INTRODUÇÃO


A literatura é um testemunho confidencial dessa relação do homem com o meio envolvente, que se revela no dia a dia ou numa primeira descoberta do visitante. Compilados alguns destes últimos testemunhos conclui-se que a visão que o visitante tem da Madeira obedece a estereótipos, dando a ideia de estar-se perante um produto que se vende aos visitantes. Os locais de referência e deslumbramento são quase sempre os mesmos, isto é, Pico Ruivo, Rabaçal, Caldeirão Verde (...) O êxtase e estupefacção perante a realidade que se depara assume expressões e descrições repetitivas, quase que decalcadas umas das outras.

Para muitos a ilha é uma lenda que aqui se reforça com novos testemunhos. É a lenda com título de Flor do Oceano, que tem expressão tanto em Francisco Travassos Valdez como Júlio Dinis. Outros há, no entanto, que se detém com o deslumbramento daquilo que se revela diante dos olhos. É o quadro que se segue nos testemunhos de Julião Quintinha, Hugo Rocha e Henrique Galvão. Para quase todos a prolixa presença de flores nos espaços ajardinados da cidade e das quintas ou na harmonia de paisagem são testemunhos da beleza incomparável da ilha. Deste modo António da Costa Macedo definia com um Jardim da Flores. A presença das flores leva ao deslumbramento de João Ameal com os jardins, enquanto M. Teixeira Gomes se detém no da Quinta Vigia. É na verdade no espaço definido pelas quintas madeirenses que mais se expressa essa exaltação da ilha. Destas são de visita obrigatória as do Palheiro Ferreiro e Jardim da Serra. A quinta madeirense, segundo Luís Teixeira define-se pela exoticidade do seu espaço.

A imagem bíblica do Éden está presente na maioria dos escritos de uma manifestação explícita ou implícita. Beltrão Pato define aquilo que vê como um espectáculo paradisíaco e compara os vales da ilha que o acolhe aos do paraíso. E, Edmundo Tavares atrever-se mesmo a definir a ilha como um "rincão de magia e sonho, verdadeiro Éden o paraíso Terrestre", destacando o contraste entre o quadro natural e os jardins da cidade, definidos por uma variedade de flores.

Esta é a ideia dominante em todos ou quase todos os testemunhos que compilamos. Mas esta primeira visão poderá ser complementada com outras reveladoras de outras preocupações, nomeadamente a de entender como aqui se delineou a relação do homem com o meio. A forte presença do homem neste cenário é assim motivo de atenção para a maioria dos que escrevem sobre a ilha. Ao deslumbramento da paisagem, agreste, florida, segue-se a exaltação da presença humana.

Quem melhor entendeu essa realidade foi J. Vieira Natividade. Para ele aquilo que conta na ilha que veio encontrar em pleno século XX foi a acção do homem. Aliás, a "A Madeira é obra de ciclopes", sendo o próprio vilão na sua fisionomia a "personificação da paisagem". Ele "não venceu a rocha apenas com a picareta e a força dos seus músculos, senão com a férrea têmpera e a sua indómita coragem". Para ele a ilha não é o Éden, mas sim "a epopeia do trabalho, a glorificação da sua labuta heróica", por isso, estamos perante um "campo de luta do homem contra as forças hostis da natureza". Esta opção foi definida desde o início da sua ocupação pois Zarco e Tristão lançaram um olhar cobiçoso "para os troncos dos arvoredos preciosos e para o solo fecundo em que a floresta vicijava".

O trabalho secular expresso nos poios, nas produções agrícolas e no casario que emoldura as ravinas da ilha, é aquilo que se fica da primeira impressão da retina que se sobrepõe à visão do paraíso. Este labor do ilhéu para humanizar o meio adverso é também testemunhado por Raul Brandão, Edmundo Tavares e Maria Lamas.

Para além desta repetitiva viagem da ilha pode-se constatar o interesse por outras realidades, por vezes reveladoras de preocupações ambientalistas.

Bulhão Pato, após o deslumbramento da Quinta do Palheiro Ferreiro, detém-nos nos "bosques, em que os ramos de flora europeia abraçam e beijam as árvores dos trópicos..." Aqui a bondosa floresta não é uma realidade anónima.

Ferreira de Castro vai mais longe nas suas observações. Primeiro tendo em conta a imagem do empenho que devastou a ilha nos inícios de ocupação conclui feliz que o mesmo não chegou ao recôndito Rabaçal. No Poiso fica preso da imagem do "seu despovoado, animal e vegetal" que contrasta com o vale de loureiros da encosta de S. Vicente. Mesmo assim a acção do homem não é condenada pois ela foi capaz de transformá-la: "A ilha deixara de ser bosque para ser bosque, horta e jardim".

Já no volume que o Marquês de Jácome Correia dedicou à madeira as preocupações são distintas dos demais que acabamos de referir. Não é o espectáculo visual de natureza que o atrai mas a forma como tudo isto aconteceu. Primeiro é a forma de formação da ilha e a descrição do seu solo, a que se juntam as espécies autóctones da flora local. Em contraste com esta realidade evidência a acção do homem no repovoamento florestal da ilha com eucaliptos, pinheiros, acácias, carvalhos e pinheiros, que invadiram a ilha, nomeadamente a vertente sul desflorestada, a partir do século XIX.

Do testemunho de escrita madeirense retivemos apenas Eduardo Nunes e Horácio Bento de Gouveia. Enquanto no primeiro o olhar da natureza se espelha através da imagem e escrita dos visitantes, para o segundo é a própria vivência rural que o leva à exaltação do ruralismo dessa ancestral ligação do homem ao meio que o envolve e domina.

 

BIBLIOGRAFIA GERAL

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