HISTORIA DO AMBIENTE- TEORIA



Man and nature is the basic fundamental fact of History. The relationship is mutual and necessary". Arthur A. Ekirch, Man and Nature in America, Colombia, 1963


A História do Meio ambiente é sem dúvida uma criação do mundo científico e universitário americano e por isso teve aqui desde a sua origem até a actualidade uma valorização inexcedível. A década de sessenta foi o momento ideal para o seu nascimento, contribuindo para isso alguns trabalhos que hoje são um marco do alerta para a situação em que o Homem estava intervindo e destruindo o meio natural. São dois os livros que se assumem como o despertar das consciências dos cidadãos e dos políticos para esta cruzada. Em 1962 Rachel Carson publica "Silent Spring", considerado o verdadeiro alerta para os efeitos do "DDT" sobre a Natureza e ficou como o grito de alerta às autoridades e motivo de reflexo de jovens de gerações de académicos. Seis anos depois juntou-se o texto de Paul Ehrlich: The Population Bomb(1).

A década de sessenta é na verdade o momento de afirmação simultânea do movimento ambientalista na historiografia com a "Environmental History". Daqui deverá resultar, certamente, a tendência para identificação de "Environmental History" com a História do ambientalismo(2), o que é insistentemente negado pelos teóricos e historiadores desta nova disciplina.

O ambiente não foi apenas motivo de denuncia pública, mas também de reflexão filosófica e historiográfica. E é precisamente neste domínio que ganha forma o novo domínio historiográfico. Na década de setenta para além de se assistir as reedições de clássicos do século XIX, como Henry David Thoreau e Ralph Aldo Emerson(3), é de salientar a publicação destas novas reflexões. O ciclo inicia-se em 1935 com Paul Sears em Deserts on the March e prossegue na década de cinquenta. Primeiro em 1957 com "Nature and the American" de Hans Hunt, que é secundado com "Conservation and the Gospel of Efficiency" de Samuel P. Hays(1959). O movimento prossegue nos anos imediatos com uma maior precisão temática:

1963: Man and Nature in America de Arthur A. Ekirch Jr.

1967: Wilderness and the American Mind de R. Nash

In the House of Stone ou Light: A Human History oh the Grand Canyon de J. Donald Hughes.

1970: The Greening of America de Charles A. Reich

1972. Columbian Exchange de A. Crosby

1973: American Environmentalism de Donal Worster(4)

Este movimento, tal como o referimos, ganhou fortes raízes nos meios académicos(5). Deste modo por iniciativa de R. Nash, na Universidade de Califórnia, Donald Worster na de Yale e Brandeis no Hawaii a disciplina entrou nos currículos de ensino. Estava lançada a semente que cedo iria justificar. Enquanto na América crescia esta consciência ambientalista, fruto dos alertas para a destruição da Natureza, na Europa a História Social, que a Escola dos Annales era a principal promotora, desembocava no mesmo rumo e na clara definição a valorização desta nova disciplina. Note-se que um número dos Annales de 1974 dedica especial atenção ao tema. Por outro lado F. Braudel, um dos expoentes máximos desta escola, pode ser considerado o pai desta disciplina no continente europeu.

Este novo movimento historiográfico vai ao encontro das solicitações da sociedade. Em 1970 temos a primeira comemoração do dia da terra e a criação da EPA - Environmental Protection Agency. Era também a época de pujança dos movimentos ecológicos(6). E foi também a duvida levantada sobre a historicidade do movimento ecológico que levou a esse novo olhar sobre o passado humano e a sua interacção com o meio natural(7). Os estudos acabaram por provar que a ideia de preservação do meio ambiente não surgiu apenas após a segunda Guerra Mundial(8). Daqui resultou a revelação do fulgurante movimento ambientalista de finais do século passado e princípios do nosso, bem como a revelação do primeiro ambientalista radical na figura de John Evelyn (1620-1706) (9). Todavia os trinta anos que se sucedem à década de setenta são cruciais para a sua afirmação. É o período de mudança do ambientalismo entendido como religião para uma actividade profissional orientada de acordo com os ditames da ciência(10)

.

Neste contexto a afirmação da História do meio ambiente lança as suas raízes institucionais e académicas, sendo de realçar a criação em 1976 da "American Society for Environmental History" e a revista "Environmental Review"(11) a uma interpretação ecológica da História(12). O reconhecimento definitivo de "Environmental History" está patente na mesa redonda organizada em 1990 por "The Journal of American History".

De acordo com J. Donald Hughes "Environmental history, as a subject, is the study of how humans have related, to the natural world through time. As a method, it is the application of ecological principles to history"(13). Para Donald Worster "its principal peal became of deepening our understanding of how humans have been affected by their natural environemtal through time and, conversely, how they have affected that enviroment and with that results"(14). E W. Beinart precisa que a "Environmental history deals with the various dialogues over time between people and the rest of nature, focusing on recipocal impacts"(15). Neste contexto poderá referenciar-se a página na Internet da Forest History Society (Durham-North Carolina) onde encontramos a mais intuitiva definição e objecto que nos ocupa: "Understanding the past for its impact on the future"(16). Já Joachim RadKau, à pergunta sobre o que é a História do Meio Ambiente responde que esta nova disciplina "investiga cómo el ser humano mismo ha influido en estas condiciones y cómo reaccionó ante las alteraciones."(17)

Tal como nos refere Donald Worster(18) a ideia de ecologia é anterior ao aparecimento da palavra oecologia. Esta surge pela primeira vez em estudo de Ernst Haeckel e em 1893 era já usual no Congresso Internacional de Botânica

A partir deste enquadramento global desenvolveram-se vários ramos da História do Ambiente, que têm evidenciado nos últimos anos uma tendência para a especialização.

O clima é uma das evidências do impacto negativo das questões ecológicas. Deste modo a História do clima é o meio para averiguar da forma de intervenção do homem no quadro natural e dos seus efeitos secundários. Depois do celebrado estudo de E. le Roy Ladurie(19) sucederam-se estudos de grande impacto: Raymond Bradley e Philip D. Jones (1992), F. M. Chambers (1993), Richard H. Grove (1997), H. Lamb (1982, 1995) e T. M. L. Wigley (1981)(20)

Um ramo da Arqueologia, do meio ambiente começou após a II Guerra Mundial e ganhou notoriedade na década de setenta. De acordo com Johan Evans "Environmental Archaelogy is the study of the past environment of man"(21). Por outro lado E. J. Reitz(22) destaca que "Environmental Archaeology is an ecletic field that encompasses the earth sciences, zoology and botany". Na verdade, são vários os factores determinantes do quadro natural que perdura nas várias camadas de sedimentação. É através da recolha de informações sobre animais, plantas, solo é possível reconstruir o ambiente do passado. E é essa a função primordial da Arqueologia do Meio-Ambiente e que faz com que à mesma se liguem as Ciências da Terra, Arqueo-botanica, Zoo-arqueologia e a Geo-arqueologia(23)

. Os estudos sobre Zoo-arqueologia tiveram em Elizabeth Wing a sua líder nos EUA e América Latina(24).

BIBLIOGRAFIA

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1. Carl G. Hernsl, Green Culture, 1996, pp.21-45.

2. D. Worster "World without borders: the internationalizing of environmentel History: critical issues", K. E. Bailes (ed.) Environmental History: critical issues in comparative perspective, Lanham, 1985, 664.

3. Sand County Almanac foi reeditado em 1968.

4. Char Miller e Hall Rothman, Out of the Woods. Essays in Environmental History, Pittsburgh, 1997, XXII-XXIII.

5. O primeiro curso "American Environmental History" surgiu em 1970 na Universidade de California (Santa Barbara), Vide Carolyn Merchant, "Major Problems in American Environmental History" surgiu em 1970 na Universidade de Califórnia (Santa Barbara), vide Carolyn Merchant, Major Problems in American Environmental History, Lexington, 1983. E o significativo estudo de R. Nash, "American Emvironmental History. A new teaching frontier", Pacific Historical Review, 363 (1974), 362-372.

6. K. Wallace, No turning back..., N. York, 1994, 28-55; Derek Wall, Green History, N. York, 1994.

7. D. Wall, ibidem, p. 1-3.

8. Tenha-se em conta os estudos de C. Glacken, Traces on the Rhodian Shore, Berkeley, 1967; Richard Grove, Green imperialism, Cambridge, 1994; Donald Worster, Nature's Economy, Cambridge, 1977.

9. P. Brimblecombe, The big smoke. A history of air pollution in London since medieval time, London, 1987 (48-52).

10. R. Nash American Environmentalism, N. York, 1990.

11. A Revista sofreu várias transformações no seu título. Veja-se Capitulo Revistas. A primeira fase da publicação até 1983 foi coordenada por John Opie, altura em que lhe sucedeu J. Hughes.

12. C. Merchant, Major problems in American Enviromental History, 1993, 2.

13. Pan's Travail, London, 1994, p. 3.

14. The ends of the earth, 1988, p. 290-291.

15. Environmental and History, 1995, p. 1.

16. Forest History Societey, 1997-98[on-line], disponível em http://www.lib.duke.edu/forest/index.html[06-07-98].

17. Gonzalez Molina, Historia y Ecologia, 1993, p. 121.

18. Generelle Morphologie der organis men, Berlim, 1866.

19. Histoire du Climat depuis L'An Mil, Paris, 1972.

20. . Vide Bibliografia Geral

21. J. Evans, 1978.

22. Case Studies in Environmental Archeology, 1996, p. 1.

23. E. J. Reitz et alia "Issues in Environmental Archaelogy", in E. J. Reitz (eds), Case Studies in Environmental Archaelogy, N. York, 1996, pp. 3-16.

24. Cf. Elizabeth J. Reitz, Case Studies in Envrionmental Archaelogy, 1996, pp.359-371