As Saudades da Terra podem ser consideradas o testemunho da situação da Madeira em finais do século XVI, altura em que o padre açoriano as escreveu.
Recolhidos aos navios, teve conselho o capitão para descobrir a terra dali para baixo; e assentou-se per parecer do piloto, que deviam de deixar ali os navios e com os barcos descobrir a ilha, por lhe ver muita penedia, dizendo que assim podia ser ao longo da costa; o que parecendo bem ao capitão, logo ao outro dia se meteu nos batéis com os principais da frota, levando mantimentos e todo o necessário.
O capitão ia no batel do navio com o piloto, e do outro deu cargo a Alvaro Afonso; e foram, assim, correndo a costa com brando mar, galherno (sic) tempo e manso vento, em calma a costa toda à beira da terra, e, passada uma ponta que fazia a terra para baixo, ao Ponente, viram ao pé de uma rocha que entrava no mar, sair dela quatro canos de água que a natureza ali fizera tão formosa, como se fora chafariz feito à mão, onde, tendo o capitão desejo de saber que tal era aquela água, que tão clara parecia, mandou buscar dela e achou-a que era estremada, boa e fria e leve, e daqui levou uma vasilha para o Infante, antre outras coisas que lhe encomendou.
Correndo mais abaixo, sempre apegados com terra, acharam em um fresco vale e ameno prado um ribeiro de agua, que vinha sair ao mar com muita frescura; ali fez sair alguns em terra, onde os que saíram acharam outra fonte, que saia debaixo de um grande e antigo e liso seixo, e era tão preciosa e fria, que mandou dela encher outra vasilha para levar ao Infante; e põs este porto nome (por causa do que nele achou), o porto do Seixo, como hoje se chama.
Indo assim costeando a ilha ao longo do arvoredo, que, em partes, chegava ao mar, passando uma volta que faz a terra,. entraram em uma formosa angra, na praia da qual acharam um formoso e deleitoso vale, coberto de arvoredo por sua ordem composto, onde acharam em terra uns cepos velhos derribados do tempo, dos quais mandou o capitão fazer uma cruz, que logo fez arvorar em um alto de uma arvore, dando nome ao lugar Santa Cruz, onde se depois fundou uma nobre vila, a maior, mais rica e melhor povoação de toda a parte de Machico- e é tão nobre em seus moradores, que, a não ser Machico cabeça daquela jurdição, por ser primeiro achada, ela fora cabeceira e a principal de toda aquela capitania, que tão bem assentada esta, onde tinha alfândega e oficiais dela.
Passados mais abaixo, em uma parte da terra saíram, por estar tudo cercado de altas rochas e arvoredo, é não viam mais que correntes, ribeiras, fontes e regatos, que, por antre ele, vinham com grande frescura deferir ao mar.
Chegados a uma alta e grande ponta que a terra fazia grossa e alcantilada no mar, acharam nela tantos garajaus, aves do mar, que sem nenhum medo se punham sobre suas cabeças e sobre os remos, que eles tomavam com a mão com que houveram muito prazer e fizeram grande festa e, por esta causa, ficou o nome à ponta do Garajau, que está quatro léguas de Machico para o Ocidente, ou três (como outros dizem); desta ponta descobriram outra abaixo, que seria dali duas léguas, e fazia-se antre estas duas pontas uma formosa e grande enseada de terra mais branda e ares frescos, toda coberta de formoso arvoredo, tão igual, por cima, que parecia feita à mão, sem haver arvore mais alta que outra, e, além de ser muito alegre à vista, vinha beber toda na água, que parecia a Natureza meter todo seu cabedal em perfeiçoar obra tão acabada. Antre este arvoredo igual e espaçoso iam entremetidos alguns cedros, tão altos que se divisavam por cima das outras árvores, que eles mui bem conheciam pela experiência que deles atrás tinham, onde acharam muitos.
Antes que chegassem a este deleitoso vale, foram correndo a costa, que de altas rochas era, sem acharem lugar onde sair, senão em uma ribeira que bota uma pedra ao mar, em que podem desembarcar como em cais; ali mandou o capitão o seu amigo Gonçalo Aires que saísse em terra nesta ribeira, com certos companheiros, e andassem pela terra algum espaço ver se havia nela alguns animais, ou bichos, ou serpentes e cobras venenosas, e não se afastassem da corrente da água para se saber tornar aos batéis, que no mar deixava. Foi Gonçalo Aires com os companheiros correndo a terra por espaço de três horas, no fim das quais se agastava já o capitão com a tardança deles, senão quando eis que assomavam pela ribeira abaixo, com capelas na cabeça e, enramados, vinham falando com muito prazer que não achavam coisa viva, senão aves; e daqui ficou nome à ribeira de Gonçalo Aires.
Chegados ao formoso vale, que de lisos e alegres seixos era coberto, sem haver outro género de arvoredo, senão muito funcho que cobria o vale até o mar por bom espaço, saíam deste deleitoso vale ao mar três grandes e frescas ribeiras, ainda que não tão soberbas, na aparência como a de Machico; eram, porém, muito formosas por todas virem acabar no mar, saídas deste vale. E, pelo muito funcho que nele achou, lhe pôs nome o Funchal (onde depois fundou uma vila de seu nome, que já, neste tempo, é uma nobre e sumptuosa cidade), no cabo do qual estão dois ilhéus, onde se foram abrigar por ser já tarde, e tomou em terra água e lenha, com que fizeram de cear, em um deles, de muitas aves que tomaram; depois disto foram dormir aos barcos e, como foi manhã, passaram mais abaixo. E, chegados a uma ponta, que no dia dantes tinham visto, mandou o capitão pôr nela uma cruz, donde lhe ficou o nome Ponta da Cruz. Dobrando esta ponta, foram dar em uma formosa praia que, pela formosura e assento dela, lhe pôs nome a Praia Formosa.
Prosseguindo João Gonçalves seu descobrimento pelo modo acima declarado, com seus batéis e companhia, antre duas pontas viram entrar no mar uma poderosa e grande ribeira, na qual pediram uns mancebos de Lagos licença para saírem em terra e ver a ribeira, que espaçosa e alegre parecia. E, ficando o capitão com os outros no batel, os mandou lançar fora pelo barco de Alvaro Afonso, os quais, em terra, cometeram passar a ribeira a vau e, como ela era soberba em suas Aguas, corria com tanto ímpeto e fúria ao mar, que na veia da agua caíram e a ribeira os levava, onde correram sem falta perigo, se o capitão do mar não bradara ao batel de Alvaro Afonso, que em terra estava com a gente, onde eles foram, que corressem depressa aqueles mancebos, que a corrente da ribeira levava, às vozes do qual foram os mancebos acorridos e livres do perigo da agua, com que o capitão ficou contente, porque os trazia nos olhos; e daqui ficou o nome ã ribeira, que hoje, este dia, se chama Ribeira dos Acorridos, que peor pareceu àqueles mancebos de perto, do que lhe pareceu primeiro de longe.
Daqui passaram mais abaixo até dar em uma rocha delgada, a maneira de ponta baixa, que entra muito no mar, e, entre esta rocha e outra, fica um braço de mar em remanso, onde a Natureza fez uma grande lapa, a modo de câmara de pedra e rocha viva; aqui se meteram com os bateis, onde acharam tantos lobos marinhos, que era espanto, e não foi pequeno refresco e passatempo para a gente, porque mataram muitos deles e tiveram na matança muito prazer e festa, pelo que deu nome a este remanso Câmara de Lobos, donde este capitão João Gonçalves tomou o apelido, por ser a derradeira parte que descobriu deste giro e caminho, que fez; e deste lugar tomou suas-armas, que el-rei lhe deu, tornando ao Regno, como adiante contarei.
Deste lugar de Câmara de Lobos não passaram mais para baixo, assim porque lhe ficavam os navios longe, como porque daqui não puderam ver bem para baixo a costa com o muito arvoredo. Contudo, quando se saiam desta câmara e remanso, da ponta do mar viram uma rocha muito alta, logo ai apegado e arrebentar no mar em uma ponta que ela abaixo fazia, a qual lhe ficou por meta e fim do seu descobrimento, e lhe deram nome o Cabo de Girão por ser daquela vez a derradeira parte e cabo do giro de seu caminho. Daqui tornaram outra vez dormir aquele dia ao ilhéu da noite passada, onde dormiram nos batéis a ele abrigados, e, ao outro dia seguinte, foram dormir aos navios e, chegando com muito prazer, acharam com muito maior os que neles ficaram, pelos verem tão contentes e satisfeitos da fertilidade, frescura e bondade, que lhe contavam do sitio da ilha e portos que deixavam descobertos, fazendo todos, juntamente, muita festa e dando muitas graças ao Senhor, pela grande mercê que lhes tinha feita.
Partidos, pois, estes capitães de Lisboa, trouxe João Gonçalves sua mulher, Constância Rodrigues de Almeida (pessoa tão católica, como virtuosa), e três filhos que dela tinha, João Gonçalves, Helena e Breatiz, meninos de pouca idade. E deu licença el-rei a toda a pessoa que quisesse vir com ele para povoação das ditas ilhas, assim a do Porto Santo como da Madeira; mandou dar os homiziados e condenados, que houvesse pelas cadeias e Regno, dos quais João Gonçalves não quis levar nenhum dos culpados por causa da fé, ou treição, ou por ladrão; das outras culpas e homizios levou todos os que houve e foram dele bem tratados; e, da outra gente, que por sua vontade queriam buscar vida e ventura, foram muitos, os mais deles do Algarve.
Levaram estes capitães gado e aves, animais domésticos e coelhos para lançar na terra. Chegados ao Porto Santo, foram dar em um porto da banda de Leste, onde acharam uns frades da ordem de São Francisco, que escaparam de um naufrágio, de que todos pereceram, senão eles, que acharam quase mortos, por não terem que comer; donde deram nome a este porto, que se ora chama o porto dos Frades.
Saídos todos em terra, pareceu bem a Bartolomeu Palestrelo a disposição dela, por ser fresca, de bons ares e sadia, e começou a povoa-la, tirando em terra a gente que quis ficar, e animais, galinhas e coelhos, os quais multiplicaram depois nesta ilha do Porto Santo de tal maneira, e em tanta quantidade, que foi a maior praga que houve na terra, porque não deixavam criar erva verde na ilha que a não comessem, e com paus e às mãos os matavam sem os poderem desinçar; e ainda hoje em dia ha tantos, principalmente em um grande ilhéu, que apegado com a ilha está, que, dos muitos que se nele criam, tem nome dos Coelhos, e é o melhor refresco da terra, onde vai muita gente folgar, e dia se faz que se matam duzentos, sem os acabarem de destruir.
( )
A ilha do Porto Santo é pequena, mas fresca, de bons ares e sadia, ainda que não tem boas águas, por ser seca e de pouco arvoredo, e o principal (tirando os dragoeiros) é zimbro e urze. Esta no caminho, quando vão de Lisboa para a ilha da Madeira, da qual esta vinte léguas de porto a porto, quero dizer, do porto da Vila ao porto do Funchal, e de terra a terra são doze léguas Está em trinta e três graus de altura, da parte do Norte. É pequena e quase redonda, de três léguas de comprido e uma e meia de largo, ou pouco mais. Está Nordeste Sudoeste sua compridão, que começa do porto das Cagarras, que está da parte do Oriente, ao Nordeste, até o ilhéu do Boqueirão, que está da parte do Ocidente, ao Sudoeste. E a largura pelo meio é da Vila, que está da banda do Sul, até a Fonte da Areia, que cai da banda do Norte; e quase toda é da mesma largura. E demora esta ilha Nordeste Sudoeste com os Cachopos e está de Lisboa cento e quarenta léguas.
No porto das Cagarras, assim chamado por haver ali na rocha muita criação delas, que está da banda do Oriente, ao Nordeste da ilha, vem ter ao mar de longe uma ribeira salgada; dele vindo, pela banda do Sul, para o Ocidente, perto de uma légua está uma enseada pequena, onde aboca uma ribeira de agua salgada, ainda que vem de longe, dantre umas serras, e aqui chamam o porto dos Frades, pela razão já dita, e é bom porto.
Do porto dos Frades, pouco mais de meia légua, indo para o Ocidente pela mesma parte do Sul, está um ilhéu grande e redondo, meia légua afastado da terra, Norte e Sul dela, e alto das rochas todo à roda, que tem em cima grande campo, como de dois moios de terra, onde ha muitos paus de dragoeiros, e por isso lhe chamam o ilhéu dos Dragoeiros; tem também zambujos, e criam-se nele muitas cabras, cagarras e coelhos de diversas cores.
Deste ilhéu dos Dragoeiros, a meia légua a Loeste, pela mesma banda do Sul, está um penedo grande e redondo como ilhéu pequeno, que (parece), por ali alguém se deitar a dormir, se chamou antigamente o Penedo do Sono, o qual está quase pegado na terra, porque de maré vazia fica em seco, e do porto das Cagarras até este penedo são tudo rochas altas e penedia ao longo do mar
Do Penedo do Sono até ao ilhéu do Boqueirão, que será espaço pouco mais de légua e meia, que é a ponta derradeira do Poente da ilha, é tudo areia branca, sem ter nenhuma pedra, e é baia não muito curva, nem com grandes pontas ao mar, porque com qualquer tempo podem sair os navios do porto da Vila, que esta no meio desta baia e praia, que, pela razão do porto já dita, se chama a Vila do Porto Santo, a qual tem a freguesia do Salvador, sem haver outra em toda a ilha, e a ela vêm ouvir missa todos os moradores, ainda que tenham sua habitação em diversas partes dela. E, antes de chegar à Vila, todas aquelas terras até a mesma Vila eram povoadas de dragoeiros quando se achou a ilha; chama-se ali o Vale do Touro, por se criarem nela touros e muito gado desde o principio, quando o deitaram na terra:
Nesta Vila do Porto Santo, que esta, da parte do Sul, no meio da praia já dita, não estão as casas perto do mar por causa da areia, que as atupira logo, mas haverá do mar às primeiras um tiro de besta. Terá a vila, pouco mais ou menos, quatrocentos fogos, afora outras pessoas que moram pelos montes. e, além da igreja, que é freguesia da invocação do Salvador, que é boa, tem uma ermida de São Sebastião e outra de Santa Caterina. Esta situada em terra chã e, pelo meio da Vila, corre ao Norte ao Sul uma ribeira, todo ano, de agua salgada, quase como a do mar, e, ainda que tal, regam com ela muitas hortas de couves e da mais hortaliça, que é estremada no gosto, posto que seja regada com água que o não tem. E ao longo desta costa, ainda que seja de areia, ha muitas vinhas, que dão boas uvas; criam-se nelas muitos caracóis brancos, em tanta maneira, que, em partes. cobrem tanto o cacho das uvas, que lhe não aparece bago. Têm estas vinhas, da banda do mar, por tapumes muito bastos e altos espinheiros alvares, que se criam na areia, e, ainda que com o vento se atupam dela, crescem muito, por onde é bom tapume, e neles se embarram muitos coelhos, de que toda a terra é muito povoada, e com fisgotes e dardos os fisgam e matam nos espinheiros, onde também se criam muitas mélroas que fazem muito dano nas uvas e nas amoras, porque há ali muitas amoreiras e figueiras, de diversas castas, cujo fruto, por a qualidade da terra e por o deixarem bem madurecer, tem bom gosto.
Finalmente esta ilha do Porto Santo é mui sadia, de bons e frescos ares, ainda que é pequena, de três léguas e meia de comprido e uma e meia de largo, pouco mais ou menos (como já disse); e não tem águas, por ser seca e de pouco arvoredo, e o principal (tirando os dragoeiros) é zimbro e urze. E em muitas partes desta ilha produziu a Natureza muitos dragoeiros, do tronco dos quais se faz muita louça, e muitos são tão grossos, que se fabricam de um só pau barcos que hoje em dia há, que são capazes de seis, sete homens, que vão pescar neles, e gamelas que levam um moio de trigo. Tira-se desta louça bom proveito, de que se paga dízima a el-rei, e se aproveitam muito do sangue do dragão, muito prezado nas boticas; criam estes dragoeiros uma fruta redonda que, madura, se faz muito amarela, e é mui doce, e no tempo que havia muitos dragoeiros engordavam os porcos com este fruto (que são como avelãs e, assim, se chamavam maçainhas); já agora há poucos e vão faltando, pelo muito proveito que se fazia nas gamelas deles, que são muito leves, como são secas, e também nas rodelas.
E, como já disse, pela maior parte da ilha, especialmente para a banda das serras e terras de massapez, há muitos cardos para comer, e soia a valer um saco deles um vintém, alporcados e muito doces, em alguns postos da terra. Tem também esta ilha, além das aves domésticas, muitas perdizes, e pombas, e coelhos, e rolas, poupas, e francelhos, lagartixas, e ratos pequenos, dos que cá chamamos morganhos, sem haver nela dos grandes, que quase em todas as terras vemos.
[ ]
A ilha da Madeira que, como tenho dito, lhe pôs nome assim o felicíssimo capitão primeiro dela, João Gonçalves Zargo, por causa do muito, espesso e grande arvoredo de que era coberta e toda cheia de infinidade de madeira, é alta, com montes e rochedos mui fragosos, que, por ser muito fragosa, dizem que seu nome próprio era, ou devera ser, ilha das Pedras; tão afamada e guerreira com seus ilustres e cavaleirosos capitães, e tão magnânimos, e com generosos e grandiosos moradores; rica com seus frutos; celebrada com seu comércio, que Deus pôs no mar oceano ocidental para escala, refúgio, colheita e remédio dos navegantes, que de Portugal e de outros regos vão, e de outros portos e navegações vêm para diversas partes, além dos que para ela somente navegam, levando-lhe mercadorias estrangeiras e muito dinheiro para se aproveitar do retorno que dela levam para suas terras; saudosa com altíssimos montes e fundos vales, povoados de alto e frondoso arvoredo de diversas Arvores: regada com grandes e frescas ribeiras de doces e claras águas; enobrecida com muitas e grandes povoações de soberbos e sumptuosos edifícios; esmaltada com ricas e formosas quintais; ornada de ricos e custosos pomares de esquisitas e diversas frutas; enfeitada com artificiosos e deleitosos jardins de varias e curiosas ervas e flores; um rubi, finalmente, que, com seu resplendor, cor e formosura, da graça a toda a redondeza do anel do Universo em circuito, pois com seu licor e doçura, como com néctar e ambrosia, provê as Índias ambas, a Oriental aromática e a Ocidental dourada, chegando e adoçando seus frutos, de extremo a extremo, quase o mundo todo.
A ainda que os da ilha de Ormuz, que esta na boca do mar Perseu, lhe chamam pedra do anel do Mundo, esta com muita mais razão, pois tem mais preeminência na boca de todalas nações, não somente pedra desse anel grande, mas, pois o homem é um mundo pequeno, se pode com verdade chamar jóia de seu peito; que, por ser tal e parecer nele um único horto terreal tão deleitoso, em tão bom clima situada ou criada, disse um estrangeiro que parecia que, quando Deus descendera do Céu, a primeira terra em que pusera seus santos pés fora ela.
Está esta tão célebre ilha em altura de trinta e dois graus e dois terços desta nossa parte do Polo Setentrional. Tem da parte de Leste o cabo de Quantim em África (perto do cabo de Gué), que esta com o cabo de São Vicente, Norte e Sul, em distância de oitenta léguas, e com esta ilha da Madeira, Leste Oeste, cento e dez léguas, e com o Porto Santo cem léguas. Tem figura de uma rica pirâmide, cujo bases está da parte do Ocidente, ainda que algum tanto rombo, com que também fica toda feita como uma folha de plátano, e o cume da parte do Oriente é a ponta de São Lourenço, a qual ilha com o Porto Santo está Nordeste Sudoeste, da mesma maneira que está o Porto Santo com a Barra de Lisboa, ou com os Cachopos, e são doze léguas de terra a terra; e tem três ilhas, de que adiante direi, que se chamam as Desertas e estão Norte e Sul com a mesma ponta de São Lourenço três léguas de uma terra a outra.
A Gran Canaria está com esta ilha da Madeira ao Sul e à quarta do Sueste e, ordinariamente, quase todas as ilhas de Canaria (como já disse acima) demoram desta ilha do Sul até o Sueste, pouco mais ou menos, e quem for por vinte e oito graus atravessará as ilhas Canárias todas; a Palma, que é uma delas e dista da cidade do Funchal setenta léguas, demora da mesma cidade ao Sul e quarta do Sudoeste, e, resguardando-se de irem ao Sudoeste, porque é derrota falsa, e errando a ilha, não a poderão tornar a tomar por causa dos ventos e aguagens que ventam naquelas partes. Tenerife esta Norte e Sul com o porto da ilha da Madeira outras setenta léguas.
Da parte do Norte não tem a ilha da Madeira carregações, para que navios possam carregar, senão no verão, porque a terra não é para isso, nem tem portos, mas tem bons abrigos para navios, quando há tempo contrário da parte do Sul, por ser alta.
Terá de comprido dezasseis léguas e meia e de largo quatro, pouco mais ou menos, ou, como outros querem, dezoito de comprido e perto de seis de largo; e principalmente dizem que tem esta largura, tomando a ilha pelo meio dela, para a parte de Loeste, que é a do Ponente, onde tem o basis rombo, mas para a parte de Leste vai aguçando até a ponta de São Lourenço e é mais estreita e delgada.
Sua compridão é de Leste a Oeste, da parte de São Lourenço, que esta a Leste, até à ponta do largo, que está a Oeste, onde se acaba sua compridão. Tem uma grande baia da parte do Sul, que começa da Ponta de São Lourenço até à ponta do Pargo, que está uma légua antes de chegar à cidade, e terá de ponta a ponta cinco léguas; em toda esta costa se pode surgir, porque e bom surgidouro, de até vinte braças, a que se podem chegar os navios bem, sem temor dela.
Alguns dizem que a ponta de São Lourenço está a Lés-nordeste, e que demora o Porto Santo dela doze léguas ao Nordeste. Partindo da ponta de São Lourenço (que se chamou assim por ali o primeiro capitão, João Gonçalves Zargo, chamar por ele, acalmando-lhe o vento) pela banda do Sul para o Ocidente, uma légua da ponta está uma povoação de perto de quinze moradores, que se chama o Caniçal; são terras rasas e de pão. Do Caniçal até a vila de Machico há duas léguas, que são da terra muito alta, de rochas e picos e mato, e onde se emparelham com a vila, que é à boca de uma formosa e mui crescida ribeira, ao longo da qual a mesma vila esta situada; faz a terra uma grande enseada com huas pontas, cuja boca terá um quarto de légua de largo, e da barra para dentro estão uns baixos no meio da enseada, sobre um dos quais (que de maré vazia descobre parte dele) está arvorada uma cruz por marca, com que se desviam os navios, para que, entrando no porto, não vão dar neles.
Este porto de Machico, além da grande majestade que tem (como já tenho dito), é muito bom com todos os ventos por ser a terra de uma e outra parte muito alta, e, como começam os navios a entrar da barra para dentro, ficam como em um manso rio, salvo quando aboca por ela o Lés-sueste que, então, se é muito rijo, não podem sair para fora e convém amarrar-se bem, porque, se se desamarram, não têm remédio senão enxorar pela ribeira acima e enfiar-se com ela, como já aconteceu muitas vezes.
Desta soberba entrada e nobreza desta vila já tenho dito acima. Terá de quinhentos até seiscentos fogos e uma formosa igreja, muito bem ornada com ricos ornamentos, antre os quais há uma rica charola, mais fresca e de mais obra que a da cidade do Funchal, ainda que mais pequena, em que levam o Santíssimo Sacramento, na procissão que se faz dia de Corpo de Deus.
Ainda que tem esta capitania de Machico outra vila. de Santa Cruz, que é maior que ela, esta foi a primeira cabeça de toda a capitania, pois ainda agora tem o nome dela, e também parece ser a primeira povoação. porque, como primeiro tronco e principio, ha nela muito fidalgos de geração e muita gente nobre, e ainda têm eles antre si que Machico é a gema da fidalguia de toda a ilha.
Tem esta vila pela ribeira acima engenhos de açúcar, e vinhas e pomares de toda fruta, e boa, e bom açúcar; mas o vinho dizem ser o pior de toda a ilha, que, por ser tal, para poucas partes se carrega. Há também nesta vila muitas mulatas, e muito bem tratadas e de ricas vozes, que é sinal da antiga nobreza de seus moradores, porque em todas as casas grandes e ricas ha esta multiplicação dos que as servem.
Para se regarem canas de açúcar nesta vila. e para o Caniçal, se tirou uma levada de agua de tão longe, que do lugar, onde nasce, até ã vila serão quatro léguas e meia, ou perto de cinco, na qual se gastaram mais de cem mil cruzados, por vir de grandes serras e funduras, e dizem que na obra dela se furaram dois picos de pedra rija, por não haver outro remédio. Rafael Catanho, genoês, com o grande espirito que têm quase todos os estrangeiros, e principalmente os desta nação, foi o primeiro que começou a tirar esta agua, e depois el-rei a mandou levar ao cabo; e, pelo muito custo que fazia, já não se usa.
Saindo desta vila de Machico (de cujos capitães direi adiante) meia légua para a parte do Ponente, está uma ribeira que se chama o Porto de Seixo, com que moinho de açúcar dos herdeiros de George de Leomellim, ou de Mellim, como outros dizem, genoes de nação, que é muito boa fazenda, junto do caminho que vai ao longo da costa desta banda do Sul, de que vou falando. Também há neste Porto do Seixo, pela ribeira acima, muitos vinhos de malvasias e vidonhos melhores que os de Machico, e muita outra fruta.
Do Porto do Seixo a meia légua está outro engenho de açúcar, que é dos Freitas, acima do caminho, e abaixo dele um moesteiro de frades franciscos, onde estão até oito religiosos de missa, que tem boa igreja, com boas oficinas e aposentos, de que António de Leomellim, do Porto do Seixo, homem fidalgo, rico e mui generoso é padroeiro, com quem ele reparte grandes esmolas de sua fazenda, além das que deixaram seus antepassados para aquela casa, que fizeram.
Do mosteiro um tiro de besta está a nobre e grande vila de Santa Cruz, a melhor de toda a ilha, situada em uma terra chã ao longo do mar, em que tem bom porto, a sua baía de um tiro de besta de largo e calhau miúdo, onde varam os batéis. Tem esta vila como oitocentos fogos, e rica igreja, e uma ribeira de agua por meio dela, ao redor da qual ha muitas vinhas de malvasias e de vinhos melhores que os de Machico, e muitas canas de açúcar, e uvas ferrais, e das mais frutas de peras e pêros, e amexeas, para a terra em muita abundância.
Desta vila para o Ocidente um quarto de légua esta uma grande ribeira, de muita água, chamada de Boaventura (pela razão já dita), em que está um engenho de açúcar, e há por ela acima muitos canaviais dele e também muitos vinhos.
Andando mais adiante desta ribeira quase uma légua, está uma povoação de trinta vizinhos do mesmo termo de Santa Cruz, que se chama Gaula, que tem muitas vinhas de malvasias e muitos outros vidonhos.
De Gaula um tiro de besta, indo para a cidade, está uma grande ribeira, muito funda, que se chama do Porto Novo, por o ter muito bom para carregar os vinhos, que há nela, de boas malvasias, que são as melhores da ilha, e de outros vidonhos, que em aquela ribeira se colhem cada ano mais de trezentas pipas de vinho; e tem casais por ela acima, e muita fruta e muita agua boa.
Meia légua mais adiante está a fazenda de João Dornelas, do Caniço, homem fidalgo, casado com Dona Mécia, irmã de Dom Luís de Moura, estribeiro-mor do Infante Dom Duarte e pai de Dom Cristóvão de Moura, muito privado do grande Rei Filipe e casado com uma filha de Vasqueanes Corte-Real, com a qual lhe fez el-rei mercê da capitania da ilha Terceira, por falecimento do capitão Manuel Corte-Real, de que não ficou herdeiro; a fazenda de João Dornelas é uma quintã com seu engenho de açúcar e vinhas, e foi casa muito abastada .
Desta casa para o Ocidente um quinto de légua, pegado com o caminho, está a fazenda das Moças, filhas de um João de Teives (que assim se chamaram estas nobres fêmeas, ainda que velhas morreram, por permanecerem sempre, sem casar, na primeira limpeza, com muita honra e virtude e santo exemplo de vida), que é um engenho de açúcar, e boas e chãs terras de canas, e tem dentro, apegado com umas grandes casarias, uma rica igreja .
Daqui, adiante, quase meia légua está uma aldeia de duzentos fogos com uma igreja da invocação do Espirito Santo, que se chama o Caniço, em uma ribeira que corre do Norte para o Sul, acompanhada de muitas vinhas de muitos vidonhos e de boas malvasias; ao mar deste lugar esta a ponta da Oliveira, onde se prantou uma, por balisa da repartição das duas capitanias, que por esta ribeira se partem, ficando a de Machico ao Nascente e a do Funchal ao Ponente, e por ela dizem que vai a demarcação da borda do mar do Sul até ã outra banda do Norte; porque deste Caniço até o longo do mar haverá um quarto de légua, onde está o porto onde se carrega tudo o que há nesta parte, e chama-se Caniço de Baixo, a respeito do outro, que Caniço de Cima é chamado.
Do Caniço a um tiro de besta esta uma azenha, a par do caminho, que mói com pouca agua, que traz para os moradores do mesmo Caniço. E mais adiante uma légua. Uma egreja de Nossa Senhora das Neves, à vista do Funchal, sore uma ponta que se chama o Garajau, uma légua antes chegar ã cidade, na qual, ao longo do mar, estão alguns dragoeiros, que a fazem mais formosa.
Primeiro que cheguem a esta igreja um tiro de besta, estão no caminho umas árvores altas, chamadas barbuzanos, em cuja sombra costumam descansar os caminhantes, onde se conta que, vindo, de noite, um clérigo de missa do Caniço sara o Funchal, debaixo das árvores achou um companheiro que lhe falou e, começando a caminhar ambos, emparelham com uma igreja que está à borda do caminho e tem uma cerca de muro derredor, cometeu o clérigo ao companheiro que fossem fazer oração, o qual lhe respondeu que já lá fora. Foi, contudo, o clérigo a fazer a sua e, saindo da cerca, achou companheiro, que lhe pediu a loba e lha levou às costas, e, começando a caminhar por uma ladeira abaixo por antre as vinhas até uma ribeira seca, que está no fim da ladeira, onde faz um remanso como terreiro, ali o cometeu que lutasse com ele, sendo alta noite. Vendo o clérigo tal cometimento em tal lugar e tais horas, respondeu que vinha caindo do caminho e que não fazia a caso lutar, tendo ruim suspeita da companhia, e tornaram a andar indo ainda ladeira abaixo até chegar à rocha do mar, que é muito alta, ao longo da qual está o caminho; chegados à rocha, o tornou a meter que lutassem, e o clérigo lhe pediu a loba e se começou a benzer e arrenegar do diabo, e ali lhe desapareceu se deitou pela rocha abaixo com grande ruído, vindo o clérigo ao Funchal, que é dali uma légua. Dizem alguns que, por ser grande lutador este clérigo, o queria levar o demónio pelo erro que tinha, porque este é seu costume, e que se deixou cair, lutando ambos à primeira queda e, quando veio , segunda, por o clérigo o achar muito rijo, vendo-se levar a a rocha, disse «Jesus me valha», e que a esta palavra ira o demónio. Mas o que primeiro se disse se tem por mais verdadeiro.
Meia légua de Nossa Senhora das Neves esta uma grande ribeira seca, que não corre senão no Inverno, que se chama a Ribeira do Gonçalo Aires, onde dizem que aparece uma fantasma em figura de um sapateiro, algumas vezes com formas as costas. Ha por esta ribeira acima muitas vinhas. E um terço de légua adiante dela está uma igreja de Santiago, um tiro de besta de outra, do Corpo Santo, que esta pegada com as primeiras casas da cidade do Funchal; chama-se ali o cabo do Calhau.
[ ]
Indo da Praia Formosa para o Ocidente um quarto de légua, está uma grande ribeira, que se chama dos Acorridos, pela razão já dita, que vem de montes muito altos e bravas serranias e é muito larga e chã, que, sem falta, terá de largo um tiro de arcabuz, e toda esta largura ocupa tanto a agua quando vem cheia, que parece um bom rio. Tem ao longo do mar uma praia de areia e, perto dele, dois engenhos de canas de açúcar, um de Manuel da My e outro de António Mendes, muito nobre fidalgo, ambos portugueses; por esta ribeira acima ha muitas vinhas de malvasias e bons vidonhos, e canas de açúcar.
É tão estranha ribeira, de grande e de muita água quando chove, que toda a lenha que se gasta nos dois engenhos que estão nela e em outros dois, que tem Câmara de Lobos, que está perto, trazem por ela abaixo, que podem ser oitenta mil carregas de azémola cada ano, antes mais que menos. E tem esta ordem para trazer esta lenha: tendo-a cortada nos montes, a põem em lanços perto das rochas da ribeira, e cada senhorio da lenha, que a mandou cortar, tem posto sua marca em cada rolo, que, pela maior parte, é toda lenha grossa, pondo uma mossa, outros duas, outros três ou quatro, e tanto que chove se ajuntam como cem homens das fazendas, indo-se aos montes e serranias, onde têm suas rumas de lenha posta, e lançam-na à ribeira pelas rochas abaixo, que são muito altas; a agua, como é muita, traz aquela multidão de lenha e muitos daqueles homens trazem uns ganchos de ferro metidos em umas hastes de pau compridas, com os quais desembarcam e desembaraçam a lenha, que vem toda pela ribeira abaixo, e, se (como acontece muitas vezes) acerta de cair algum deles na ribeira, com aqueles ganchos apegam dele por onde se acerta, ainda que o firam, com que, ou morto ou vivo, o tiram fora da agua, e acontece algumas vezes morrerem alguns homens neste grande trabalho. Vindo com esta lenha pela ribeira abaixo com grande arruído e pressa, e comidas e bebidas, que para este efeito ajuntam e o trabalho requer, quando chegam junto dos engenhos, onde a ribeira espraia e faz maior largura, espalha-se a água, por ser a ribeira muito chã, e, ficando quase em seco, dali a tiram com os mesmos ganchos, e cada um dos senhorios, por sua marca, aparta a sua, pondo-a em rumas muito grandes para o tempo da açafra do açúcar. Mas acontece algumas vezes, chovendo em demasia na serra, que enche a ribeira muito e leva muita cópia desta lenha ao mar, em que se perde grande parte do custo que têm feito.
Perto da fonte, onde nasce a agua desta ribeira dos Acorridos, se tirou a levada dela para moer o engenho de Luís de Noronha, e dizem que do lugar donde ã começaram de tirar até onde vai ao engenho e regar os canaviais, ha bem quatro léguas, por se tirar de tão grande fundura da ribeira em voltas, que, para chegar arriba, ã superfície da terra, para começar a caminhar, atravessando lombas, fazendo grandes rodeios per cima, pela serra, por onde vai esta levada, tem de alto mais de seiscentas braças, da qual altura, que é muito íngreme, se tira a agua em cales de pau, em voltas, até se pôr na terra feita; e sem falta custou chegar. O mesmo que calhas. pô-la em tal lugar passante de vinte mil cruzados, afora o muito mais que fez de custo levada dali quatro léguas, alem, de muitas mortes de homens, que trabalhavam nela em cestos amarrados com cordas, dependurados pela rocha, como quem apanha urzela, porque é tão alcantilada e íngreme a rocha em muitas partes, que não se faziam, nem se podiam fazer de outra maneira estâncias para assentar as cales sem passar por este perigo. Tem duzentos e oitenta lanços delas, por onde vai esta agua, que, postos enfiados um diante do outro, terão um quarto de légua de comprido. São de tavoado de madeira de til, que, pela maior parte, tem cada tavoa vinte palmos de comprido e dois e meio de largo; e, depois de assentadas estas cales na rocha, fazem o caminho por dentro delas os levadeiros, que continuamente têm cuidado de as remendar e consertar, alimpando-as também da sujidade e pedras que acontece cair nelas, e fazer outras coisas necessárias à levada, pelo que têm grossos soldos, por terem oficio de tão grande trabalho e tanto perigo.
Nesta rocha está uma furna muito grande, que serve de casa para os levadeiros e para guardar nela munições necessárias de enxadas, alviões, barras, picões e marrões e outras ferramentas; e nela se metem cada ano dez, doze pipas de vinho para os que trabalham na levada e outras pessoas que a vão ajudar a reformar, quando quebram alguns lanços de cales. E é coisa monstruosa a quem vê isto com seus olhos a estranha e aventureira invenção, que se teve para se tirar dali esta água.
Tem o senhor desta levada alvará de el-rei para que os seus levadeiros e homens, que trabalham nela, possam tomar para comer cabras e porcos, que há muitos naquelas serras, ainda que seus não sejam, sem por isso serem crimemente acusados, mas que os donos dos tais gados serão pagos do seu, sem crime da justiça.
Da mesma ribeira, mais abaixo para o Sul, tirou António Correia outra levada para regar as terras da Torrinha, que estão sobre Câmara de Lobos, também de muito custo.
Indo da ribeira dos Acorridos para o Ocidente um quarto de légua, esta uma aldeia, que chamam Câmara de Lobos, perto do mar, que tem uma calheta pequena e uma furna, onde dormiram, ou dormem ainda lobos, de que tomou nome o lugar e os capitães da ilha, os Câmaras, pelos achar nela o primeiro capitão, João Gonçalves Zargo, quando aí desembarcou a primeira vez, como já tenho contado. Tem esta aldeia como duzentos fogos e uma só rua principal e muito comprida, e no cabo dela a igreja, muito boa e bem consertada. Tem mais dois engenhos de açúcar, um, que foi Antonio Correia, e outro Duarte Mendes, e muitas nas e vinhas de boas malvasias, e muitas frutas de toda sorte, e muita água.
Dois tiros de besta de Câmara de Lobos para o Norte, pela terra dentro, está um moesteiro da invocação de São Bernardino, de frades franciscos, em que estão continuamente ou oito frades, bons religiosos, muito abastado de ia a fruta e vinhos. Acima dele estão os pomares do Estreito, que têm muita castanha e noz, e pêros de toda sorte muito doces, e vinhas e criações, e uma freguesia, que se ama o Estreito, de até trinta fogos, cuja igreja é de Nossa Senhora do Rosairo.
De Câmara de Lobos para o Ocidente ladeira acima tá uma lombada (que assim se chamam as lombas de terra naquela ilha), que parte com a rocha do mar e é a mais alta toda a terra, chamada Cagagirão e, por outro nome, a Caldeira (por uma cova, que tem ali a terra, que é agora dos herdeiros de António Correia, homens mui principais e generosos), que dá muitas e boas canas de açúcar. E parece que daqui tomaram o nome os Caldeiras da ilha, se o não trouxeram do Regno, que nela há muitos, e gente muito honrada.
De maneira que de Câmara de Lobos a uma légua está a quinta de Luís de Noronha, senhor da levada da ribeira dos Acorridos, que já disse, em que tem um engenho e grandes casarias de seus aposentos, e sua ermida, perto da fazenda, com seu capelão, para que ouçam missa os que trabalham lá, para que cumpram com o precepto da Igreja os domingos e festas, e o mesmo se ha-de entender de todas ou as mais das fazendas da ilha, que estão fora da cidade e vilas, ou aldeias, porque todas tem suas igrejas para este efeito.
Tem esta quintã boas terras de canas e de trigo e centeio, mas vinhas poucas, por ser a terra alta, ainda que ao longo do mar tem o mesmo Luís de Noronha uma fajã de grande pomar e vinhas de muito preço, e passatempo, que dá cada ano quarenta, cinquenta pipas de malvasias. E esta ribeira dos Melões, que parece que os há naquela parte muito e, sobretudo, estremados, que dá também muitas canas e, em parte, algumas vinhas.
Indo da quintã do Noronha para o mesmo Ocidente meia légua, está um lugar de cem fogos espalhados, a que chamam o Campanário; tem a igreja junto do caminho, da invocação do Espírito Santo. São terras de criações e lavoura de trigo e centeio, por ser gente montanhesa, dados mais a criar gado que a cultivar vinhas, nem outras fruteiras, mas, contudo, isto se há-de entender que neste e em todos os lugares da ilha houve sempre, e há hoje em dia, gente honrada e fidalga e de altos pensamentos.
Ao Ocidente, uma légua do Campanário, está a Ribeira Brava que por extremo tem este nome; é uma aldeia que terá como trezentos fogos, com uma igreja de São Bento e bom porto de calhau miúdo, que, pela chã da ribeira acima, tem as casas, e muitas canas de açúcar, e dois engenhos, e pomares muito ricos de muitos pêros e peras, nozes e muita castanha, com que é a mais fresca aldeia que há na ilha, pelo que, e pelo merecer, por ter bom porto e ser muito viçosa, já muitas vezes tentaram os moradores de a fazerem vila Tem também muitas vinhas, ainda que o vinho não é tão bom como é o do Funchal. A ribeira é tão furiosa, quando enche, que algumas vezes leva muitas casas e faz muito dano, por vir de grandes montes e altas serras, e por ser desta maneira lhe vieram a chamar Brava.
Neste lugar nasceram os Coelhos, cónegos da Sé do Funchal, estremados homens de ricas vozes; um deles, chamado Gaspar Coelho, foi mestre da capela da Sé muitos anos sendo cónego, e Francisco Coelho, seu irmão mais moço, sendo cónego, foi também mestre da capela de el-rei na corte.
Da Ribeira Brava meia légua está a ribeira da Tabua, com uma freguesia de quase trinta fogos; teve já dois engenhos e tem muitas vinhas e canas e frutas, mas o vinho é semelhante ao da Ribeira Brava, sua vizinha Desta ribeira da Tabua são os Medeiros, gente nobre e honrada.
Da Tabua pouco mais de meia légua esta a Lombada de João Esmeraldo, de nação genoês, que chega do mar à serra, de muitas canas de açúcar e tão grossa fazenda, que já se aconteceu fazer João Esmeraldo vinte mil arrobas de sua lavra cada ano, e tinha como oitenta almas suas cativas antre mouros, mulatos e mulatas, negros, negras e canários. Foi esta a maior casa da ilha e tem grandes casarias de aposento, e engenho, e casas de purgar, e igreja. E depois do falecimento de João Esmeraldo, ficou tudo a seu filho Cristóvão Esmeraldo, que o mais do tempo andava na cidade do Funchal sobre uma mula muito formosa, com oito homens detrás de si, quatro de capa e quatro mancebos em corpo, filhos de homens honrados, muito bem tratados, e trazia grande contenda com o Capitão do Funchal sobre quem seria provedor da Alfândega de el-rei, que é uma rica coisa de renda de Sua Alteza e ricas casarias. Casou João Esmeraldo na ilha com Ágada de Abreu, filha de João Fernandes, senhor da Lombada do Arco.
Da Lombada de João Esmeraldo um quarto de légua está a vila da Ponta do Sol, que se chama assim por ter uma ponta ao Ocidente da vila, que tem o parecer que já disse, aonde dá também o Sol primeiro que na vila, quando nasce. Tem esta vila como quinhentos fogos e boa igreja; é povoada de gente nobre, por ser das mais antigas da ilha, mas os vinhos não são tão bons como são os do Funchal .
Acima da Ponta do Sol para o Norte da vila esta um 1ugar, que se chama os Calcanhos, que tem um engenho, e muitas frutas, e ricas aguas, e vinhas, e terra de lavoura de trigo e centeio, onde há uma honrada geração de homens nobres, que se chamam os Escovares.
Meia légua da vila da Ponta do Sol, ao longo do mar, está a freguesia da Madalena, de até trinta fogos; tem um engenho, que foi de um Manuel Dias, e boa fazenda de boas terras de canas e muita água e fresca. Ha nesta freguesia uma ermida de Nossa Senhora dos Anjos que, tirando ser pequena, é uma rica casa com um retábulo pequeno e fresco e bem ornado, junto da qual está uma fresca fonte, debaixo de uns seixos, antre uns canaviais de açúcar de mui formosas canas.
Da Madalena um quarto de légua está a Lombada que foi de Gonçalo Fernandes, marido de Dona Joana de Sa, camareira-mor da Rainha. É muito grossa fazenda; tem engenho de açúcar e muitas terras de canas, e grandes aposentos de casas e igreja com seu capelão.
Um quarto de légua desta Lombada de Gonçalo Fernandes está outra, que se chama o Arco, ou Lombada do Arco, que foi de João Fernandes, irmão de Gonçalo Fernandes, fazenda também muito grossa, que tem engenho e muitas terras de canas, e grandes aposentos de casas e igreja e capelão. E adiante direi o que em estas duas Lombas aconteceu a um Antonio Gonçalves da Câmara, filho de Gonçalo Fernandes e de sua mulher, a camareira-mor da Rainha.
Da Lombada do Arco, indo para o Ocidente até vila da Calheta, de que foi conde o ilustre Capitão Simão Gonçalves da Câmara, haverá uma légua. Está esta vila por ma ribeira acima, que tem as rochas tão altas, que acontece s vezes cairem pedras da rocha e derrubar as casas dela. era quatrocentos fogos e a igreja, da invocação do Espírito Santo, e o porto, vindo da vila para o Nascente um quarto e légua, que é uma estrita calheta, onde varam os arcos. Acima da vila, pela terra dentro um quarto de légua, está o engenho dos Cabrais e, perto dele, está outro do doutor da Calheta, físico, chamado mestre Gabriel.
E logo perto de uma légua da Calheta está a fazenda e João Rodrigues Castelhano, que se chamou assim por falar castelhano, sendo ele genoês de nação, que é grossa fazenda de canas com seu engenho e capelão; este João Rodrigues casou duas filhas no Funchal muito ricas, e são gora as melhores fazendas da ilha. Teve muitos escravos, cinco dos quais lhe mataram um feitor, mas ele os entregou justiça e foram enforcados na vila da Calheta.
Da fazenda deste João Rodrigues Castelhano obra de leia légua está outro engenho, de Diogo de França, que teve onze filhos, nobres e ricos, boa fazenda de canas e vinhas, e águas, e frutas.
Daqui a meia légua está uma freguesia, que se chama Jardim, de quarenta fogos, com uma igreja da invocação e Nossa Senhora da Graça; também tem engenho, terras de pão e vinhas, e, abaixo do Jardim para o mar, está uma grande fajã, que se chama o Paul, com um engenho, que é e Pero do Couto, homem muito rico e possante, e boa fazenda de açúcar, mas tem perigoso caminho por terra, por ser a rocha muito alta para descer abaixo.
Do Jardim para o Ocidente até chegar à Ponta do Pargo, que é o fim da ilha da banda do Sul e também é freguesia de duzentos fogos, haverá duas léguas; a igreja é da invocação de São Pedro. São terras lavradias de trigo e centeio e criações de gado e porcos; tem muitas frutas e águas. E por aqui acabo de dar conta da parte do Sul desta ilha o melhor que pude saber na verdade.
Tornando à ponta de São Lourenço, que está da parte do Oriente, e começando andar dela para o Ocidente da ilha pela costa da banda do Norte (que, como tenho dito, toda tem bom e seguro surgidouro e bom abrigo para os navios, quando os ventos ventam da outra parte, por ser a terra muito alta), da mesma ponta de São Lourenço para o Ocidente perto de duas léguas está. uma aldeia, que se chama o Porto da Cruz (pela razão que já tenho dito), que tem junto do mar um engenho que foi de Gaspar Dias; é grossa fazenda, com boas terras de canas e muitas águas. Haverá neste lugar trinta fogos espalhados, afora a gente da fazenda, e são os moradores todos criadores, porque os matos são em toda a ilha gerais a todos para criarem neles.
Do Porto da Cruz a Nossa Senhora do Faial (por ali o haver grande) haverá uma légua. Terá esta freguesia como cem fogos; a igreja está. antre duas ribeiras muito altas das rochas; tem muita fruta de espinho, de cidras e limões, peras e pêros e maçãs, e castanha e noz. Sendo a igreja de bom grandor, dizem que toda se armou de um grandíssimo pau de cedro, que se achou perto dela; pelo seu dia, que vem a oito de Setembro, se ajuntam de romagem de toda a ilha passante de oito mil almas, onde se vê uma rica feira de mantimentos de muita carne de porco e vaca, e chibarro, a qual é uma extremada carne de gostosa naquela ilha, ainda que em outras muitas terras e ilhas seja a pior de todas. Ali se ajuntam muitos cabritos e frutas, e outras Coisas de comer, para, comprarem os romeiros, que muitas vezes se deixam estar dois, três e mais dias em Nossa Senhora, descansando do trabalho do caminho, porque vêm de dez e doze léguas por terra mui fragosa; e juntos fazem muitas festas de comédias, danças e músicas de muitos instrumentos de violas, guitarras, frautas, rabis e gaitas de fole; e pelas faldras das ribeiras, que têm grandes campos, no dia de Nossa Senhora e em seu oitavairo, se alojam os romeiros em diversos magotes, fazendo grandes fogueiras antre aquelas serranias. Dizem que ali apareceu Nossa Senhora, onde tem a igreja.
Tem esta freguesia dois engenhos de açúcar, um de António Fernandes das Covas, que esta perto de Nossa Senhora, e outro de Luis Doria. No fim das ribeiras (que ambas se vão ajuntar em uma), perto do mar, tem bom porto. Está nesta freguesia uma serra de água, que foi um grande e proveitoso engenho, em que dois ou três homens chegam por engenho um pau de vinte palmos de comprido e dois e três de largo ã serra, e, por arte, um só homem, que é o serrador, com um só pé (como faz o oleiro, quando faz a louça) leva o pau avante e a serra sempre vai cortando e, como chega ao cabo com o fio, com o mesmo pé dá para trás, fazendo tornar o pau todo, e torna a serra a tomar outro fio; de maneira que quem vir esta obra julgará por mui grande e necessária invenção a serra de água naquela ilha, onde não era possível serrarem-se tão grandes paus, como nela á, com serra de braços, nem tanta soma de tavoado, como se faz para caixas de açúcar, que se fazem muitas, e para outras do mais serviço, que vem ser cada ano muito grande soma. Tem esta freguesia grandes montados de criações à muitos proveitosas.
De Nossa Senhora para o Ocidente a uma légua está uma freguesia da invocação de Santa Ana, que terá ate quarenta fogos. São terras de lavrança de muito pão e criações; tem muita castanha e noz, e muitas águas e frutas de toda sorte.
De Santa Ana a meia légua esta a freguesia de São Jorge, de cento e cinquenta fogos. a par do mar, com muito bom porto; tem muitas vinhas de bom vinho de carregação, e muitas terras de lavrança de pão e criações, e muita fruta de toda sorte, com muitas aguas.
Adiante de São Jorge uma légua e meia está a freguesia da Ponta Delgada (assim chamada por ser ali um passo muito perigoso, que se passa por riba de dois paus, que se atravessam de uma rocha a outra, e em tanta altura fica o mar por baixo, que se perde a vista dos olhos, onde esta um porto, cm que desembarcam e embarcam com vaivém, a modo de guindaste), com uma igreja da invocação de Jesu, de até sessenta fogos e bom porto, e vinhas, e criações, e lavrança de pão e frutas de toda sorte, e muitas aguas, onde tem duas serras de agua.
Neste lugar reside António de Carvalhal, homem tão cavaleiro como esforçado por sua pessoa, nobre e magnifico por sua condição e grande virtude, com a qual, por sua magnificência, tem acquirido tanta fama e ganhado tanto nome com as vontades dos homens, que por isso lhe obedecem, e, se for necessário dar um brado, ajuntará quinhentos homens da banda do Norte a seu serviço para qualquer feito de guerra, como já lhe aconteceu, ou para qualquer outro feito; e não sem razão, porque sua casa é hospital e acolheita de todo pobre, hospedagem de caminhantes e refúgio, finalmente, de necessitados. Assim despende sua fazenda toda (que muita possui desta banda) nestas obras, que em sua casa se gastam cada ano trinta moios de trigo, afora outros muitos que empresta, e com ele socorre a quem tem necessidade, que todos recolhe de sua lavoura. É filho de Duarte Ribeiro e casado com Dona Ana Esmeralda, filha de Cristóvão Esmeraldo, provedor que foi da Fazenda de Sua Alteza nesta ilha da Madeira e na do Porto Santo. É tão forçoso, que anda pelas serras da ilha da Madeira, que são mui ásperas, a cavalo, sem ter corta com cilha porque as pernas lhe servem disso; é homem grande, seco, largo das espáduas e bem proporcionado em todos os membros, pelo que tem tanta força que, indo um dia por antre um mato a cavalo, passando por baixo de uma arvore, lançou as mãos a um ramo grosso e, cingindo o cavalo com as pernas pela barriga, o alevantou do chão mais de um palmo.
[...]
Uma légua além da Ponta Delgada está a freguesia de S. Vicente, de duzentos e cinquenta fogos, com grandes terras de lavranças de pão, e criações e muitas frutas de castanha, noz e de outra sorte, muitas vinhas, e muitas aguas, e duas serras de agua.
De S. Vicente a três léguas está o Seixal, que é freguesia de ate vinte fogos, com uma igreja da invocação de São Braz. Tem muitas terras de grandes criações, e lavrança de pão, e vinho, e fruta de toda sorte.
Do Seixal a meia légua está a Madalena, que é freguesia de trinta fogos, que tem muitas criações e lavoura de pão, e muitas águas. Está esta freguesia, pela terra dentro, perto de meia légua na ponta de Tristão, que se chama assim por ele a descobrir primeiro, onde se partem as capitanias pela banda do Norte, porque por esta parte se estende mais a capitania de Machico que pela banda do Sul, onde começa na ponta da Oliveira, pela que ali mandou prantar o capitão João Gonçalves, como tenho dito, que está ao mar do lugar do Caniço ao Sueste, vindo dela a demarcação pelo meio da terra, que são grandes serranias do Nascente para o Poente, pela banda do Norte, até chegar a esta ponta de Tristão, que está ao Noroeste; sendo estas duas pontas, a da Oliveira, da banda do Sul, e a de Tristão, da parte do Norte, as balisas e extremos da repartição destas duas capitanias do Funchal e Machico, ficando a ilha partida de Noroeste a Sueste, como estão estas pontas, e, tirando catorze léguas, da banda do Sul, que é o melhor de toda a ilha, e três da banda do Norte, da jurdição da capitania do Funchal, todo o mais da ilha fica da jurdição da capitania de Machico.
Desta ponta de Tristão, que está ao Noroeste, da parte do Norte, vira a costa para o Sul, fazendo a terra, ou a figura de pirâmide dela, sua basis, ou pé, e assento por espaço de três léguas, que, segundo alguns, ha dela e desta freguesia da Madalena, pela banda do Ocidente, até a ponta do Pargo, onde acabei a banda do Sul e acabo agora a descrição de toda a ilha pela costa dela, com que fica com a figura de pir3mide, que já disse, um lado da qual é da ponta de S. Lourenço, que está ao Oriente, até à ponta do Pargo, que está ao Ocidente, pela banda do Sul, e o outro lado é da mesma ponta de S. Lourenço, do Nascente, até à ponta de Tristão, que está ao Ocidente, pela banda do Norte; e a basis é desta ponta de Tristão até a ponta do Pargo, que outros dizem ser duas léguas, com que fica com figura de pirâmide, mas, por nesta basis não ir a terra cortando direita, senão com algum rodeio curva e no meio larga e na ponta aguda, fica toda esta ilha da Madeira parecendo mais folha de plátano que pirâmide. E, ainda que, como pirâmide se acha pintada em algumas cartas de marear, em outras tem figura de folha de álamo, porque, como esta árvore, está prantada e alevantada no meio das aguas do grande mar Oceano Ocidental, em bom clima, e regada com muitas e frescas ribeiras e, abundantemente, dá seus frutos mui perfeitos a seu tempo.
( )
Tomando a terra desta ilha pelo meio, da ponta de S. Lourenço, que esta ao Nascente, à, ponta do Pargo, que jaz ao Ocidente, toda é terra de grandes serranias e altos montes, alta em tanta maneira, que faz abrigo aos navios, que se chegam a ela da banda do Norte, ventando muito do Sul, até dez léguas da terra.
Toda esta ilha é fragosissima e povoada de alto e fresco arvoredo, que, por ser tal, se perdem alguns caminhantes nos caminhos, e aconteceu já alguns, perdidos, neles morrerem. E não, tão somente, há pelo meio e lombo da terra grandes e alevantadas serranias, mas também grotas e altas funduras, cobertas de matos e grossos paus e arvoredo de til, que, quando o serram, dentro, no cerne, é muito preto e cheira mal; deste pau se faz muito taboado para caixas de açúcar e solhado de casas e madres, e dele é a maior parte da lenha que se queima nos engenhos. Também há outro pau vermelho, que se chama vinhático, de que se fazem as caixas para o serviço de casa, que são muito boas, mas as feitas dele para o mar são muito mais prezadas.
Outros paus há de aderno, de que se faz muita madeira para pipas para vinho e mel, mas para o mel são melhores que para o vinho, não porque a qualidade da madeira o faça ruim, mas porque é muito rijo e seco e não revê tanto o mel nele, como o vinho, que o faz humedecer, e algumas vezes o deita pelo meio do pau, o qual pau aderno é tão rijo, que se fende ã cunha.
Ha também muitos folhados, que crescem muito direitos e grossos, de que se faz a armação para as casas, e muitas vezes de um pau fazem três e quatro pernas de asnas, mas não é tão rijo como o desta ilha de São Miguel; é brando de cortar, quase como o cedro, e dele se fazem os temões para servirem na lavoura.
Há outro pau, azevinho, muito rijo, de que se fazem os cabos de machado, mas não é branco como é o desta ilha. Também há paus de louro, e nas faldras da serra, da banda do Sul, muita giesta, que é mato baixo, como urzes, que dá flor amarela, de que gastam nos fornos e dele se colhe a verga, que esburgam como vimes, de que se fazem os cestos brancos, mui galantes e frescos, para serviço de mesa e oferta de baptismos e outras coisas, por serem muito alvos e limpos, e se vendem para muitas partes fora da ilha e do reino de Portugal, porque se fazem muitas invenções de cestos, mui polidos e custosos, armando-se, às vezes, sobre um dez e doze diversos, ficando todos juntos em uma peça só; e para se fazerem mais alvos do que a verga é de sua natureza, ainda que é muito branca, os defumam com enxofre.
Há também muita madeira de barbuzano, de que, pela maior parte, fazem os tanchões para as latadas, por ser pau muito rijo e durar muito no chão. E não faltam muitas urzes, de que se faz o carvão para os ferreiros e fogareiro.
Tem finalmente esta ilha tantos matos e rochas, tantos montes e grotas, que afirmam todos que, das dez partes da ilha, não aproveitam as duas, porque a maior dela são serranias, terras dependuradas, rochas e grotas e ladeiras, e não ha terra chã, senão a bocados, mas esses são tais, que valem mais que outro tamanho ouro; e, geralmente, não tem preço a substância, que tem todas as coisas, que esta ilha de si esta produzindo, quer por natureza, quer com arte.
É terra massapez pela maior parte, mais que terra preta, e outra, como ruiva, se chama salões; toda se rega com a grande abundância das águas que tem, que, como veias em corpo humano, a estão humedecendo e engrossando e mantendo, com que se faz rica, fresca, formosa e lustrosa; e com ser tão alta, não se vai com elas ao mar (como esta de S. Miguel faz em grande quantidade, quando chove), e depois de estar a terra farta de agua, levarão um rego dela sem se sumir duas, três e mais léguas.
Tem muita hortaliça de muitas couves murcianas, mas não espigam, pelo que sempre vem a semente delas de Castela; cria muitas alfaces e boas, e outras muitas maneiras de hortaliça, toda regada com água, como as canas, afora os muitos pomares que tem de fruta de espinho e ricos jardins de ervas cheirosas, em tanto que dizem os mareantes que, mais de dez léguas ao mar, deita esta ilha de si uma fragrância e um confortativo e suave cheiro, que parece cheirar a flor de laranja. Em muitas partes desta ilha há muitas nogueiras e castanheiros, que dão muita noz e castanha, em tanta maneira, que vale o alqueire a três e quatro vinténs e se afirma que se colhe em toda ela de ambas estas frutas de noz e castanha, juntamente cada ano, passante de cem moios; também dá amêndoas, e de tudo carregam bem as árvores.
Há nesta ilha da Madeira muito sumagre, que serve para curtir couro, principalmente o cordavão, porque o faz muito brando e alvo; este sumagre se pranta em covas pequenas, como quem pranta rosas e vinha; tem a haste, como feito, e a rama semelhante ao mesmo feito; dá-se em terras altas e fracas; colhe-se cada ano, cortando-se rente com a terra para não secar a soca dele e poder tornar a arrebentar, por ser planta que dura muitos anos na terra. É novidade de muito proveito, porque multiplica tanto, que se enchem os campos dele como enchem as roseiras, e lavra a raiz por baixo da terra, e o que se dá na ilha é muito fino e, apanhada a rama, que é o dito sumagre. se deita ao Sol, seca, se mói em engenho de água, assim como se mói o pastel nesta ilha, e se faz em pó, e, moído, o carregam para diversas partes em sacas e pipas.
Criam-se também na ilha da Madeira alguns gaviães e açores, que parece que vêm ali com tormentas de alguma terra perto, que está por descobrir, bilhafres, francelhos, corujas, e há nela muitas perdizes, pavões, galipavos, galinhas de Guiné, e as outras domésticas, pombos trocazes, pretos e brancos, patas e adens, pombas bravas e mansas, muitos melros, canarios, pintassilgos (sic), toutinegras, lavandeiras, tentilhões, codornizes, rolas, poupas e coelhos, cagarras, afora gaivotas, estapagados e outras aves do mar.
( )
[Gaspar Frutuoso, Livro segundo das Saudades da Terra, Ponta Delgada, 1979, pp.45-49, 54-55. 56-58, 632-63, 99-107, 119-140.]