A primeira impressão da ilha da Madeira -tenebrosa e farta - é flagrante desacato a esses modelos respeitáveis e vem tributar-nos, a despeito de tudo, a estesia que honramos.
Mas como chega depressa a reconciliação e como esmaece a aparente hostilidade suavizada em trechos surpreendentes, infinitamente diversos e de engenhoso arranjo !
Pois haverá no mundo paisagem mais aliciadora do que esta que eu desfruto, agora mesmo, do jardim embalsamado e silencioso- da Quinta Vigia ?
Tudo é imobilidade e sossego no panorama em gris que a minha vista abrange: mar de calmaria, adamascado, com a sua orla bordada de barcos em relevo - cascos de seda frouxa e mastreações de retrós - à luz igual, branca, branda, que o alto céu leitoso coa do Sol que se não vê; as verduras maciças da serra aliviando-se da espessura em verduras mais tenras, ao contraste dos casais caiados, e ao longe, sombrejando o horizonte, uns arremedos de Capri, ilhas perdidas cujas corcovas montam por sobre a última linha do mar.
Os jardins aéreos da Quinta Vigia são refúgio inviolável a quem busca isolamento durante o dia, e o predilecto lugar de reunião, durante a noite, para quem não prescinde de diversões mundanas - com paradas à roleta. Paraíso com sol e Inferno com lua, sentenciará talvez o moralista vivaz e importuno. Eu não moralizo, amigo bem sabe; eu venho aqui de dia, quando fico no Funchal a descansar dos meus continuados passeios pela serra.
Dentro da cidade não há sítio mais adequado a retiros intelectuais e, decerto, merecem preferência a quaisquer outras as horas de calor, contanto que se aviste e oiça o mar, para, sossegado o corpo, abrir ensanchas à imaginação e senti-la então largar pano, pouco a pouco, buscando rumo e hesitar na derrota até que, ao leve sopro do mais fortuito indício, se faça de vela direito a remotas, desconhecidas, almejadas plagas.
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Mas se as paisagens observadas até aqui, embora preciosas, não escapam à humilhação .das analogias deprimentes, urge notar-lhe que divisei aspectos de irrefutável originalidade na minha recente jornada ao Curral Grande ou Curral das Freiras.
Esta pavorosa depressão geológica encerra no círculo das suas muralhas de granito negro, à profundidade de muitas centenas de metros, um vastíssimo e deslumbrante tapete de tintas fundidas a primor em culturas variadas e prósperas. Tal é a surpresa de encontrar assim entregue à monstruosa aglomeração de rochas bravias a guarda daquela maravilhosa alfaia, cujo desenho" e colorido somente se explicariam nas combinações duma arte reflectida e consumada, que não sopeamos a fantasia e, à incitação do conjunto fabuloso, para ali trasladamos instintivamente quadros mitológicos, imaginando que ali mesmo se congregaram os exércitos de titãs para ocultar o seu paládio, antes de acometer o céu.
0 Prestava-se a luz à visão perfeita, exaltada na transparência do ar que acendia as cores como cristal puríssimo, das alturas onde me assomei. Tudo ali era pintura; nenhum relevo perceptível destrinçava as árvores de outra vegetação mais chá; as casas denunciavam-se no rigor geométrico das suas manchas e movimento algum traduzia o gorgulhar do homem naquele fundo matizado onde - a impressão do isolamento absoluto, de alheamento expiatório, de natureza enclaustrada sobrepujava a qualquer outra.
[Manuel Teixeira Gomes, Cartas Sem Moral Nenhuma, 1904, in Cabral do Nascimento, Lugares Selectos de Autores portugueses que Escreveram sobre o Arquipélago da Madeira, Funchal, 1959, pp.66-67, 71-72]