada vez mais opaca. É o homem, subvertido, duas vezes isolado entre a montanha e o mar. É uma alma. E essa pequenina luz humilde chega a ser para mim extraordinária de grandeza: é uma estrela que me faz cismar.
14 de Agosto
De manhã acordo em terra. Abro a janela e entra-me pela janela dentro o cheiro a trufa. Corro tudo no primeiro momento--as vielas animadas, as ruazinhas calçadas de seixos ensebados, onde deslizam carros de bois sem rodas, pintados de amarelo, com toldos frescos e cortinas de ramagem apartadas ao meio. Olho para as casas brancas e amarelas, de beirais caiados de vermelho e gelosias pintadas de verde, que dão ao Funchal um carácter familiar e íntimo. Tudo me surpreende: o calor, a luz forte, o jardim com fetos e um grande jacarandá de flores roxas, arbustos penetrados de satisfação, que na imobilidade e no silêncio vão desfolhando sobre a terra e deixando um charco rubro em roda. Uma gota de água cai ali para o fundo sobre outra água imobilizada. O ar é um perfume gordo. Sento-me sob os grandes plátanos que nos recebem ao desembarcar do porto --mancha impenetrável e deliciosa. Subo: um largo irregular e depois a igreja, grande cofre de sândalo com doirados e incrustações em madre-pérola. Lá dentro cheira a incenso e a madeira preciosa; cá fora, por cima dos telhados, descobre-se sempre a carcaça denegrida da serra. Vou ao mercado --o mercado atrai-me: pequenino, com duas ou três árvores e uma fonte, todo ele transborda de fruta como um cesto cheio--cachos de bananas amarelas, alcofas de vindima a deitar fora, com damascos, figos pretos sumarentos e entreabertos, a destilar sumo. Toda a fruta aqui é deliciosa e a banana deixa na boca um perfume persistente para o resto da vida. Ao som da fonte de mármore que reluz em fios com uma Leda no alto agarrada ao seu voluptuoso cisne, isto forma um quadrinho todo em manchas coloridas, com sol às mãos-cheias por cima. A primeira vista, confunde: tem a gente de colocar-se a distância, como nas pochadas, para distinguir as uvas doiradas, as papaias, o vermelho dos tomates, as araras e as aves exóticas penduradas nos troncos, e sob os toldos, entre guinchos de macacos de S. Tomé e o falatório cantado do povo da Madeira, as mulheres de lenço branco na cabeça e botas de cano alto e rebuço, que preparam farnéis para a festa do Monte, os homens tisnados e secos, as inglesas de cabelo curto, vestidas de branco, cortadas pelo mesmo padrão que a Inglaterra agora fabrica e exporta para todo o mundo. A vista falha e perturba-se, o cheiro entontece. É preciso meter o pincel para aqueles fundos para dar as sombras roxas com muito azul, o verde-negro das couves, o quadro estonteante orvalhado pela fonte.
Reparem como a própria sombra é luminosa e palpita. Com ela palpita o doirado das bananas, o amarelo dos melões, o vermelhão intenso das malaguetas enfiadas em rosário. E se um cesto sai da sombra para a luz, então os frutos faíscam, ardem e adquirem transparências extraordinárias. E a água cai aos pingos, a refrescar o quadro, misturada com sol reluzindo, que pincela aqui, pincela ali, por entre as árvores.
Mas para ver a cidade e os subúrbios em conjunto sobe-se ao Pico de Barcelos. À medida que me afasto do centro, vão aparecendo casinhas isoladas entre jardins, e as largas folhas das bananeiras, ainda em botão roxo ou onde pende já todo o regime amadurecido. Lá do alto descobre-se enfim o majestoso anfiteatro. É uma grande concha, que termina dum lado no Pico do Garajau e do outro na Ponta de Santa Cruz, com o fundo de serra ondulado. Os vales e as linhas dos talvegues vêm lá de cima rasgados pelos enxurros sobre um leito de pedras em estilhaços, escorregadias e azuladas. Isto escuro, plúmbeo? porque o céu forra-se de nuvens que envolvem os montes.
Para o espectáculo completo é preciso escolher a manha, a tarde, ou os dias puros de Inverno, porque o céu da Madeira anda quase sempre nublado, correndo a fumaceira pela barreira imensa que toma todo o horizonte do lado da terra e desce até ao mar em rampa retalhada de culturas e povoada de casinhas que se vão aproximando e apinhando ao chegarem à cidade branca e sensual. Tudo que se avista. à excepção dos cumes denegridos. foi dividido em hortas, em poios de cana muito verdes, em quintalejos de rama, donde irrompem tufos de bananeira, numa amplidão que entontece e deslumbra. São léguas de fertilidade, de jardins, de campos e culturas, que nos impõem o recolhimento e o silêncio. À direita, a serra estende-se até Câmara dos Lobos. Só depois que me afaço--os olhos afogaram-se-me em azul- é que distingo os riscos violetas das encostas, as vivendas lá no alto entre vinhas e pomares, os prédios rústicos pendurados na rocha e agarrados à montanha, aberta ao meio por um rasgão violento e romântico. O carácter desta paisagem bem o procuro... Atrai-nos por todos os sentidos e só tem um desejo--amolecer-nos e decompor-nos... Espreito os jardins dos palácios, onde tudo se conserva alinhado e correcto, e as casinhas rústicas, que são o meu enlevo. Passo e entrevejo um banco. Às vezes basta um muro caiado com meia dúzia de vasos e flores--para ter uma sensação de encanto que não encontro aqui. Falta uma pontinha de melancolia, aquela alma de certos recantos portugueses que, com dois caminhos, uma igreja, um pinheiral e um sopro de erva, nos comunicam uma impressão deliciosa de repouso e saudade. Faltam-me as manhãs enevoadas e pálidas, os dias loiros e desconsolados com algumas sardas. Esta paisagem não se contenta com duas ou três árvores, o ar fino e pouco azul derretido: é exigente e pesada. t materialista e devassa. Ao mesmo tempo é bela.
As palavras pouco exprimem nestes casos: o principal na Madeira é a luz que cria e tanto amadurece o panorama como os frutos, porque a única imagem que encontro para este conjunto é a dum fruto maduro que tomou pouco a pouco, com os vagares de quem não tem mais que fazer, as cores do Sol, as da manhã e do poente, e que chegou a um estado perfeito que delicia e perfuma ao mesmo tempo. A terra emerge da tinta azul com os tons quentes do ananás, que é o morango dos trópicos--paraíso sem frio nem calor, a que se ajunta ainda o sabor dos vinhos bebidos aos golos e cuja transparência se avalia através do vidro erguendo-o para a luz. A luz! dar a luz, seria tudo, mas só um pintor encontra este doirado--azul diluído que envolve toda a paisagem deitada a nossos pés como as mulheres que oferecem os seios duros com impudor e inocência ao mesmo tempo. As próprias árvores que irrompem de todos os lados--estranha vegetação tropical misturada com todas as outras: ciprestes, cactos, plantas envernizadas, entre grupos de pinheiros mansos e grandes seres imóveis e fortes, estendendo a ramaria sobre as ruas, são de carne. Aprendi na escola aquela santa história dos três reinos da Natureza--mas aqui as árvores, vigorosas e duma verdura gorda, pertencem sem dúvida nenhuma ao reino animal.
15 de Agosto
Todas as noites não pude pregar olho. Duas, três horas sem dormir. Na rua passam guitarras e rodam automóveis com mulheres. A noite é uma volúpia e o ar deste clima tropical uma carícia logo que desaparece o Sol. De manhã bato para a serra.
O Funchal para o Sul a costa é quase sempre cortada a prumo: Santa Cruz, e lá no alto o Senhor da Serra; uma fenda enorme por onde entra o mar--Machico, e logo o Caniçal à beira de água e o relevo caprichoso da Ponta de S. Lourenço. Para lá do cabo começa a costa norte, a parte mais selvática, mais verde e talvez a mais bela desta ilha tão variada e decorativa. Ao fim da tarde os morros formidáveis, vistos de bordo, sucedem-se num cenário espesso, que se desenrola em manchas escuras, com um resto de fuligem de sol pegada àquela imensidade, que nessa hora ainda parece mais vasta. A Madeira é um maciço de serras cortadas a pique na costa oeste, descendo até ao mar na costa norte e mais cultivado nos vales e gargantas inundados pelas águas.
O interior da ilha é montanha em osso com excepção do Paul da Serra. A parte onde só fazem as culturas ricas, a mais agasalhada e onde não cai neve, a que eles chamam folheto, é o Sul, que produz a cana no litoral e a vinha nas encostas. No Curral das Freiras--- cordilheira central-- curioso vale de erupção, ravina enorme apertada entre vertentes alcanti1adas, com profundidades que metem medo e que vão até oitocentos metros, deparam-se povoaçõezinhas perdidas, o Livramento. a Fajã Escura, o Curral, etc. Este sítio revolvido e dilacerado explica talvez a formação da ilha, onde se encontram mais vestígios de crateras, com indícios de erupções relativamente recentes, nos charcos do porto Moniz, na Caniça, no Caniçal, etc.
Desfilam ainda diante de mim as gargantas apertadas, só sombra, e uma encosta iluminada a toda a luz--profundas vertentes alcantiladas, num rasgo a prumo--cerros pedregosos gerados pela erupção, a ribeira que escorre no sopé dos picos Ruivo e Canário--aldeiazinhas tão isoladas no alto de morros--o Pico da Figueira, o Curral, a Fajã Escura-- barrancos formando o leito de torrentes--terrenos desolados e pedregosos, por onde deve andar o diabo em dias de vento. Depois, outra vez a paisagem se modifica: os montes figuram castelos arruinados e ferozes da Idade Média. É outra a vegetação--loureiros e o til nos fundos onde encharca a humidade. Desolação e surpresa, contrastes, amplos cenários de serra e mar, como no alto do Senhor da Serra, onde os pulmões são pequenos para se encherem daquela atmosfera perfumada. Agora o sítio triste entre penedia negra, e cheirando a peixe, da Câmara dos Lobos, logo algumas aldeias, à beira de pequenos retalhos cultivados, com molhos de lenha secando à porta das choupanas. Às vezes um açude para a rega, a greta donde escorre a água, e lá para o fundo o abismo, com um espigão tremendo ao lado que faz sombra e favor: há sítios destes no Curral onde o sol só entra durante cinco ou seis horas por dia."
[Raul Brandão, As Ilhas Desconhecidas, Lisboa, s.d.; 1ª ed. 1926, pp.176-182]