ALBERTO FIGUEIRA GOMES [1912]
Balada das levadas
(Nas Queimadas, em Santana--Verão de 1946)
Aguas mansas das levadas
não sois como as das ribeiras,
que em vindo o inverno inundam
casas vinhedos e leiras
Na santa paz da montanha,
só se sente o seu cantar,
sempre igual e sempre novo,
num eterno caminhar.
Essa voz suave encerra
inigma doce e profundo...
--Cantais promessas do céu
ou chorais males do mundo ?
À vossa beira se espelham
hortências, musgos e flores:
--velhos loureiros murmuram
loucas histórias de amores
_
As urzes esvaneceram
e os carvalhos ja dobraram
ao peso de fartos liquenes
...e as águas nunca pararam.
Levadas da minha aldeia
galgando de monte em monte,
enchei de seiva esses vales.
cantai nas pedras da fonte.
Solitário viandante
que ides em longa canseira,
esta levada cantante
é uma fiel companheira.
Tudo seria mais triste
na quietude da serra,
se a vossa voz não se ouvisse
como a própria voz da terra.
As aves já aprenderam
o vosso lindo cantar;
--andam ensinando às flores
como se deve falar.
A serra já se não lembra
das gerações que passaram,
a vida vai e renova-se
. . . e as águas nunca pararam.
[Luis Marino, Musa Insular(poetas da Madeira), 1959, pp.572-573]