A IMPORTÂNCIA DOS ESPAÇOS INSULARES NA CONSTRUÇÃO DO MUNDO ATLÂNTICO

 

 

 

José Manuel Azevedo e Silva

Universidade de Coimbra

 

 

No processo de descoberta e construção do Mundo Atlântico, os espaços insulares (míticos e reais) desempenharam um papel de inegável importância. Bastará pensar que a expansão dos países ibéricos começou por ser uma expansão fundamentalmente insular e os seus impérios assentaram sempre, em boa medida, nesses espaços. Em termos territoriais, só a partir da terceira década do século XVI o império colonial português começou a afirmar-se no Brasil e no Congo / Angola, o mesmo acontecendo no caso do império espanhol, relativamente à penetração e colonização do continente americano, com a conquista do México, por Fernando Cortez (1521-1535), do Perú, por Francisco Pizarro e Diego Almagro (1532-1535), da Colômbia, por Gonçalo Jimenez de Quesada (1536-1540). Convirá não esquecer, porém, que a continentalização destes impérios ultramarinos valorizou ainda mais a importância geo-estratégica e sócio-económica dos seus espaços insulares do Atlântico.

À partida, três tipos de espaços insulares podem ser considerados, no processo de devassa e construção do Mundo Atlântico: ilhas habitadas, com paisagens humanizadas, espaços organizados e riqueza criada, quanto mais não fosse riqueza biológica, consubstanciada no próprio homem, passível de ser tomado como escravo; ilhas não habitadas de forma permanente, mas visitadas pelas populações dos espaços próximos; ilhas ermas, encontradas sem homens, oferecendo tão-só a sua paisagem natural, mas suscitando, particularmente por parte dos portugueses, o interesse no seu povoamento e colonização.

Estão, no primeiro caso, ao longo da costa africana, as sete ilhas do arquipélago das Canárias, a ilha de Arguim, as ilhas de Bissau e Bolama, o arquipélago dos Bijagós, a ilha Formosa (Fernando Pó), a ilha de Luanda e, do outro lado do Atlântico, as Antilhas e a Terra Nova. Pequenas ilhas igualmente situadas junto à costa, não sendo habitadas de forma permanente, eram visitadas pelos indígenas da costa fronteira que aí se dedicavam à pesca, à recolecção e, nalguns casos, à criação de gado, a certas culturas e plantações, à caça de tartarugas e de aves marinhas e colheita dos seus ovos. São, concretamente, os casos das ilhotas implantadas no chamado banco de Arguim, ao sul desta ilha, grupo este formado pelas ilhas de Arguim, Garças, Naar, Tider, Tarafal e Adegete, continuando para sul ao longo da costa africana, a ilha da Palma (Goreia) a sul do Cabo Verde, as mais pequenas ilhas do arquipélago dos Bijagós, as ilhas dos Ídolos, as ilhas Bravas a sul da Serra Leoa, a ilha dos Tigres a sul do Cabo Negro e, no Mar das Caraíbas, algumas das mais pequenas das Antilhas, Marajó, na foz do Amazonas, Santa Catarina e S. Francisco, na costa sul do Brasil.

Recorde-se que todos estes espaços insulares, já povoados ou simplesmente visitados pelos autóctones dos litorais continentais fronteiros no momento da sua descoberta, se situavam a curta distância dos continentes. E compreende-se porquê. Sendo certo que os povos aborígenes da África Negra e das Américas não dispunham de técnicas náuticas capazes de navegar mar em fora, só tinham conseguido atingir as ilhas que lhes ficavam próximas, em embarcações de tipo fluvial, nomeadamente pirogas e jangadas. E, como é sabido, antes da gesta marítima dos portugueses, os próprios europeus e os árabes, dispondo embora de embarcações mais robustas, não tinham criado ainda um tipo de navegação capaz de rotear com êxito um mar aberto e vastíssimo como é o Atlântico.

Está naturalmente aqui a explicação para o facto de todas as ilhas mais afastadas dos continentes, algumas das quais bem metidas no pego do mar, terem sido encontradas sem homens. Estão, neste caso, os arquipélagos da Madeira, dos Açores, de Cabo Verde, de São Tomé, os penedos de São Pedro e São Paulo e as Bermudas, no Atlântico Norte, e, no Atlântico Sul, as ilhas de Ano Bom, Fernando de Noronha, Ascensão, Santa Helena, Trindade, Martim Vaz, Tristão da Cunha, Gough, Bouvet, Sandwich do Sul, Geórgia do Sul e Malvinas (Falkland).

Vejamos agora qual a importância geo-estratégica (sem perder de vista a componente sócio-económica) de cada uma destas ilhas ou grupos de ilhas, na busca de uma visão de conjunto do Atlântico em construção, desde o século XIV.

 

Canárias

Conhecidas desde a antiguidade clássica, mas interrompida a navegação para estas ilhas nos tempos medievais, os contactos com as Canárias serão reatados por portugueses, italianos e andaluzes, ainda na primeira metade do século XIV. A disputa, porém, irá travar-se particularmente entre portugueses e castelhanos, até que o Tratado de Alcáçovas, em 1479, acabará por atribuir a soberania das Canárias a Castela, ficando para Portugal os arquipélagos da Madeira, dos Açores e de Cabo Verde, o direito de conquista do reino de Fez e o exclusivo do comércio da Guiné.

Tratando-se de ilhas habitadas, as Canárias ofereciam, à partida, riqueza criada: cereais, gado, urzela, sangue de drago e, sobretudo, escravos. E porque a via adoptada para a apropriação desta riqueza por parte do europeu foi predominantemente o saque, o domínio destas ilhas assumiu a forma de guerra de conquista, associada, naturalmente, à missionação e à inculturação/assimilação.

A conquista e colonização das Canárias foi lenta e difícil. Os guanches ofereceram forte resistência e, não raras vezes, infligiram pesadas derrotas aos cristãos. Segundo as informações de Leonardo Torriani, o processo teve início em 1402, com a conquista de Lançarote por João de Bettencourt que terá submetido também Forteventura num dos anos seguintes. Gomera e Ferro foram tomadas em 1420. A Grã-Canária, só depois de dez anos de dura guerra na qual tomaram parte Diogo de Herrera (com a colaboração do português Diogo da Silva), João Rejón, Pedro de Algaba, João Bermúdez, Pedro de Vera, Fernando Peraza, Miguel de Mojica e Pedro de Lugo, viria a ser conquistada em 1473 ou, segundo outras fontes, em 1483. A Palma, depois de uma primeira tentativa de Diogo de Herrera ou, na opinião de outros, de Guillén Peraza, só foi dominada por Afonso de Lugo, em 3 de Maio de 1494. E a conquista do arquipélago das Canárias só viria a ser concluída com a tomada da ilha de Tenerife, em 26 de Julho de 1495, após uma renhida luta de dois anos, conduzida por Afonso de Lugo(1).

A análise atenta da cronologia da conquista das Canárias explica e dá sentido à controversa expressão do Tratado de Alcáçovas (1479): "e todas las otras yslas de Canaria gañadas e por gañar las quales fincan a los Reynos de Castilla"(2). Na verdade, à data da assinatura do tratado, duas ou, o que parece mais provável, três das sete ilhas deste arquipélago não tinham ainda sido conquistadas.

Os colonizadores irão introduzir novas culturas e novas árvores de fruto, da Madeira irão a cana-do-açúcar e a vinha, instalam-se sistemas de rega e outras técnicas agrícolas e esta reorganização do aparelho produtivo vai gerar novos excedentes e estimular o comércio com o exterior. À medida que os portugueses vão avançando no descobrimento da costa africana e das ilhas atlânticas, as Canárias vão assumindo cada vez mais importância geo-estratégica, a qual se reforçará ainda mais com a abertura da rota das Índias Ocidentais, a partir das viagens de Cristóvão Colombo, e da rota do Cabo, logo após a viagem de Vasco da Gama, porque se tornaram num importante porto de escala nas viagens de ida.

Relativamente aos arquipélagos portugueses, encontrados sem homens, serão obviamente objecto de um processo de colonização diferente do das Canárias, mas nem por isso deixarão de assumir um papel menos importante na descoberta e construção do Mundo Atlântico.

 

Madeira

 

As ilhas do arquipélago da Madeira, ao que tudo indica já avistadas desde o século XIV sem que alguém se tenha interessado pela sua exploração, foram realmente descobertas ermas, em 1419, pelos portugueses João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz Teixeira que logo decidiram povoá-las, pedindo a D. João I autorização e apoio régio para o efeito. Um dos companheiros de Zarco, Francisco Alcoforado, depois de ter relatado a expedição de 1419, diz que "no Verão seguinte, na entrada de Maio, mandou El-Rei fazer prestes três navios e João Gonçalves com sua mulher, Constança Rodrigues de Almeida, mulher santa, e com seus três filhos que eram João Gonçalves e Helena e Beatriz, meninos, e com a gente que houvesse de redor, mandou-lhe El-Rei dar homiziados e condenados que houvesse pelas cadeias do Reino" (1). Com o capitão João Gonçalves Zarco seguiu o seu companheiro de descoberta Tristão Vaz Teixeira e também Bartolomeu Perestrelo, aos quais foram dadas, respectivamente, as capitanias do Funchal, de Machico e do Porto Santo.

Montada a cadeia trófica e organizado o aparelho produtivo, cedo a Madeira começou a criar excedentes com cotação no exterior (madeiras, sangue de drago, urzela e cereais). Goradas as expectativas de obter trigo em Marrocos, eis as ilhas (a Madeira numa primeira fase e depois os Açores) a serem o celeiro do Reino, enviando ainda o cereal nobre para as praças portuguesas do Norte de África e para o trato da Guiné. Pelos "capitolos do ymfante Dom Fernando pera esta ilha", dados em 3 de Agosto de 1461, pode ver-se que a Madeira tinha o compromisso de fornecer anualmente "mill moyos de trigo pera ho trauto da Guine" (2).

O êxito do povoamento da Madeira adquiriu desde cedo um importante valor estratégico e constituiu um forte estímulo para a arrancada marítima do descobrimento da costa africana. Assevera João de Barros que, com o descobrimento das ilhas do Porto Santo e da Madeira, "começou o Infante a se esforçar mais em o seu principal intento, que era descobrir a terra de Guiné" e, aludindo de forma implícita ao mito do "mar tenebroso" e à sinistra barreira psicológica do Cabo Bojador, diz que "era tam assentado o temor desta passagem no coração de todos, por herdarem esta opinião de seus avós, que com muito trabalho achava o Infante quem nisso o quisesse servir, peró que já o descobrimento da Ilha da Madeira desse algum ânimo aos navegantes"(1).

Vemos, pois, o povoamento e colonização da Madeira a gerar o alento que parecia faltar à nação portuguesa, no momento crucial de traçar o seu destino. O Funchal passou a ser um importante porto de escala, aí se completando muitas vezes o abastecimento de víveres e de meios de troca (como é o caso do trigo, como vimos) das expedições partidas de Lagos ou de Lisboa, participando em viagens alguns dos grandes senhores da ilha com navios armados à sua custa, partindo do Reino ou da própria ilha. Tomemos alguns casos concretos.

Entre 1441 e 1445, Antão Gonçalves realizou três viagens à costa africana ao sul do Bojador e foi o primeiro que naquelas paragens fez captura de escravos e, por tal acto de bravura, foi armado cavaleiro por Nuno Tristão, capitão-mor da expedição, no sítio por esse facto chamado Porto do Cavaleiro. Esclarece Diogo Gomes, pela pena de Martinho da Boémia, que "assim contente o capitão-mor armou cavaleiro o menor, o mais moço, chamado Antão Gonçalves, que era parente do capitão da ilha da Madeira"(2).

O facto de se tratar de um parente de João Gonçalves Zarco sugere o apoio deste à expedição na qual tomou parte Antão Gonçalves. E esse apoio aparece explícito numa outra expedição de três caravelas à terra dos negros, comandada por Antão Gonçalves que capitaneava um dos navios, sendo os outros dois capitaneados por Garcia Homem (genro de Zarco) e por Diogo Afonso(3), cujos navios "forom receber sua bitalha aas ilhas da Madeira, porque avya hy ja grande abastança de mantiimentos"(4).

Deve sublinhar-se, porém, que os capitães e a nobreza madeirense participaram activamente no processo de descoberta da costa africana e no rico trato guineense, tendo especialmente em vista a aquisição de escravos para arroteamento e exploração das suas sesmarias. Em 1445, João Gonçalves Zarco, para "servyr seu senhor", armou à sua custa uma caravela "bem abitalhada, acompanhada de gente desposta pera trabalhar, e Alvaro Fernandez homem mancebo e ardido", seu sobrinho, por capitão dela, o qual passou o rio Senegal e o promontório do Cabo Verde e chegou à ilha Gorea e ao Cabo dos Mastros. Voltará à Guiné no ano seguinte, em caravela igualmente armada por seu tio Zarco, tendo atingido o Cabo Roxo e o rio Tabite, 110 léguas a sul do Cabo Verde. Em 1447, partiu de Lagos uma expedição de 14 caravelas, comandada por Lançarote de Lagos (ou da Ilha), "em busca da terra dos negros", às quais se juntaram mais 12 caravelas armadas em Lisboa e na Madeira e, destas, Tristão Vaz, capitão de Machico, foi pessoalmente por capitão de uma delas, João Gonçalves Zarco enviou duas "e assy outras, de cujos senhores nom curamos de fazer expressa mençom", segundo as precisas palavras de Zurara(1). No ano seguinte, partiram "de Portugal para a terra dos negros" nove caravelas, às quais se juntaram na ilha da Madeira "mais duas chefiadas por Tristão da Ilha e por Garcia Homem"(2). Por sua vez, o madeirense João Afonso do Estreito celebrou com o flamengo e capitão da ilha Terceira (Açores), Fernão Dulmo, um contrato, segundo o qual aquele se comprometia a armar à sua custa duas caravelas e este a pagar as despesas da tripulação, com vista à descoberta da "Ilha das Sete Cidades", contrato que foi confirmado por D. João II, por carta régia de 24 de Julho de 1486. A viagem não chegou a realizar-se, mas ficou o propósito(3).

Com o desenvolvimento económico da Madeira, aumentou o seu valor estratégico. A produção de açúcar, dominante na economia madeirense a partir dos anos sessenta de Quatrocentos, criará fluxos comerciais regulares com o Reino, com as cidades do Mediterrâneo e com as do Mar do Norte(4). Por outro lado, a cana-sacarina e as técnicas do seu cultivo, da implantação dos engenhos e da transformação do açúcar irradiarão da Madeira para vários espaços do Mundo Atlântico (Açores, Canárias, Cabo Verde, São Tomé, Brasil e Antilhas). E, no século XVII e nas centúrias seguintes, a economia do vinho atrairá anualmente ao Funchal um assinalável número de navios, a fim de carregarem as pipas do apreciado "madeira" para os países do norte europeu, com destaque para a Inglaterra, para a África, para o Brasil e muito particularmente para as Índias Ocidentais de Castela e para as colónias britânicas da América em fase de expansão(5).

 

Açores

 

A descoberta e o povoamento da Madeira irão proporcionar o "salto" para os Açores, em 1427. O povoamento e a montagem do aparelho produtivo, a partir de 1439, vão fazer dos Açores o celeiro do Reino. E produzirão ainda para exportação pastel, urzela, vinho e gado. Serão um importante ponto de apoio no avanço das navegações portuguesas para oeste, algumas das quais partirão mesmo das suas ilhas. Lembremos, a propósito, os casos de Diogo de Teive e Pero Vasquez de la Frontera (1452), de João Fernandes Labrador e Pedro de Barcelos (1495-1498), dos Corte-Reais (últimos anos do século XV e primeiros do século XVI) e de João Álvares Fagundes (1519).

Mas a importância geo-estratégica dos Açores reforçar-se-á com o rasgar das grandes rotas transoceânicas, nas viagens de regresso à Europa. Numa primeira fase, a Volta da Guiné ou da Mina, depois, a rota do Cabo, a rota do Brasil, a rota do Rio da Prata e a rota das Índias Ocidentais. Em suma: seriam poucas as rotas marítimas vindas das periferias coloniais que não procuravam fazer escala nos Açores. Por isso, o corso, a pirataria, o contrabando, o refresco, o repouso dos mareantes e a reparação das embarcações que ali aportavam depois de longas e, por vezes, atribuladas viagens conferiam aos Açores uma excepcional importância geo-estratégica (1). Como muito bem escreve João Marinho dos Santos, "os Açores fizeram-se com a mobilidade dos homens e dos bens e essa mobilidade foi o grande comércio transatlântico que a impôs ao mar grosso e desencontrado" (2).

Se, nas primeiras décadas do século XIX, a navegação a vapor e mais tarde a motor pôde prescindir (embora não deixasse de aproveitar) a tradicional escala dos Açores, a partir dos finais do século, a montagem das redes de comunicações por cabo submarino terá nos Açores um importante centro estratégico, secundado, aliás, pelos restantes arquipélagos portugueses do Atlântico. E, a partir da terceira década do século XX, a navegação aérea voltará a conferir aos Açores grande importância geo-estratégica, não só em termos da aviação comercial, mas também e principalmente no domínio da aviação militar. A atestá-lo estão as bases militares das Lajes (norte-americana) e das Flores (francesa), peças-chave na estratégia de defesa do Atlântico Norte(3).

Retomemos o que atrás se disse sobre o real significado da dobragem do Bojador por Gil Eanes, em 1434. Elucidativo acerca do mito que então envolvia esse malfadado cabo e também o Cabo Não, era, no dizer de João de Barros, "este comum provérbio que traziam os mareantes: Quem passar o Cabo de Não, ou tornará ou não" (4). E, pondo em causa a teimosia do Infante na sua firme determinação de navegar para além do Bojador, muitos questionavam: "como se havia de passar um cabo que os mareantes de Espanha puseram por têrmo e fim da navegação daquelas partes, como homens que sabiam não se poder navegar o mar que estava além dêle, assim por as grandes correntes, como por ser mui aparcelado e com tanto fervor das aguagens que sorvia os navios?" (1).

Não exageraremos se dissermos que a dobragem do Bojador significou o "estoirar" do mito do mar tenebroso e o derrubar de uma barreira psicológica até aí tida por intransponível. E julgamos não ser outro o pensamento de Barros, ao afirmar que "pôsto que a obra desta passagem não foi grande em si (quanto agora), então lhe foi contada por um grande feito, e houveram que era igual a um dos trabalhos de Hércules. Porque com esta passagem desfez a vã opinião que tôda Espanha tinha, e deu ânimo àqueles que não ousavam seguir êste descobrimento" (2).

A dobragem do Bojador abriu realmente as portas à navegação rumo aos mares da Guiné. E, nessa navegação, assumiram grande importância geo-estratégica as ilhas Canárias, já habitadas, e os arquipélagos ermos, povoados pelos portugueses, como são a Madeira e os Açores, de que já falámos, Cabo Verde e São Tomé, a que mais adiante nos referiremos. Mas não podemos esquecer a importância das pequenas ilhas costeiras ou simples ilhéus (povoados de forma permanente ou apenas visitados pelas populações fronteiras do continente), na ancoragem dos navios, no refazer da aguada e do refresco, no contacto com as populações, nas acções de saque ou do trato, na penetração do continente africano.

 

Arguim, Garças, Naar, Tider, Tarafal e Adegete (Bancos de Arguim)

 

O primeiro espaço insular a ser descoberto e tomado a sul do Cabo Branco (por Nuno Tristão ou por Gonçalo de Sintra) foi a ilha de Arguim, primeira feitoria portuguesa na costa africana, onde se fará regularmente a troca de ouro e de escravos negros trazidos pelos azenegues, por tecidos, cavalos e sobretudo trigo, de que os naturais, segundo Cadamosto, pareciam estar sempre esfomeados (4). Não admira, pois, que, ainda no tempo do infante D. Henrique, aí se tenha erguido uma fortaleza, ao que tudo faz crer de madeira, para garantir a segurança e o regular funcionamento da feitoria, fundada em 1445 pelo fiel colaborador do infante, João Fernandes, o qual se embrenhou no continente, aprendeu a língua dos autóctones e captou os segredos do comércio local. Soeiro Mendes de Évora será depois encarregado de aí edificar um castelo de pedra e cal e virá a ser nomeado seu capitão-mor, por carta régia de D. Afonso V, de 26 de Julho de 1464. A fortaleza - feitoria de Arguim virá a ser tomada como modelo inspirador de futuras instituições similares que assegurarão a presença e o domínio português na costa ocidental africana (recorde-se S. Jorge da Mina) e no Índico (1).

Alarguemos o campo de análise e ilustremos muito do que temos vindo a dizer sobre Arguim, dando a palavra às fontes. Louvando-se no relato que lhe foi feito por um tal João Rodrigues, reposteiro de D. João II, pelo rei enviado a Arguim em 1493 e em anos posteriores, escreve Valentim Fernandes, em 1506: "Arguim, e seg do os mouros Arguem, he huã ylha de terra firme huã legoa. Nesta ylha ha hy h a fonte dagoa doce muy marauilhosa. E j to cõ esta fonte muy chegado estã outras tres fontes dagoa muyto maa e salobra, meio por meyo mais salgada que doce.

Em esta ylha nõ ha aruore alguã. E herua se ahy nace quãdo choue, he herua   ata as cabras se della comer  morr  logo em com doa. Nem ha galinhas n  patos n  nenh a criaçã. Em esta ylha ha alg as 70 ou mais casas de mouros em torno do castello chamados azenegues. E nõ soom te estes som assy chamados, mas todos moradores daqui na costa do mar ata Guynee e sõ dos mouros chamados azenegues schirmeyros a causa do peixe   tomã e de   viv . E sã chamados schirmeyros a differ ça dos outros azenegues   morã no sartão   sã tractãtes e caçadores   tractã pera Guynee.

Estes azenegues schirmeyros he h a geraçã sobre sy muy vil e desprezada de todos os mouros e os tem assy como nos os judeus, schirme quer dizer peixe.

Estes azenegues schirmeyros, ou pescadores sõ tã proues e tã mesquinhos   nõ tem pam, n  azeite n  lenha n  sal n  cebolla n  nenh a outra cousa   pert ce ao humano usu. E quãdo faz  seu comer ajuntã da sebe do mar e poemlhe fogo. E algu  peixe   ahy tomã po no debaixo do dito fogo, e assy ho assam e com  sem outra cousa alg a. E per essa mesma maneyra com  as tartarugas. Carne nõ com , saluo se forem a terra firme   os outros mouros ouuessem morto algu  camelo de   pod  alcãçar algu  pedaço   com  assy assada cõ sebo do mar como faz  ao pescado.

Estes mouros leixã os christãos aqui por  de todo   pescã dam de cinco hu  aos christãos. E assy das tartarugas   tomã muytas" (2).

Repare-se que a esterilidade da pequena ilha de Arguim não possibilitava a criação de riqueza no seu interior. Os autóctones, que à data em que escreve Valentim Fernandes, eram cerca de 70 famílias de pescadores ("schirmeyros"), obtiveram dos portugueses permissão de continuarem na sua ilha, porque se mostraram colaborantes, tornando-se vassalos do rei de Portugal, ao qual pagavam o quinto de todo o pescado.

Mas não foi certamente para cobrar este tributo que os portugueses se apropriaram desta pequena ilha, construindo aí uma fortaleza. A razão fundamental esteve, sem dúvida, na importância estratégica da ilha, relativamente à navegação da Guiné e ao rico comércio com os mouros azenegues da terra firme. Na verdade, além de um ancoradouro seguro, no qual os portugueses podiam fazer aguada em "h a fonte dagoa doce muy marauilhosa", permitia-lhes o acesso a um rendoso comércio que a coroa sempre considerou monopólio régio. No dizer de Valentim Fernandes,"as mercadorias   os portugueses la tem sõ pãnos de coor baixos azul e vermelho e linho de todas sortes, albarnozes, alquiçes, aycas, abanes, duquales   som finos e todos alquicees, lambees, bordates   val  muyto, bed es, sellas estribos baçios, mel, prata   val mais   oiro, açaffrã, crauo, pim ta, gingiure, coral vermelho em cõtas redondas, alaquetas val  muyto. Trigo do   val alqueyres 2 1/3 hu  mitical. E de todas estas mercadorias nõ pode leuar la nengu  se nõ elrey. Ho mitical val 445 reaes de Portugal. Retenha-se que, por essa altura, vendia-se o trigo na Madeira a 50 réis o alqueire. A troco destas mercadorias levadas pelos portugueses traziam os mouros azenegues à feitoria de Arguim "escrauos pretos de Guynee, ouro, pelles dantas, goma araujca, gatas dalgalia, ouos demas, camelos, vacas, cabras" (1).

Referem as fontes a existência a sul de Arguim, de um alinhamento de pequenas ilhas, paralelo à costa, cujo conjunto é, por vezes, chamado baixos de Arguim ou ilhéus de Arguim. Além desta ilha, na qual os portugueses instalaram a fortaleza-feitoria, esse grupo insular é composto pelas ilhas de Garças, Naar, Tider, Tarafal e Adegete. Ricas em peixe, em tartarugas e seus ovos e em aves marinhas, estes ilhéus atraíam os azenegues costeiros que aí se deslocavam em almadias, expondo-se assim à sua captura por parte dos portugueses. Constituiam também um abrigo natural das nossas embarcações que aí podiam reabastecer-se de pescado, de aves, de ovos, de água e de lenha. Daí lançavam as suas entradas no continente, visando o saque, especialmente a captura de escravos azenegues. Documentemos o suficiente.

Escreve Valentim Fernandes que "esta ylha dArguym cõ outras muytas sam as mais derradeyras ylhas   vam cõtra Guynee as quaes j tamente se chamã as baixas de Arguym" (2). A ilha das Garças diz ficar "a duas legoas de Arguym ylha, onde criã aues sem cõto, aues de diuersas meneyras .s. gayuotas, gaujnas, garjaos, colheyros, garças, fram gos, rabjj cos e muytas aues do mar" (3).

A captura de escravos por parte dos portugueses será a razão por que estas pequenas ilhas são frequentemente referidas nas fontes. No dizer de Valentim Fernandes, no ano de 1444, alguns navegantes e "Lãçarote capitã mor de seys carauelas chegarõ aa ylha das garças ja descuberta e forõ a ylha chamada Naar onde tomarõ 165 almas. Tyder ilha descobrio Lãçarote neste viag  onde tomarõ 48 mouros e tornarõ a Portugal"(1).

A par da água e do refresco, o abastecimento de lenha era importante ao quotidiano dos navegantes. E, atento às informações recolhidas, tal não passa despercebido ao referido autor alemão que esclarece: - "De Arguym a oyto legoas esta outra ylha chamada Taraffal. E esta he chea de lenha e esta lenha he proprio como aderno a qual lenha chamã os mouros taraff de   a ylha tem o nome, e arde mais verde que seca" (2). Mas a captura de escravos era o principal objectivo das navegações para estas paragens. A tal propósito, Azurara refere-se a estas ilhas em vários capítulos da sua Crónica dos Feitos da Guiné. Concretamente, escreve que, no "anno de 1443 Nuno Tristão cõ hu  navio chegou ao Cabo Brãco ja descoberto ãno passado e dy foy 25 legoas e achou h a ylha   chamã la os azenegues Adegeth onde virõ 25 almadias cõ muyta g te e tomarõ 29 almas"(3). Também João de Barros se refere amiude a estas ilhas e às entradas que, a partir delas, se faziam na terra firme para capturar mouros azenegues. Escreve a certa altura que Antão Gonçalves "passou a diante aos ilhéus de Arguim; porque naquelle tempo pera fazer algum proveito todos os iam demandar ... E a causa de ser mais povoada, era por razão da pescaria de que aquela mísera gente de mouros azenegues se mantinha, porque em tôda aquela costa não havia lugar mais abrigado do ímpeto dos grandes mares que quebram nas suas praias, senão na paragem daquelas ilhas de Arguim, onde o pescado tinha alg a acolheita e lambugem da povoação dos mouros, pôsto que as ilhas em si não são mais que uns ilhéus escaldados dos ventos e rocio da água das ondas do mar" (4).

Palma / Goreia

Um outro espaço insular estrategicamente importante no processo das descobertas e nos contactos dos europeus com a região da Guiné foi o baptizado pelos portugueses ilha de Palma (ou de Bezeguiche, nome de um chefe nativo da região fronteira), designada depois pelos holandeses Goeree (do nome de uma ilha da Zelândia) e pelos franceses Gorée. Situada na enseada que se desenha a sul do Cabo Verde, o ponto mais ocidental da África, a descoberta desta pequena ilha, com dois ilhéus adjacentes, atribui-se a Dinis Dias, escudeiro do infante D. Henrique, no ano de 1444, o qual nela terá encontrado, gravada numa árvore, a divisa do dito Infante, "talent de bien faire", o que sugere que a ela teria chegado um mareante anterior, talvez Álvaro Fernandes.

Apesar de distar apenas cerca de duas milhas da costa, de ter uma pequena fonte de água doce, vegetação, aves, gado e pescarias, não tinha suscitado o interesse pela permanente fixação humana da ilha, por parte das populações fronteiras, pois, a crer na informação de Valentim Fernandes, este ilhéu foi encontrado "despouorado de g te mas era pouorado cõ muytas cabras   tomarõ por seu refresco e assi tomarõ agoa e forõ ata outro ilheo (1). Afirma, mais adiante, ter "este ylheo de Palma muytas aruores grossas de 120 palmos em redondo e muy altas as quaes chamã cabaceyras por portugues por  seu fruito pereçe cõ abobaras pequenas. E d tro t  o myolo muyto brãco e h as piuidas mesturado cõ elle. Quando som maduros sõ boõs de comer ho meolho de d tro he azedo hu  pouco muyto bõo pera corr ça, por  qualquer hom    anda cõ a corr ça e lhe dã logo estanca. Criã se nesta ilha aues sem cõto .s. aues   viu  de pescaria" (2).

Descontado o evidente exagero da grossura monstruosa do tronco das cabaceiras, "de 120 palmos em redõdo", o facto é que o fruto destas árvores era não só comestível como tinha a propriedade medicinal de curar a diarreia, doença que, por razões alimentares, como se compreenderá, apoquentava fortemente os mareantes, situação que não deixaria de se agravar quando sujeitos às duras condições de insalubridade daquelas paragens africanas.

Além de ancoradouro das embarcações e do reabastecimento de água, de refresco e lenha, esta pequena ilha possibilitava as difíceis "entradas" no continente fronteiro, na mira do ouro e dos escravos jalofos. E, para além de ponto de refúgio e de descanço dos vivos, permitia dar sepultura sagrada aos cristãos que sucumbiam aos rigores do clima e aos horrores das setas envenenadas dos negros da região fronteira, particularmente depois que aí foi construída uma igreja. É Valentim Fernandes que o atesta, nos seguintes termos: - "Hu  destes ilheos he maior   chamã ilha de Palma. E tem h a ygreja de pedra   sos cuberta de palha, a qual fez a g te   foy cõ Diogo dAsambuje quãdo forõ fazer o castelo de Sam Jorge em a Mjna. Nesta ygreja jaz  soterrados muytos christãos   se finavã pello resgate desta costa e os vinham a soterrar a este ylheo por amor desta ygreja" (3).

Pelo que fica dito se compreende que, apesar das suas reduzidas dimensões, a ilha de Palma / Goreia tenha sido tão disputada pelas potências coloniais europeias. Na posse dos portugueses até 1617, foi tomada nesse ano pelos holandeses, o governador de Cabo Verde, João Pereira Corte Real, conseguiu recuperá-la, em 1628, voltou às mãos dos holandeses pouco depois, os ingleses apoderaram-se dela em 1663 e, em 1667, o almirante francês D’Estrès tomou-a aos ingleses, mudando várias vezes de mãos entre holandeses, ingleses e franceses até 1817, data em que ficou sob a soberania da França, tendo sido o ponto de partida da ocupação francesa do Senegal, até à independência deste país, em 1960.

Porto de reabastecimento e ninho de negreiros, o interesse geo-estratégico da ilha decaiu com a fundação de Dacar e com a abolição da escravatura, mas guarda ainda o valor histórico - militar do seu forte. É hoje uma tranquila estância turística, porto de pesca e ponto de apoio da frota de Dacar (1).

 

Cabo Verde

 

Situado numa vasta zona dominada pelos ventos alíseos de nordeste, limitada pelos centros de altas pressões atmosféricas do trópico de câncer e a linha de convergência intertropical (CIT), entre os 17o 12’ e 14o 48’ de latitude norte e 22o 41’ e 25o 22’ de longitude oeste de Greenwich, o arquipélago de Cabo Verde caracteriza-se por um clima de tipo árido e semi-árido que condiciona toda a actividade económica e vivencial das gentes(2). A chuva (ou ausência dela) é o elemento dominante, em torno do qual gira o mundo caboverdiano. Duas estações principais definem o clima destas ilhas: a estação seca (tempo das brisas) de Dezembro a Junho e a estação das chuvas (tempo das águas) de Agosto a Outubro. Os meses de Julho e Novembro são meros períodos de transição. À distribuição irregular das chuvas ao longo do ano deve juntar-se ainda o facto de, ciclicamente, não chover durante anos seguidos, em todas ou na maioria das suas ilhas, provocando dramáticos períodos de seca (3).

Perante a adversidade do ecossistema, compreende-se que o povoamento e colonização de Cabo Verde tenha sido lento e difícil, ficando a dever-se mais à sua posição geográfica e a factores externos que a estímulos internos. O arquipélago de Cabo Verde, com uma superfície total de 4.033 km2, compõe-se de 10 ilhas divididas em dois grupos: o grupo de barlavento (S. Antão, S. Vicente, S. Luzia, S. Nicolau, Sal e Boavista) e o grupo de sotavento (Maio, Santiago, Fogo e Brava)(4). Iniciado o povoamento da ilha de Santiago em 1462, só entre 1480 e 1493 se passou à ilha do Fogo; S. Antão e S. Nicolau só virão a atrair os primeiros povoadores na década de 70 do século XVI e as restantes seis ilhas só começarão a ser povoadas a partir do século XVII, mas desde cedo nelas tinha sido lançado gado a monte, funcionando como autênticos "currais", alvos de chacinas periódicas (1).

O rendoso resgate da Guiné atrairá a estas ilhas tropicais os primeiros núcleos de portugueses. Sendo uma das poucas ilhas de Cabo Verde que, no dizer de Valentim Fernandes, tinha "muytas ribeyras dagoas doçes e boas" (2), Santiago foi, desde logo, a "feitoria portuguesa da Guiné", tornando-se num importante entreposto comercial entre a Europa e as fronteiras regiões africanas e, no sentido inverso, entre estas regiões e a Europa e, mais tarde, as Américas. Só com o regimento de 11 de Outubro de 1625, dado a Francisco Sodré Pereira, nomeando-o capitão, feitor e ouvidor de Cacheu, rio Grande e S. Domingos, será criada a feitoria - fortaleza dos "Rios da Guiné", ficando, contudo, subordinada ao governador de Cabo Verde (3). Até essa data, a feitoria de S. Domingos e as de outros rios da Guiné, simples extensões da de Santiago, funcionaram a bordo de um navio, por razões de segurança, uma vez que as relações com alguns povos guinéus nem sempre se revelaram amistosas e a fixação permanente de portugueses nessa região comportava sérios riscos (4).

Sendo a ilha de Santiago sede da diocese e base logística de penetração no continente africano, o bispo de Cabo Verde, D. Frei Vitoriano Portuense, realizará duas viagens pastorais à Guiné, a primeira em 1694 e a segunda em 1696-1697. É a primeira presença de um bispo em terras da Guiné e vem demonstrar que a presença portuguesa e a propagação da cristandade naquelas paragens tinham-se reforçado e só não frutificavam mais por manifesta falta de agentes missionários e por comportamentos nem sempre edificantes por parte dos cristãos(5).

De início, face às adversidades ecossistémicas atrás referidas, poucos moradores se mostraram interessados em se fixarem de forma definitiva na ilha de Santiago, pelo que D. Afonso V, por carta régia de 12 de Junho de 1466, se viu forçado a conceder aos moradores da ilha algumas isenções fiscais e o privilégio de "poderem hir com nauios e trautar e resgatar em todollos nosos tratos das partes de guinee resalluando desto o noso trato dargim", porque, "por ser tam alomgada de nosos Regnnos a gemte nam quer a ella ir vyver senam com muy grandes lyberdades e franquezas" (6). Tais liberalidades atraíram à ilha de Santiago muitos portugueses que se dedicavam apenas ao trato da Guiné, encarando como transitória a sua estada nessa ilha, sem cuidarem de montar o aparelho produtivo e de se fixarem à terra. Para obviar a tal inconveniente e evitar contendas com Fernão Gomes, por esse tempo arrendatário do trato da Guiné, a coroa criou um mecanismo jurídico mais adequado. Por carta de 8 de Fevereiro de 1472, D. Afonso V esclarece que a área de privilégio dos moradores de Santiago se restringia à costa descoberta à data em que foi concedido, excluindo, portanto, a região consignada no contrato entre a coroa e Fernão Gomes, determinando que, sob pena de perderem suas fazendas e nauios, o capitão e os moradores de Santiago não possam "outras nenh  as mercadorias mandar resgatar per bem da dita nossa carta senom aquellas que elles de suas nouydades e colheytas na dyta ylha ouuerem, porque estas taaes soomente queremos e mandamos que possam leuar se quiserem e outras alg  as nam, porque somos bem lembrado que quamdo assy o dito priuillegio outorgamos pera as nouydades e fruytos e cousas quaeesquer que na dita ylha ouuessem podessem aver escrauos escrauas machos e femeas pera seus seruiços e seer aazo pera sua milhor viuenda e boa pouoraçam" (1). Portanto, os visados só poderiam ir ao trato da Guiné numa área bem definida e com mercadorias produzidas na ilha. De nada valeram os protestos dos de Santiago, porquanto tais disposições régias viriam a ser confirmadas pelos monarcas subsequentes, definindo o tipo de produtos, as isenções fiscais e as áreas da Guiné onde podiam actuar. Esta medida legal obrigou os moradores de Santiago a criar riqueza no interior da ilha que pudesse funcionar como paramoeda no trato da Guiné. O algodão será essa paramoeda, criada na ilha de Santiago e na do Fogo, actividade que exigiu mão-de-obra escrava e investimento por parte dos colonizadores, promovendo-se, deste modo, o povoamento dessas ilhas (2).

Para além da necessária economia de subsistência e do algodão, outros bens passaram a ser produzidos com vista ao mercado exterior, concretamente para a Madeira (carne, sebo e peles), para o Reino e para outros países europeus, nomeadamente o açúcar, a urzela, o sangue de drago, as peles e o âmbar (3). Retenha-se que os cereais de pragana, com um longo ciclo vegetativo de seis ou sete meses, não se revelaram adaptáveis ao clima caboverdeano, com uma curtíssima estação das chuvas entre Agosto e Outubro. Serão o milho e o feijão que, semeados após as primeiras chuvas e criando-se em apenas três ou quatro meses, melhor se adaptaram às condições climáticas do arquipélago, possibilitando, em boa medida, a subsistência das populações. Referindo-se a Santiago de Cabo Verde, diz na sua Relação o piloto português anónimo: "em os primeiros dias de Agosto é que principiam a semear o pão, que se chama milho zaburro, e nas ilhas ocidentais maiz" (1).

Como já se disse, o povoamento e colonização de Cabo Verde deve-se à sua privilegiada posição geográfica, não só em relação à rica região fronteira do continente africano, mas também no que toca à sua função de porto de escala obrigatória das grandes rotas da navegação atlântica. Referindo-se à ilha de Santiago, um documento de 25 de Outubro de 1512, diz que "é grande escala pera as naus e navios de Sua Alteza, e asi pera os navios de São Tomé e ilha do Príncipe e pera os navios que vão do Brasil e da Mina e de todas as partes de Guiné, que quando aqui chegam perdidos e sem mantimento e gente aqui são remediados e providos de tudo o que lhes faz mester" (2).

De facto, enquanto a Madeira e as Canárias eram portos de escala nas viagens de ida e os Açores nas de regresso, Cabo Verde assumiu-se como uma importante placa giratória da navegação atlântica, pois aí se cruzavam nas viagens de ida e de regresso, a rota da Guiné, a rota do Congo/Angola e a rota do Cabo e aí aportavam à ida os navios do Brasil e os da rota das Índias de Castela. Compreende-se, assim, a enorme importância geo-estratégica de Cabo Verde, quer na penetração do europeu no continente africano, quer como grande centro da teia das grandes rotas atlânticas e, no presente século, da rede de cabos submarinos de telecomunicações(3).

 

Bijagós, Bissau e Bolama

 

Composto por cerca de 40 ilhas e ilhéus, o arquipélago dos Bijagós, com as ilhas de Bissau e Bolama, facilitaram o contacto dos portugueses, por via de regra através de Cabo Verde, com a chamada região dos "Rios da Guiné" (4).

Durante o século XVI, instalaram-se na ilha de Bissau alguns povoadores portugueses e, nos últimos anos do século XVII, o rei de Portugal obteve do rei local autorização para aí construir uma fortaleza. Em 1687, foi criada a capitania de Bissau para a qual foi nomeado, em 1696, o primeiro capitão-mor, José Pinheiro da Câmara, iniciando-se, de imediato, a construção da fortaleza. Perante a ameaça dos franceses, a fortaleza foi destruída, em 1708, por ordem de D. João V, e extinta a capitania(5). Em 1753, D. José restabeleceu a capitania de Bissau, confiada a Nicolau de Pina Araújo, na dependência do capitão-mor de Cacheu, e, em 1766, deu-se início aos trabalhos da grande fortaleza de S. José de Bissau, ainda hoje digna de admirar-se. Dotada de bom porto, Bissau tornou-se sede da Guiné Portuguesa em 1835 (entre 1842 e 1852, Cacheu foi distrito autónomo). Em 1879, a Guiné foi separada administrativamente de Cabo Verde, sendo então a capital transferida para Bolama. A povoação de Bissau foi elevada a vila em 1859 e a cidade em 1914, passando, em 1941, a ser a capital da Guiné Portuguesa.

Nos primeiros três séculos após o descobrimento, a ilha de Bolama não suscitou a fixação dos portugueses que se limitaram à extracção de madeiras. Só em 1753 o capitão-mor Francisco Roque Sotto Maior assentou na ilha um padrão com as armas de Portugal. Em 1792, instalaram-se na ilha 275 ingleses chefiados por Filipe Beaver, mas não resistiram às inclemências do clima e aos ataques dos bijagós, acabando os últimos sobreviventes por abandonar a ilha no ano seguinte. Como atrás se disse, entre 1879 e 1941, a cidade de Bolama foi capital colonial do território da Guiné Portuguesa (1).

 

Ilhas dos Ídolos e ilhas Bravas

 

Em "este liuro he de rotear", Valentim Fernandes refere-se pormenorizadamente a vários acidentes geográficos ao longo da costa ocidental africana, tais como ilhas, ilhéus, rochedos, recifes, baixios, serras, rios, cabos, enseadas, praias, procurando situá-los através da distância quantificada em léguas. Indica o melhor caminho a seguir, a qualidade dos portos e ancoradouros existentes na costa ou, de preferência, porque mais seguros, nos espaços insulares, a maneira de obter o refresco, de fazer boas pescarias, de fazer aguada, de conseguir lenha, dando indicações minuciosas e precisas sobre esses aspectos, particularmente sobre a forma de localizar as fontes de água doce, quantas vezes escondidas pela vegetação e entre rochedos ou apenas captáveis na maré baixa (2). Concretamente, as pequenas ilhas dos Ídolos são muito referidas pelos autores quatrocentistas e quinhentistas, os quais põem em evidência a sua importância para a navegação. No dizer de Duarte Pacheco Pereira, da foz do rio Grande às ilhas dos Ídolos vão 53 léguas e distam 18 léguas da Serra Leoa (Cabo Ledo). Esclarece que a sueste da foz do dito rio a caminho da Serra Leoa, logo após o cabo de Sagres, há uma enseada para ancorar navios e, "no rostro deste cabo, légua em mar, estão duas ilhas pequenas que tem um ilhéu junto consigo, e a estas chamamos as ilhas dos Idolos; e este nome lhe foi posto porque os Negros desta terra, quando ali vão fazer sua sementeira de arroz, levam seus idolos em que adoram, e porque ali foram achados muitos deles quando se esta terra descobriu, se pôs este nome de ilhas dos Idolos. E na maior destas ilhas, da banda do sul, acharam na praia  a muito boa fonte de áugua doce em que os navios de baixa-mar, ou gente deles podem tomar áugua, porque de preia-mar tudo é coberto de maré, e assi podem tomar lenha que há i muita. E ao mar destas ilhas nas trinta e cinco e quarenta braças, há muita pescaria (1).

Do mesmo modo, as ilhas Bravas são muito invocadas nas fontes coevas. Duarte Pacheco Pereira diz haver logo a sul da Serra Leoa " a muito boa fonte dáugua doce". Sempre o problema do reabastecimento de água no centro das preocupações de quantos estavam ligados às coisas do mar. Escreve o referido autor: "Tanto que homem passa a ponta do cabo Ledo per espaço de seis léguas, contra a su-sudeste, logo parecem três ilhetas que se chamam as ilhas Bravas. E na maior delas está  a muito boa fonte de áugua doce" (2). Por seu turno, escreve Valentim Fernandes: - "Sabe   as ylhas Bravas tem estas aguadas, huã da bãda do sueste e outra da bãda do noroeste, huã em direyto da outra da bãda do noroeste. Tem hu  valle amtre dous mõtes os mayores da ylha. Sabe   aguada do sueste tem estes synaes. Esta amtre duas põtas e amtre estas duas põtas estam muytas bayxas e nõ podes hy tomar agoa se nõ de meya mõtante pera cyma. Esta agoa naçe de bayxo de huã pedra. E se quiseres cauar acharas muyta agoa (3).

As ilhas, ilhéus, penedos ou baixios eram (e continuam a ser) referenciais seguras para certificar ou corrigir a rota da navegação oceânica. É o caso concreto das ilhas Bravas, como se pode ver pelas seguintes palavras de Valentim Fernandes: "Sabe   se fores de dia   vista das ylhas Brauas podes hyr por cyma dos bayxos em quarto e em v braças e dobraras todo e se a sondares acharas area preta. Sabe   se quiseres hyr per amtre as ylhas Brauas e a serra podes hyr por de d tro dos bayxos ao susudueste e nõ te s mais de dous bãcos de passar   ham nelles de preamar tres braças e tres e meya. E como os passares acharas v e vj braças ata ho cabo de Sancta Anna. Sabe   se esteueres tãto auãte como as ilhas Brauas pera aueres de dobrar os bayxos de Sancta Anna vayte pello sudueste x legoas aas xiiij braças e acharás area limpa. E des   te fizeres x legoas das ylhas Brauas logo podes hyr tua rota e por mais segurãça podes hyr ata xxx braças e logo podes hyr seguro em leste e quarta de sudueste e em lessueste"(4).

 

Fernando Pó, Príncipe, São Tomé e Ano Bom

 

Em termos geográficos, as ilhas de Fernando Pó, Príncipe, São Tomé e Ano Bom formam um arquipélago (que a história não congregou), situado no Golfo da Guiné, disposto num alinhamento que, pela ordem indicada, se cruza com o equador de forma oblíqua de nordeste para sudoeste. Nas sugestivas palavras de Francisco Tenreiro, "este conjunto apresentou-se aos olhos dos seus descobridores como muito original: uma originalidade de relevo, clima e vegetação, em virtude da situação equatorial das ilhas, nova para quem conhecia sòmente os arquipélagos subtropicais das Atlântidas. A originalidade de um relevo coroado por "pães-de-açúcar" e "torres-de-penedos", formas relacionadas com o predomínio de condições ambientais quentes e húmidas, com chuvas copiosas durante a maior parte do ano, curtos períodos secos e ventosos, temperatura com fraca amplitude térmica e dias sensivelmente iguais às noites. Nestas condições, por força das correntes de ar quente, de convexão, parte dos picos das ilhas viviam permanentemente escondidos nas nuvens, estuando-se em água que alimentava muitos ribeiros e uma vegetação luxuriante de árvores de troncos lisos e direitos, que, como paus, subiam ao céu - florestas imensas que vinham até ao mar"(1).

Descobertas nos anos de 1471 e 1472, estas ilhas vulcânicas equatoriais suscitaram o interesse dos portugueses, embora não se tenha revelado fácil o domínio do espaço e o processo de colonização, como vamos ver a seguir.

Das quatro ilhas deste arquipélago equatorial, a única que foi encontrada povoada foi a de Fernando Pó. Compreende-se tal facto se tivermos em conta que esta ilha dista apenas cerca de 20 milhas da costa, ao passo que a do Príncipe fica a 160 milhas, a de São Tomé a 180 e a de Ano Bom a mais de 200 milhas(2). Os autóctones da ilha de Fernando Pó, os budis ou bubis falavam uma língua banta como a maioria dos guinéus.

Mais que nenhum outro povo, os portugueses revelaram uma vocação muito especial para povoar ilhas encontradas ermas. Foi assim na Madeira e nos Açores, em detrimento das Canárias; foi assim em Cabo Verde em relação ao arquipélago dos Bijagós; foi assim em São Tomé e Príncipe em desfavor de Fernando Pó. De facto, em vez de conquistarem ilhas habitadas, os portugueses preferiram promover o povoamento e a organização do espaço das ilhas encontradas sem homens. Por outras palavras, preferiram dominar a natureza dos espaços insulares a ter de desafiar e defrontar os homens insulanos.

O caso de Fernando Pó parece-nos elucidativo a este respeito. Foram frustes as tentativas da sua colonização. E os contactos que os portugueses estabeleceram com esta ilha assentaram essencialmente no resgate de escravos. Nos últimos anos do século XV, era significativo o tráfico de escravos provenientes da ilha de Fernando Pó para São Tomé. O testamento de Álvaro de Caminha, datado de 24 de Abril de 1499, no qual se faz referência a grande número de escravos que deixa em legado a várias pessoas da ilha e do Reino, alude aos escravos de el-rei, entre os quais "os quoremta que tenho pera lhe mamdar da ilha de fernam do poo e allg us que me moreram e fogiram que foram muito pouquos e muitos mais pode ser que pollo gramde trafeguo que em minha casa tinha me nom lembram" (1). Embora Duarte Pacheco Pereira nos diga, nos primeiros anos do século XVI, que a ilha de Fernando Pó "é muito povorada e nela há muitas canas de açúcar" (2), canas levadas da Madeira e ali introduzidas pelos portugueses, o facto é que essa tentativa não vingou e não teve continuidade (ao contrário do que aconteceu em São Tomé), porque a colonização com base na economia do açúcar implicava a conquista e o domínio efectivo da ilha.

Não admira, pois, que sejam poucos os cronistas que a esta ilha se referem e, mesmo esses, de forma bastante lacónica. João de Barros, ao aludir à descoberta do Reino de Benim por João Afonso de Aveiro e às primeiras relações estabelecidas com aquele povo, diz somente que Fernando Pó "com esta costa descubriu a Ilha, que ora se chama do seu nome, que está vizinha à terra firme, a qual por sua grandeza elle chamou Ilha Fermosa" (3). Duarte Pacheco Pereira, além da já aludida referência à cana-do-açúcar, acrescenta apenas que, em frente desta ilha, na terra firme, fica uma serra muito alta (os montes Camarões que ainda hoje mantêm a sua actividade vulcânica), "a qual serra e ilha foi descoberta por Fernão do Pó, cavaleiro, criado del-rei D. Afonso o Quinto e ela tomou o nome do descobridor; e esta se aparta em ladeza, da linha equinocial, contra o pólo Árctico, quatro graus" (4). E Valentim Fernandes limitou-se a rabiscar um esboço cartográfico da ilha (5).

Esta ilha suscitou a cobiça dos ingleses que, no entanto, nunca exerceram sobre ela um efectivo domínio, continuando na posse dos portugueses até ser cedida aos espanhóis pelo Tratado do Pardo, de 11 de Março de 1778, mas só nos finais do século XVIII viria a ser eficazmente ocupada(6).

A ilha de Fernando Pó (actual Bioko), com 2.017 km2, faz hoje parte integrante da Guiné Equatorial, independente desde 1968. É de sublinhar, ainda hoje, a importância estratégica da ilha, na qual se situa a capital, Malabo, muito embora a ilha de Bioko fique situada a noroeste, fora da costa do país, no mar fronteiro aos Camarões. Fazem ainda parte do território da Guiné Equatorialas três pequenas ilhas de Corisco, Grande Elobey e Pequena Elobey, situadas junto à costa, e, lá bem distante a sul do equador, a ilha de Ano Bom (1).

Descobertas entre 1470 e 1472 por João de Santarém e Pedro Escobar, navegadores ao serviço de Fernão Gomes, nessa data arrendatário do trato da Guiné, as ilhas de São Tomé e Príncipe, encontradas desabitadas, não suscitaram o seu povoamento imediato e colocaram sérias dificuldades ao processo conducente ao arranque da sua colonização. É que, só depois da chegada de Diogo Cão ao Reino do Congo, em 1482, e de João Afonso de Aveiro ao Reino de Benim, em 1484, estas ilhas adquiriram importância estratégica, reforçada com a certeza de se chegar à Índia por mar, após a viagem de Bartolomeu Dias. Como refere Duarte Pacheco Pereira, D. João II, "com muito desejo de acrecentar no comércio e riqueza destes reinos mandou descobrir as ilhas de São Tomé e Sant’António e as povorou com fundamento da navegação da Índia" (2).

De facto, a primeira tentativa de povoamento de São Tomé partiu do oferecimento para tal efeito do escudeiro João de Paiva que, em 24 de Setembro de 1485, obteve de D. João II carta de doação da capitania da ilha, seguida do competente foral, em 16 de Dezembro desse mesmo ano (3). E, por cartas régias de 11 de Janeiro e 14 de Março de 1486, a ilha é partida em duas capitanias e doada de forma hereditária, metade ao dito João de Paiva e a outra metade a sua filha Mécia de Paiva e a quem com ela casasse (4).

Que os resultados alcançados por estes pioneiros foram pouco animadores prova-o o facto de a capitania de toda a ilha nos aparecer de novo a ser doada ao fidalgo João Pereira, em 3 de Fevereiro de 1490, o qual viu igualmente frustrados os intentos de atrair e fixar gente naquela ilha do meio do mundo (5). Aliás, nem João de Paiva e sua filha Mécia de Paiva, nem João Pereira se terão transferido para São Tomé, porquanto o povoamento e colonização da ilha só arrancou verdadeiramente com a doação da capitania, em 29 de Julho de 1493, ao cavaleiro Álvaro de Caminha, na qual o rei lhe impõe a obrigação de nela estar e morar "continuadamente" (6).

Com este capitão terão ido alguns casais de moradores e, segundo Valentim Fernandes, D. João II mandou muitos degredados e 2.000 crianças judias de ambos os sexos, com menos de oito anos de idade, baptizadas antes de embarcar, filhas dos judeus castelhanos entrados em Portugal, em 1492, das quais, em 1506, apenas 600 sobreviviam. E acrescenta que "o dito capitã os casou por  poucas dellas par  dos hom s alvos, muyto mais par  as alvas dos negros e as negras dos hom s alvos" (1). Por aqui se vê que os brancos (colonizadores, a maior parte dos quais degredados), preferiam unir-se às negras africanas que às brancas judias. Eis o peso da origem religiosa a ser mais impeditiva das relações sexuais por parte dos colonizadores que a cor da pele.

Pelo testamento de Álvaro de Caminha, lavrado em São Tomé perante o notário Rui Dias, em 24 de Abril de 1499 (falecerá vítima de febres quatro dias depois), pode ver-se que o povoamento da ilha estava a processar-se a bom ritmo, sobretudo pelo recurso aos escravos africanos, e era já um importante entreposto do tráfico negreiro (2). Diz João de Barros que D. Manuel ordenou "andar um caravelão da Ilha de São Tomé, onde concorriam assi os escravos da costa de Beni, como os do reino do Congo, por aqui virem tôdalas as armações que se faziam pera estas partes, e desta ilha os levava este caravelão à Mina" (3) . Por uma das cláusulas do referido testamento, ficamos a saber que Álvaro de Caminha deixou a capitania e o governo da ilha a seu primo, Pedro Álvares de Caminha, o qual, apesar de uma petição assinada por 65 moradores, não obteve a necessária confirmação de D. Manuel que, por carta de 11 de Dezembro de 1499, virá a doar a capitania de São Tomé ao fidalgo Fernão de Melo (4).

Na primeira década do século XVI, uma descrição concisa da ilha é-nos dada por Duarte Pacheco Pereira, nos seguintes termos: -"Ao mar do cabo de Lopo Gonçalves, sassenta léguas de caminho ao loes-noroeste deste cabo, está  a ilha que se chama S. Tomé, a qual mandou descobrir o Sereníssimo Rei D. João o Segundo de Portugal, e a povorou. E esta ilha será de longo quinze léguas em comprido e oito em largo, a qual se aparta da equinocial em ladeza, contra o pólo Árctico, um grau; e tem  a grande angra, da parte do norte, na qual podem surgir navios de qualquer grandura que quiserem estar. Nesta terra há o mais fermoso arvoredo, nem mais alto e grosso, que se sabe em toda a Etiópia de Guiné; e assi tem muitas e boas fontes e ribeiras de áugua. Nesta ilha se criam as canas de açúcar em tanta aventagem das outras partes, que não pode mais ser. E assi há aqui muitas e muito boas laranjas e limões e cidras; e outras árvores se dão aqui muito bem. Há aqui muitos e grandes lagartos que andam nas ribeiras de áugua doce e assi no mar, que comem os homens. Também há aqui  as bíboras, negras pelas costas e brancas pela barriga, da grossura da perna de um homem, maravilhosamente peçonhentas; e a sua longura é conveniente à sua grossura" (5).

Louvando-se nas informações que colhera de Gonçalo Pires, "marinheyro   foy a esta e outras ylhas, muytas vezes, hom  maduro e de crédito ãno de 1506", escreve Valentim Fernandes que a povoação principal tinha 200 moradores e em toda a ilha haveria mil povoadores, a maior parte dos quais degredados do Reino. Havia então na ilha mais de 2.000 escravos, além dos do resgate que ali permaneciam algum tempo em trânsito para os seus destinos e que por vezes atingiam os 5 e 6 mil. Na carta de doação da ilha a Álvaro de Caminha, el-rei ordenou que a cada degredado fosse dado um escravo ou escrava negra para início da sua vida naquela terra e, em 1506, muitos degredados e até negros forros tinham já 14 e mais escravos. E, no auge do ciclo do açúcar, os grandes produtores de cana e os senhores de engenho possuíam 100 a 300 escravos(1).

Para garantir a subsistência dos habitantes e o refresco da navegação, produzia-se inhame, milho zaburro, couves e frutas (tâmaras, laranjas, limões, limas, além de grande variedade de frutas silvestres); figueiras e parreiras que os portugueses levaram não davam fruto; o trigo crescia tanto que não dava espiga; as cebolas e os alhos não davam semente e, por isso, era preciso importá-la de Portugal para semear; favas, cevada e centeio não se davam nela. A introdução de várias espécies de animais complementava a cadeia alimentar: bois, cavalos, cabras e ovelhas levados de Cabo Verde; ovelhas, cabras e galinhas da Guiné; porcos de Portugal. Na floresta viviam muitas aves e o mar proporcionava boas pescarias.

Visando a exportação, introduziu-se com sucesso a cana-sacarina, trazida da Madeira, e o açúcar será a primeira grande mercadoria real produzida na ilha. Valentim Fernandes diz haver na ilha "grãdes canaueas daçucar e as canas maiores   da ylha de Madeyra, de   ja faz  melaça e daqui auãte quer o capitã mãdar fazer açucar e cada dia creç  mais" (2). E já vimos Duarte Pacheco Pereira asseverar que "nesta ilha se criam as canas de açúcar em tanta aventagem das outras partes, que não pode mais ser" (3). Antes da desorganização da cultura da cana-sacarina, nos finais do século XVI, São Tomé exportava para a Europa cerca de 150.000 arrobas de açúcar por ano(4).

A par da sua função de entreposto de escravos do Benim, do Congo e de Angola para as Américas e de "estalagem" do Atlântico Central, a colonização de São Tomé estruturou-se com base na economia do açúcar durante o século XVI e, após um longo "pousio" de mais de cem anos, tentou-se, no século XVIII, reanimar a produção interna com a plantação de caneleiras(5). O "ciclo da canela", (a que não será estranho a perda de Ceilão, no século XVII), não terá atingido os resultados esperados e a prosperidade da ilha só ressurgirá com a introdução do café em 1800 e do cacau em 1822. Foi assim que, no início do nosso século, São Tomé e Príncipe se tornou primeiro produtor mundial de cacau e ainda hoje é esta a sua produção mais importante (1).

Nas expressivas palavras de Francisco Tenreiro, "a situação privilegiada da ilha, primeiro na rota da Índia e, mais tarde, entreposto entre a costa ocidental de África e a América do Sul, facilitou contactos de raças, de culturas e de produtos. Foi, na realidade, desde o final do século XV, uma das grandes encruzilhadas do Mar-Oceano onde se encontraram homens, negros e brancos, de diferentes proveniências e com estilos de vida diferenciados, e se misturaram plantas do Mediterrâneo, de África, da Ásia quente e chuvosa e da América do Sul. Foi a ilha campo de ensaio de culturas, no sentido mais amplo que a esta palavra se pode atribuir" (2).

O processo de colonização da ilha do Príncipe iniciou-se em 1500, com a doação da capitania ao cavaleiro e escrivão da câmara de D. Manuel, António Carneiro, e com cartas de privilégios, liberdades e isenções concedidas aos povoadores, os quais podiam "resgatar e trautar todas as mercadorias e cousas nadas e criadas na dicta ylha na tera firme a saber des o Rio real e Ilha de fernam do poo atee a terra de manjconguo" (3).

Tendo em conta a sua reduzida superfície (114 km2) em relação a São Tomé (857 km2), a colonização da ilha do Príncipe fez-se à sombra da ilha maior e baseou-se nas mesmas componentes estruturantes. Contudo, menos vulnerável às convulsões internas e às cobiças externas, a ilha do Príncipe subiu em importância relativa no século XVIII. E, por razões de ordem político-administrativa e de segurança, a capital da colónia passou a ser Santo António do Príncipe durante uma centúria, precisamente de 1753 a 1852 (4).

Das quatro ilhas do "arquipélago da Guiné", Ano Bom é a única que fica a sul do equador, precisamente 1o 30’ sul, e é também a mais pequena, com apenas 17 km2. Tal como as restantes, tudo leva a crer ter sido descoberta pelos marinheiros ao serviço de Fernão Gomes, entre os anos de 1470 e 1472 (5).

Não há, porém, acordo entre os historiadores sobre esta questão. Damião Peres, põe a hipótese de ter sido Diogo Cão, no regresso da sua primeira viagem, no dia 1 de Janeiro de 1484. Apoia-se num esboço de um mapa de Valentim Fernandes que dá o nome de Ilha de Diogo Cão a uma ilha que desenhou numa estampa juntamente com a ilha de Fernando Pó, com a ilha do Príncipe e com uma outra que poderá ser São Tomé(1). Mas nada nos garante que a designada ilha de Diogo Cão seja a de Ano Bom.

Valentim Fernandes diz que a ilha de Ano Bom foi achada pelo capitão de São Tomé, Fernão de Melo, no dia 1 de Janeiro de 1501. Afirma distar 30 léguas de São Tomé, ser redonda, com cinco léguas de perímetro e duas de diâmetro. Assevera que Fernão de Melo a descobriu por acaso quando navegava para a ilha de São Tomé e nela encontrou um negro que ali arribou com mais dois companheiros que tinham morrido. Seriam pescadores de Manicongo e para ali teriam sido arrastados pelos ventos, correntes e tormenta, em uma almadia. Desprovidos de fogo, tiveram de comer os alimentos crús. Escreve ainda este autor: "começou se a pouorar esta ilha ãno de 1503 ao dia de Sã Johã Baptista. E ata oje de 1507 ha la IX moradores per sua uõtade, e nõ t  ygreja n  clerigo. E esta povoraçã esta em h a pequena darea   esta ao sueste e vaa acerca de mea legoa por agoa". Esclarece que a vegetação da ilha era idêntica à de São Tomé e, além dos cocos dos palmares endógenos, os portugueses tinham introduzido já alguns animais, laranjeiras, limoeiros, milho e inhames (2).

A pequenez da ilha e a sua reduzida importância estratégica, dada a sua proximidade de São Tomé, explica o pouco interesse que suscitou aos portugueses até vir a ser cedida à Espanha, juntamente com Fernando Pó, pelo Tratado do Pardo, de 11 de Março de 1778, na sequência do Tratado de Madrid (1750) e do Tratado de Santo Ildefonso (1777) e no rescaldo da beligerância luso-espanhola decorrente da disputa da Colónia do Sacramento e da fixação das fronteiras do Brasil(3). Repare-se como os interesses coloniais da Espanha passavam também a estar em jogo nas duas margens do Atlântico, particularmente o acesso directo ao escravo africano para as suas colónias americanas.

 

Ilha de Luanda

 

Duarte Pacheco Pereira, depois de se referir à descoberta do Congo por Diogo Cão, escreve que "além deste rio do Padrão, de que atrás falamos, com trinta e cinco léguas de caminho, pouco mais ou menos, é achado um rio pequeno que se chama o rio Mondego; e ali faz a terra  a enseada, que será pouco mais de  a légua em roda, na boca da qual estão duas ilhas pequenas, baixas e rasas, de pouco arvoredo, que chamam as ilhas das Cabras, e estas estão muito perto de terra, e são povoradas dos Negros do senhorio de Manicongo; e ainda vai adiante a terra de Congo.

E nestas ilhas apanham os ditos Negros uns búzios pequenos, que não são maiores que pinhões com sua casca, a que eles chamam "zimbos", os quais em terra de Manicongo correm por moeda; e cinquenta deles dão por  a galinha, e trezentos valem  a cabra, e assi as outras cousas segundo são. E quando Manicongo quer fazer mercê a alguns fidalgos, ou pagar algum serviço que lhe fazem, manda-lhes dar certo número destes zimbos, pelo modo que os nossos Príncipes fazem mercê da moeda destes Reinos a quem lha merece, e muitas vezes a quem lha não merece" (1).

Tudo nos faz crer que as ilhas das Cabras, de Duarte Pacheco Pereira, "povoradasde Negros do senhorio de Manicongo", que nelas apanhavam zimbo em abundância, são o que viria a chamar-se ilha de Luanda, a qual, na sua configuração alongada frente à baía fronteira, terá surgido aos olhos do observador como duas ilhas. Domingos de Abreu de Brito que, em 1591, ali esteve ao serviço de el-rei, escreve que "esta Ilha de Loanda he de sete leguoas de comprido e no mais larguo della he hum terço de leguoa, e em outras partes a quarta parte" (2). E no mapa que António de Oliveira Cadornega inclui no tomo III da sua História Geral das Guerras Angolanas, pode ver-se a ilha partida em duas e com maiores dimensões que as indicadas por Abreu de Brito, cuja configuração ressalta da sumária descrição que faz nos seguintes termos: - "Esta tão proveitosa Ilha tem doze legoas de comprido, começando de sua ponta que faz porto, e serve de seu amparo ás influencias do vento e furor do mar, tendo seus limites até donde chamão o Tampo, e a barra de Curimba, que está quasi em meyo, sete, e de largo meya legoa, pouco mais ou menos" (3).

Além de, pela sua posição geográfica, ser a porta de entrada em Angola, a ilha de Luanda era o "banco emissor" do reino do Congo, pois aí se fazia em abundância a apanha do zimbo, verdadeira pré-moeda corrente naqueles povos africanos. Referindo-se ao rei do Congo, afirma Domingos de Abreu de Brito, em 1591, ser a ilha de Luanda "o mayor thesouro da Tiopia por se pescar nella o simbo que hé a riqueza deste Rey" (4).

Na opinião deste autor, se Portugal desapossasse o rei do Congo da ilha de Luanda, poderia o rendimento do zimbo proporcionar à Coroa/Estado "mais de quatro çentos mil cruzados" por ano e, com esses réditos, conquistar o reino de Angola (não se podia "possuir o Reyno Danguolla sem ella"), subjugar o reino do Congo, explorar as "serras de prata" e "abrir o caminho das serras de ouro de Manapota e facelitarse o caminho de Moçambique" (1). Acrescenta ser "tanto esta Ilha de nosso seruiço   nella estaa a feitoria donde os officiães de nossa fazenda uão fazer as cousas tocantes a elle na qual estão apousentados muitos moradores tanoeyros, e doutros officios, e pera a carga das naos são neçessarios, a qual posse forão tomando os portugueses simplesmente pella neçessidade daguoa e as mais que asima aponto" (2). Domingos de Abreu de Brito acusa os colonos portugueses de sonegarem a el-rei a informação sobre o negócio do zimbo", mantendo oculta a ilha de Luanda, da qual, por esse facto, se considera o seu verdadeiro descobridor (entenda-se, descobridor da real importância do zimbo), pelo que não se coibe de pedir a Filipe II as justas mercês, nos seguintes termos: - "Esta he a Relação do que tenho dito sobre a Ilha, e asentandose por justiça qual Ilha he de V. Msde parece   se me deue dar a guouernança e meneo della pois he costume geral aos   descobrem fezer selhe as ta s Mercês e quando pareçer a V. Msde   he mais seu seruiço metella no guouerno do Reyno Danguolla auera por bem fazerme Mercê de huã comenda ja uencida   renda duz tos mil reis e dous mill cruzados em dinheiro para pagar minhas diuidas e parte do gasto   se fez cõ as pessoas   o lume desta Ilha derão" (3).

Os alvitres de Domingos de Abreu de Brito não foram seguidos pelos monarcas portugueses. E, se pensarmos bem, compreende-se porquê. Com efeito, embora à primeira vista nos pareçam acertados, o facto é que tais alvitres colidiam com as estratégias globais da política ultramarina portuguesa. Para Portugal, exercer a soberania sobre a ilha de Luanda e apossar-se do zimbo era entrar em guerra com o rei do Congo e romper com a sua vassalagem, fragilizando assim e comprometendo mesmo a conquista de Angola. Por outro lado, ao sistema colonial português interessava mais adquirir os escravos com panos, manilhas e outros bens idos da metrópole que com zimbo. Não admira, pois, que, quase um século volvido, em 1680, António de Oliveira Cadornega nos mostre a ilha de Luanda no mesmo regime político-administrativo, ou seja, "hum fidalgo descendente dos que o erão del rey de Congo, o qual tem nome de Governador da Ilha e gentio mixiloanda, por nome Dom Ambrozio, com outros que o acompanhão, do seu toque e fidalguia, pessoa de respeito, vestido à portuguesa, com insignia de bastão que governa aquella nação, e obedecem a seus mandados, e elles ao do Governador e Capitão Geral, como vassallos que são do Principe nosso Senhor"(4).

Havia, pois, uma autoridade indígena que fazia o enquadramento sócio-político dos naturais da ilha, os mixiloandas, cujas mulheres e filhos faziam a "pescaria do zimbo", em que eram "muito destras" (1). Tal não impediu que Paulo Dias de Novais, ao chegar à ilha de Luanda, em 11 de Fevereiro de 1575, na qual encontrou já, aliás, quarenta mercadores portugueses (eis a iniciativa privada a antecipar a iniciativa oficial), aí se tenha instalado e daí tenha lançado a fundação de São Paulo de Luanda, em terra firme, onde "fez um forte de taipa no qual poz artilharia". E aí recebeu, com muita honra e presentes, um mukunji (embaixador) do Ngola e o despediu três dias depois (2).

Pela descrição que dela nos faz Cadornega, em 1680, vemos que a ilha de Luanda propiciava um bom ancoradouro às embarcações, tinha boa água potável que servia "para o gasto e para fazerem agoada para o mar", nela se faziam boas pescarias e se criavam "muitas romeiras, figueiras, e algumas parreiras, arvores de espinho, laranjas, limas, cidras e toranjas, guaveiras, araçazeiros e pitangas, muitas ervas cheirozas, como são mangerocoens, manjarona, alecrim, e segurelha, cravos girvafanos, e alguns de Rochella, perpetuas, e outras boninas, muita salsa, e toda a hortaliça, couves, alfaces, rabos e nabos, sinouras, coentro e ortelaã, sebollas não têm limite, ainda que de pequena cabeça, e para adubar tudo isto que dito temos, muitos e bons meloens de boa casta e boas melancias" (3).

Além do zimbo, das pescarias, dos frutos e dos legumes, fazia-se na ilha de Luanda muita cal, proveniente da incineração da grossa casca de um marisco que os indígenas chamavam mabanga, que juntavam em grandes xalos (rimas) em camadas alternadas com lenha, a que depois lançavam fogo que ardia durante alguns dias. Esclarece Cadornega que "ha xalos destes que bota quinhentos e seicentos moyos de cal, e outros menos, conforme seu tamanho e se carrega em lanchas, e canoas para a cidade, e val o moyo a dous mil reis, posto na sua praça; e, se no xalo, a mil e quinhentos, de peça ou lettra. Vem a ser isto huma grande providencia de Deos que na casca deste marisco puzesse tal virtude para este minister, e se lhe fazerem nestas partes tão remotas tão sumptuozos templos, onde seu santo nome he tão louvado, e venerado; e ainda o peixe que deste marisco tirão, serve para remediar a muita gente pobre, e geralmente o comem todos assim fresco, como seco; também se coze e faz cal da casca desta mabanga em fornos como de telha, a qual sae mais purificada, e com menos mistura de cinza, e por ser mais limpa e alva serve para rebocar e branquear" (4).

Na data em que escreve Cadornega, a ilha tinha muitos moradores portugueses e era uma estância de repouso e recreio da gente grada da cidade de Luanda. Nela havia as produções que já vimos, a fortaleza de Corimba com sua guarnição militar, uma capela dos jesuítas e três igrejas, a de Nossa Senhora do Cabo, a de S. João de Casanga e a de Nossa Senhora do Desterro (1).

Como já tivemos oportunidade de ver, a ilha era em si mesma um bom ancoradouro e protegia a barra da baía de Luanda. Cadornega, referindo-se ao porto de São Paulo de Luanda, diz "ser capás de muitas Armadas, resgoardado dos rigores e furor do mar, e das influencias do vento, por ter em frente da terra firme huma Ilha muy dilatada em ser cumprida, que serve de abrigo a toda a embarcação de mayor porte seja a respeito da muralha que tem em frente, onde as furiosas ondas quebrantão suas furias e não se vio nunca em razão de tempestade que se perdesse navio nenhum dentro do socego deste porto e enseada" (2).

Do que ficou dito, ressalta a extraordinária importância estratégica da ilha de Luanda. Espaço seguro e base de penetração portuguesa em Angola (exceptuado o curto período de ocupação holandesa, entre 1641 e 1648), foi também porta de saída dos escravos angolanos rumo ao Brasil, às Antilhas e a outras paragens americanas (normalmente depois de reunidos no entreposto esclavagista de São Tomé), sendo igualmente importante base de apoio à grande navegação atlântica.

 

Ascensão, Santa Helena, Tristão da Cunha, Fernando de Noronha, Trindade e Martim Vaz

 

Falando de uma viagem de regresso da Índia, em 1506, escreve Valentim Fernandes: "em 31 dias de março ouverõ vista da ylha dAscensã   seria de seis legoas   lõgo he toda calva s  arvoredo todo pedra nõ muyto alta, t  muytas aves e nõ forõ la por nõ ter agoa. Aos 8 dias de mayo forõ   altura das ylhas dos Açores e as errarõ e forõ camjnho de Portugal em leste", onde chegaram a 22 de Maio de 1506(3). E, em "este livro he de rotear", depois de enumerar as ilhas do arquipélago de Cabo Verde, junta na mesma lista as ilhas de São Tomé, do Príncipe, de Fernando Pó, de Ano Bom, de Ascensão e de Santa Helena(4) .

Nos finais do século XVI, a ilha de Ascensão está ainda por povoar. Em 1591, Domingos de Abreu de Brito aconselha o monarca a promover o seu povoamento e sublinha a importância que poderá ter como escala da navegação entre Angola e o Brasil, nos seguintes termos: "pera a traça ter o effeito que a uossa fazenda conuem deuese tomar asento sobre se pauoar a Ilha da Senção que esta a meo do caminho Danguolla a Pernambuco partes do Brasil que são noueçentas, e tantas legoas, e esta Ilha está em o meo, e fica da Ilha de sancta Ilena trezentas e sesenta leguoas, está esta Ilha em oito graos, e dous terços a causa de se pouoar esta Ilha he ficar a carreira Danguolla mais pauoada, e menos arriscada aos muitos escravos   morrem na dita passage. E juntamente terem os nauios esta escala para nella recuperarem seus nauios por respeito das muitas aguoas   abrem e de se liurarem que lhe não morrão tantas peças quantas por falta e minguoa daguoa morrem nesta passagem"(1).

Como vemos, e contrariamente ao que afirmara Valentim Fernandes, a ilha de Ascensão tinha água potável para abastecimento da navegação, numa lagoa da serra e em poços que poderiam ser abertos no litoral. Com efeito, Domingos de Abreu de Brito escreve que "tem em si em o uão de huã serra h a alaguoa como a da uilla de Loanda do Reyno Danguolla a qual por respeito de sua grandeza deue de durar de annõ a annõ, e assi tem mais em fraldas da praya partes acomodadas donde se fação meos possos pera se delles tirar aguoa como as casimbas da uilla de Loanda"(2). Além da água, tinha "cantidade de pescaria e au is sem conto", pelo que, acrescenta o referido autor,"sendo a tal Ilha pauorada sera causa que os mercadores, e tratadores carreguarão mais peças daquellas que se costumão carregar por arreçearem na escrauaria, morte e çede e consumirem-se seus tratos"(3).

Mas não só na carreira de Angola para o Brasil a ilha de Ascensão poderia ser mais útil se fosse povoada. Na opinião do autor quinhentista que vimos citando, "só pera refugio das naos da India se deuia dar fim ao que aponto, por   muitas uezes suçede tomarem sancta Ilena, e tomarão esta Ilha dasunção assi pera o remedio de se ualerem das tempestades   no mar não faltão pera o   tenho apõtado por estar em oito graos e dous terços   he a mesma altura em   está Anguolla". E continua: "pauorarse a dita Ilha sera façil por se poder pouoar com hom s, e molheres   forem condenados a morte e alg s siganos, e siganas por ser  industriosos em sua uida, e por se dizer   na tal Ilha não ha guados ainda   de força os hadauer podera V. Msde mandar uir do Reyno Danguolla a semente de todos os guados   nelle ha pera se delles se pouoar a dita Ilha"(4).

Com 88 km2 de superfície, a ilha de Ascensão foi descoberta por João da Nova, em 1501, à ida para a Índia, como capitão da terceira armada enviada por D. Manuel. Mas como atrás se viu, a ilha podia também ser escalada com proveito nas viagens de regresso. D.João III deu-lhe foral em 25 de Agosto de 1539, mas, como já se viu, nos finais do século XVI, continuava desabitada. Pertence à Inglaterra desde 1815 e tornou-se numa das dependências britânicas de Santa Helena, da qual fica cerca de 1.200 km a noroeste. Modernamente reforçou até a sua importância estratégica no Atlântico Sul. Concretamente, é um centro retransmissor da rede de cabos submarinos de telecomunicações(1). Em 1982, desempenhou um importante papel como base britânica mar-ar, na recuperação das ilhas Malvinas (Falkland), ocupadas pela Argentina. E os Estados Unidos mantêm aí uma estação de rastreio de satélites. Não admira, pois, que a sua população, especialmente concentrada na povoação de Georgetown, tenha aumentado nas últimas décadas: em 1964, tinha 435 habitantes e, em 1989, passou para 1625. Nesta ilha vulcânica, a vegetação é escassa, mas os seus habitantes produzem frutas, legumes e dedicam-se à criação de gado e à caça, visto que a vida selvagem inclui cabras, coelhos, perdizes, tartarugas e andorinhas-do-mar(2).

A ilha de Santa Helena, situada no Atlântico austral, a 15o 30’ de latitude sul e 5o 42’ de longitude oeste, foi descoberta por João da Nova, em 1502, no regresso da sua viagem da Índia. A partir de então, no dizer de João de Barros, aí passaram a fazer escala as naus que regressavam da Índia, "pelo muito refresco que nela achavam". Por tal, a ilha recebeu os primeiros povoadores portugueses em 1513 e, no século XVII, esteve alternadamente nas mãos dos holandeses e dos ingleses, ficando definitivamente na posse da Inglaterra, em 1673. No século XIX, tornou-se muito conhecida por ser escolhida para a deportação, em 1815, de Napoleão Bonaparte, que aí morreu, em 5 de Maio de 1821. Com 122 km2 de superfície, esta ilha montanhosa possui um clima temperado, com chuvas suficientes para o cultivo do cânhamo, dos legumes e da batata-doce e para a criação de gado. Por Ascensão e Santa Helena passa o grande cabo telegráfico que liga a Europa à África do Sul e ao Oriente(3). Em 1989, tinha 5.500 habitantes, 1.500 dos quais na capital e porto da ilha, Jamestown(4).

A ilha de Tristão da Cunha, com apenas 104 km2 de superfície, consiste numa elevada montanha de 2.060 metros de altitude, culminando num vulcão cuja última erupção se verificou em 1961. Descoberta por Tristão da Cunha, em 1506, quando seguia para a Índia na armada de Afonso de Albuquerque, fica situada nos 37o de latitude sul e nos 12o 30’ de longitude oeste, a 2.850 km do Cabo da Boa Esperança e 4.000 km do rio da Prata, pelo que se tornou estrategicamente importante nas viagens de ida para a Índia. Inglesa desde 1816, é, tal como Ascensão, administrativamente dependente do governo de Santa Helena. Em 1968, tinha 260 habitantes e, em 1989, 325 pessoas que aí viviam da pesca, da criação de gado e da cultura da batata e de árvores de fruto. É actualmente uma importante estação meteorológica(1). A sueste da ilha de Tristão da Cunha, já no limite dos mares gelados, fica a pequena ilha de Gough, descoberta por Gonçalo Álvares, hoje na posse da Noruega, que a utiliza como testa de ponte na disputa da Antárctida.

Importantes também, embora de reduzidas dimensões, nas viagens de ida para o Brasil e para a Índia, eram os Penedos de S. Pedro e S. Paulo, ainda a norte do equador (igualmente vitais na primeira travessia aérea do Atlântico Sul, entre Lisboa e o Rio de Janeiro, realizada por Gago Coutinho e Sacadura Cabral, em 1922), a ilha de Fernando de Noronha, descoberta em 1503, a ilha de Trindade, descoberta por Estêvão da Gama, em 1502, a 651 milhas da costa da antiga capitania do Espírito Santo, cuja capital, Vitória, se situa também numa encantadora ilha, e, a leste da Trindade, as ilhas de Martim Vaz. Todos estes pequenos espaços insulares foram do domínio português, passando para a posse do Brasil no acto da sua independência. Em 1895, a Inglaterra disputou a ilha Trindade e chegou mesmo a ocupá-la e a arvorar nela a bandeira britânica, acabando por a devolver à soberania brasileira, em 14 de Janeiro de 1897, por mediação da diplomacia portuguesa(2).

 

Santa Catarina, São Francisco, Marajó e outras ilhas da costa brasileira

 

Situada no sul do Brasil, a ilha de Santa Catarina foi um importante ponto de apoio da colonização portuguesa na vasta região continental fronteira, povoada pelos índios carijós, antiga capitania e actual estado brasileiro que tomou o nome da ilha.

Nas três décadas que se seguiram ao descobrimento por Pedro Álvares Cabral, em 1500, o litoral brasileiro foi visitado por expedições portuguesas e espanholas. Em 1526, Sebastião Caboto, em viagem ao rio da Prata, passou pela ilha então chamada dos Patos e deu-lhe o nome de Santa Catarina. Em 1530, Martim Afonso de Sousa e seu irmão Pero Lopes de Sousa exploraram a costa sul do Brasil, não deixando, naturalmente, de fazer o reconhecimento desta ilha. Pero Lopes de Sousa escreveu um Diário de Navegação que tem sido considerado a mais antiga descrição do rio da Prata que, com 30 companheiros, explorou durante 34 dias.

Em 1534, D. João III concedeu a Pero Lopes de Sousa a ilha de Santa Catarina e e o território continental fronteiro, incorporado na capitania de Santo Amaro, mas não foi iniciada a acção colonizadora daquela região. É que, nessa altura, a nobreza portuguesa era mais atraída pelas coisas da Índia, como foi o caso destes dois irmãos Lopes de Sousa.

Durante mais de um século, a ilha e região fronteira apenas foram visitadas pelos jesuítas e por alguns colonizadores portugueses e espanhóis, mas sem fixação de população. O interesse português pela colonização efectiva da ilha de Santa Catarina e região fronteira só se manifestou pelos meados do século XVII. Em 1624, estava já instalada na ilha de Santa Catarina uma missão dos jesuítas, mas só em 1651 os paulistas Francisco Dias Velho e Luís Tinoco se estabeleceram na ilha com suas mulheres e filhos, criados e escravos, aí fundando a povoação de Nossa Senhora do Desterro. Em 1656, Domingos Peixoto de Brito fundava Laguna, no litoral do continente, a sul da ilha. E, em 1658, Manuel Lourenço de Andrade e seus companheiros fundavam a norte o povoado de Nossa Senhora da Graça, na ilha de São Francisco.

Assim começou o território a ser povoado e a estruturar-se a colonização. Em 1737, instalou-se uma Provedoria da Fazenda no Desterro, promovendo-se a construção de fortificações integradas num sistema de defesa da ilha catarinense. Em 1738, foi criada a capitania de Santa Catarina, com sede na ilha, ligada à de São Paulo e, no ano seguinte, passou a estar subordinada à do Rio de Janeiro.

Desde 1692 que emigrantes açorianos procuravam a ilha de Santa Catarina para se fixarem nas póvoas litorâneas e, a partir de 1747, tornou-se intensa a ida de casais açorianos e madeirenses, com os quais se reforçou o povoamento da ilha e a ocupação mais ampla do litoral, de São Francisco a Laguna. Concretamente, entre 1747 e 1751, aparecem registados no "livro para a matrícula dos casaes e mais pessoas que voluntariamente quizerem embarcar para o Estado do Brazil" 1.348 madeirenses (731 homens e 614 mulheres), muitos dos quais para Santa Catarina(1).

No contexto do estado de beligerância entre Portugal e Espanha pela disputa da Colónia do Sacramento e pela delimitação das fronteiras do Brasil, o governador de Buenos Aires, Pedro de Cevallos, em Fevereiro de 1777, tomou o forte de Santa Catarina e apoderou-se da ilha que, no entanto, acabaria por ter de restituir a Portugal pelo Tratado de Santo Ildefonso, em 1 de Outubro de 1777. E, em 11 de Março do ano seguinte e ainda no rescaldo dos tratados de limites do Brasil, foi assinado o Tratado do Pardo, no qual Carlos III de Espanha conseguiu introduzir cláusulas favoráveis à sua política, nomeadamente a cedência, por parte de Portugal, das ilhas de Fernando Pó e Ano Bom, bases geo-estratégicas da penetração espanhola na Guiné Equatorial, importante fonte de escravos visando a satisfação das necessidades de mão-de-obra das suas colónias da América, sem estar dependente do tráfico esclavagista português.

Com a proclamação da independência do Brasil, a capitania passou a província e, mais tarde, a Estado da República Federal, sempre com a capital na ilha de Santa Catarina, na cidade de Nossa Senhora do Desterro, actual Florianópolis, em homenagem ao destacado militar e político brasileiro Floriano Peixoto.

Vemos, pois, que a ilha de Santa Catarina, hoje ligada ao continente por uma ponte, foi o ponto de partida e de apoio para a colonização de uma vasta região do sul do Brasil, continuando a desempenhar um papel central na vida deste Estado brasileiro. Idêntica função, embora em menor escala, exerceu a ilha de São Francisco, situada na baía do mesmo nome, no litoral norte deste Estado, hoje igualmente ligada por uma ponte ao continente fronteiro(1).

A ilha de Marajó, situada na embocadura do Amazonas (Estado do Pará), com cerca de 48.000 km2, é a maior ilha flúvio-marinha do Mundo. Divide-se em duas partes distintas: a parte oriental, mais antiga, cuja formação data do início do quaternário, tem altitudes que vão dos 4 aos 20 metros, ficando assim liberta das cheias do Amazonas; a parte ocidental, mais recente e mais baixa, está sujeita às inundações periódicas deste grande rio. Essa área continua em processo de sedimentação e faz parte do chamado delta interior do Amazonas. Grande parte das planícies rasas desta ilha são exploradas por ranchos que se dedicam à criação extensiva de bovinos e de búfalos e à extracção da borracha nas florestas de seringueira. Existem ainda no estuário do Amazonas outras pequenas ilhas rasas(2)

Outras ilhas da costa brasileira podem apontar-se: as ilhas Maraca e Bailique, no Estado de Amapá; a ilha de Itamaracá, no Estado de Pernambuco; as ilhas de Itaparica, a Tinharé e a Boipeba, no Estado da Baía; a ilha de Vitória, na baía do mesmo nome, onde se fixou o primeiro grupo de colonizadores que acompanharam Vasco Fernandes Coutinho, fundador de Vitória, hoje capital do Estado do Espírito Santo; a ilha Grande e a Restinga de Marambaia, no Estado do Rio de Janeiro; a ilha de S. Sebastião e a ilha Comprida, no Estado de São Paulo; a ilha das Peças e a ilha do Mel, na Baía de Paranaguá, no Estado do Paraná(3).

 

Malvinas (Falkland) e outras ilhas do Atlântico Austral

 

Situadas no Atlântico Austral, a cerca de 500 km a leste da Terra do Fogo, as Malvinas (Falkland) são um arquipélago formado pela Grande Malvina (Falkland Ocidental), pela Soledad (Falkland Oriental) e por cerca de 200 ilhéus totalizando uma superfície de 12.173km2. Pensa-se que foram descobertas pelo navegador inglês John Davis, em 1592, mas os primeiros povoadores a estabelecerem-se na Soledad, em 1764, eram franceses que aí fundaram Port Louis, vendendo-a aos espanhóis, em 1767. Entretanto, uma guarnição britânica que permanecia na Grande Malvina desde 1765, teve recontros com os espanhóis e acabou por ser expulsa, em 1774. Em 1828, a Argentina, que recentemente se tornara independente, estabeleceu uma colónia na Soledad, a qual foi destruída pelo navio americano Lexington, sob o pretexto de que os colonos atacavam os caçadores de focas americanos da região.

Em 1833, os ingleses ocuparam as duas ilhas e, desde então, têm mantido o arquipélago como colónia britânica, não sem que a Argentina tenha deixado de reclamar a sua posse. A hipótese da existência de ricos jazigos de petróleo no mar da região agravou a latente discórdia entre ingleses e argentinos e, em Abril de 1982, estes últimos efectuaram um ataque de surpresa e ocuparam as ilhas, tendo acabado por se render, em Junho, às tropas inglesas para aí enviadas, após uma breve mas sangrenta guerra, na qual morreram 225 soldados ingleses e cerca de 750 argentinos. Nesta guerra, como atrás ficou expresso, a ilha de Ascensão desempenhou uma importante função de base de apoio à navegação marítima e aérea inglesa. No entanto, a Argentina continua a reivindicar a posse das ilhas, junto das Nações Unidas.

As actividades económicas limitam-se à criação de carneiros e à pesca de focas e baleias. A população, na sua maioria de ascendência britânica e quase toda nascida nas ilhas, era de 2.100 habitantes em 1983, baixando para 1.800 em 1989, isto, porém, sem contar com uma guarnição militar de cerca de 4.000 homens e um aeroporto para grandes aviões a jacto na Grande Malvina, perto da capital, Stanley, o que denota bem a importância estratégica destas ilhas no domínio do Atlântico Austral e como tampão de controlo da navegação entre o Atlântico e o Pacífico. Recorde-se que, em 8 de Dezembro de 1914, na batalha naval das Malvinas, a esquadra inglesa do almirante Sturdee desbaratou a esquadra alemã do almirante Maximilien von Spee, numa vitória que foi decisiva para assegurar à Inglaterra o domínio dos mares, na Primeira Grande Guerra.

Por outro lado, com as Geórgias do Sul, as Órcades do Sul, as Sandwich do Sul, a Shetland do Sul e a Terra de Graham, administrativamente sob a sua dependência, constituem a guarda avançada dos interesses britânicos sobre a Antárctida. De resto, a corrida desenfreada ao "continente gelado", a partir das expedições norueguesa e inglesa ao pólo sul, em 1911, chefiadas por Roald Amundsen e por Robert Scott, respectivamente, levou o Reino Unido, os Estados Unidos, a União Soviética, a França, a Noruega, a Bélgica, o Japão, a Austrália, a Nova Zelândia, a Argentina, o Chile e a República da África do Sul a assinarem um tratado, em Dezembro de 1959, destinado a reservar a Antárctida a actividades científicas, suspendendo todas as reivindicações territoriais e disputas em aberto na zona a sul da latitude de 60o(1).

 

Antilhas e Baamas

 

Situadas entre a América do Norte e a do Sul, as Antilhas desenham um largo arco que se desenvolve desde o istmo do Panamá e a península do Yucatão, a ocidente, à foz do Orinoco, a sueste, continuando para ocidente ao longo da costa da Venezuela, delimitando o Mar das Caraíbas. É costume dividir as Antilhas em dois grupos: as Grandes Antilhas, formadas pelas ilhas de Cuba, Haiti, Jamaica e Porto Rico; as Pequenas Antilhas, que compreendem cerca de 100 ilhéus e ilhas, entre as quais se destacam, rodando pela direita, Vieques, Santa Cruz, Anguila, Saint Kitts, Nevis, Barbuda, Antígua, Guadalupe, Dominica, Martinica, Santa Lúcia, São Vicente, Barbados, Granada, Tobago, Trindade, Margarida, Tortuga, Bonaire, Curaçau e Aruba(2).

Descobertas na sequência das viagens de Cristóvão Colombo, estas ilhas viriam a tomar o nome da lendária Antília ou Antilha, criada pela imaginação medieval e aceite pela cartografia posterior que a colocava no Atlântico Norte, a poente da Europa.

Numa singular descrição geográfica das Antilhas, diz Fray Bartolomeu de las Casas que "todas estas islas están dentro del trópico de Cancro, hacia la equinocial, con otras sin número, que desde la isla de Cuba va una renglera de más de 500 leguas, llenas de islas, que de una a otra se puede ir a dormir cada noche, en un navio pequeño, en tierra y en ella holgar, y estas llegan hastas la isla de la Trinidad, que está junta y pegada con la Tierra Firme de Paria" (3).

Se, por um lado, o referido autor não se cansa de chamar a atenção para a importância das ilhas na estruturação do império espanhol, por outro, sublinha a traço grosso as enormes potencialidades que vislumbra nos espaços continentais das Américas, nos seguintes termos: - "Entremos agora en aquella vastísima Tierra Firme, tocando no más su descripción y calidades, cuya temperancia, mediocridad, fertilidad, sanidad, suavidad, en muchas y diversas e infinitas regiones, provincias, reinos y lugares, que contiene todo este orbe indiano, y todas y todo por la mayor parte, no parece que haya en el mundo tierra, ni región, por bienaventurada que sea, que pueda comparar-se a la menos buena de toda ésta, y que sobre todas las del mundo se deba, en verdad, decir que es felicísima. Si mucho habemos dicho desta isla Española y de sus comarcanas, mucho con mayor encarecimiento, las mismas excelentes, y otras mayores y mejores propiedades cuanto a ciertas cosas, de toda la Tierra Firme"(1).

É óbvio que os espaços insulares do Mar das Caraíbas, particularmente as Grandes Antilhas, pela sua excepcional posição geográfica, assumiram um importante papel como bases de apoio à conquista e colonização das Américas pelos espanhóis, seguidos por outras potências europeias (França, Holanda e Inglaterra). Normalmente, delas partiram as expedições de penetração nos espaços continentais. Fray Bartolomé de las Casas escreve que "Cortés tenia reformados todos los navios de la tormenta pasada, y proveídolos de bastimentos que le dieron en abundancia los indios, por mandado del señor de la isla, y recogidos los caballos y la gente, y en buena amistad con el señor y vecinos della, se hizo a la vela para corer la costa de tierra firme, y llegó a la punta de las Mujeres, que Francisco Hernández o Grijalva habia por nombre puesto, que es la primera tierra de Yucatán, obra de 10 leguas de la isla, y surgió alli toda la flota"(2).

A colonização das Antilhas pelos espanhóis foi, pois, o ponto de partida para a penetração e domínio do vasto continente americano. Evoquemos alguns exemplos. Nestas ilhas organizou a expedição e delas partiu Fernando Cortês, em 1519, para a conquista do México, que, aliás, só viria a concluir em 1535. Das Antilhas partiu o conquistador espanhol Vasco Nunes de Balboa, em 1512, e, no ano seguinte, atravessando o istmo do Panamá, será o primeiro europeu a avistar o Pacífico Oriental. Das ilhas do Mar das Caraíbas partiram Francisco Pizarro, Diego Almagro e outros, através do Panamá e pela via do Pacífico para a conquista do império inca do Perú. E Gonçalo Jimenez de Quesada nelas organizou a conquista do reino dos chibchás, na actual Colômbia.

Convirá sublinhar, porém, que a descoberta, conquista e colonização do rico e vastíssimo continente americano potenciou extraordinariamente o valor sócio-económico e geo-estratégico dos espaços insulares atlânticos, particularmente as Antilhas. Não admira, pois, que muitas das ilhas das chamadas Índias Ocidentais (Antilhas a Baamas) tenham sido ferozmente disputadas pelas novas potências coloniais (Holanda, França, Inglaterra e, posteriormente, os Estados Unidos).

Com a abertura do canal do Panamá, em 1914, o mar das Caraíbas passou a ser uma das grandes rotas de navegação do mundo, aumentando, assim, a importância estratégica das Antilhas e as suas potencialidades turísticas.

As Baamas, constituídas por cerca de 700 ilhas e 2.000 Cays (ilhotas) de coral, com uma superfície total de 13.935 km2, distribuídas num arco de 1.200 km que se inicia no extremo oriental de Cuba e termina a 80 km a sueste da Florida, têm por ilhas principais New Providence, Andros, Grande Baama, Grande Abaco, Pequeno Abaco e São Salvador (a primeira a ser abordada por Colombo)(1). Salvaguardadas as devidas dimensões, a história das Baamas acompanha a das Antilhas.

 

Terra Nova e Bermudas

 

Entre os séculos VIII e XI, os viquingues foram protagonistas da primeira expansão marítima europeia no Atlântico Norte, tendo descoberto e colonizado a Islândia (874), onde, em 930, os colonos criaram o primeiro parlamento do mundo (o Althing). Em 982, tomando já a Islândia como base de apoio, Erico, o Vermelho, chegou com um grupo de companheiros ao sul da Gronelândia. Daqui terá passado, cerca do ano 1000, Leif Eriksson à posteriormente chamada Terra do Labrador e à Terra Nova. As narrativas na linha de uma tradição lendária sobre expedições escandinavas para estas paragens viriam a ser comprovadas, em 1959, pelo explorador norueguês Helge Ingstad, ao descobrir as ruínas de uma aldeia viquingue na ponta norte da Terra Nova, perto da actual aldeia piscatória de Anse(2).

Ao contrário do que viria a ser a irreversível expansão marítima encetada pelos portugueses no início do século XV, a expansão viquingue não teve continuidade, entrando, pelo contrário, em regressão no século XI. Na verdade, se o povoamento e colonização da Islândia se manteve, os núcleos de colonização na Gronelândia, na Terra do Labrador e na Terra Nova acabaram por extinguir-se.

E a redescoberta e colonização da Terra Nova e das contíguas regiões continentais viria a ocorrer pela acção dos portugueses e de outros povos. Lembremos Diogo de Teive e Pero Vasquez de la Frontera, os quais, partindo possivelmente dos Açores, em 1452, terão chegado aos bancos da Terra Nova(3); os Corte-Reais (João Vaz Corte-Real e seus filhos Gaspar e Miguel) cujos nomes ficaram ligados ao descobrimento da Terra Nova, nos últimos anos do século XV e primeiros do século XVI(4); João Fernandes Labrador e Pedro de Barcelos que, entre 1495 e 1498, descobriram a Gronelândia Meridional e a Terra do Labrador(5); João Álvares Fagundes que, cerca de 1519, explorou o estuário do rio S. Lourenço e descobriu as ilhas das Onze Mil Virgens(1); o genovês João Caboto que, partindo de Bristol ao serviço da Inglaterra, atingiu a Terra Nova em 1497 e a Terra de Bafim no ano seguinte (pensando, como Colombo, ter chegado ao Cipango / Catai) (2); Em 1508, Bretons terá atingido as mesmas paragens(3); o italiano Giovanni Verrazzano, em 1524, sob a égide de Francisco I de França, chegou à Florida e explorou grande parte da costa leste da América do Norte até à bacia de Hudson(4); e, em 1534, o francês Jacques Cartier explorou o estuário do rio S. Lourenço e tomou posse daquelas terras em nome do rei de França(5).

A ilha da Terra Nova, com cerca de 110.700 km2 de superfície, fica situada frente ao golfo de S. Lourenço, entre 46o 37’ e 51o 39’ de latitude norte e 52o 58’ e 59o 25’ de longitude oeste. Está rodeada de numerosas ilhotas e ilhéus. É parte integrante do Canadá, desde 1949.

Em 1536 e 1583, os ingleses tentaram sem êxito estabelecer-se na ilha até que, em 1623, ali aportaram alguns católicos britânicos que fundaram uma pequena colónia na costa sueste. Em 1660, Luís XIV reconheceu a importância da Terra Nova, chegando mesmo a nomear um governador. Durante a Guerra de Sucessão de Espanha, franceses e ingleses bateram-se ferozmente pela disputa da Terra Nova e de outras colónias americanas. O Tratado de Utrech (1713) legitimou a posse dos ingleses sobre esses espaços, ficando a França apenas com direitos de pesca.

Os aborígenes foram sendo exterminados, podendo considerar-se extintos desde os princípios do século XIX. A população actual é especialmente constituída por ingleses, irlandeses, canadianos e franceses.

O mar da Terra Nova é abundantíssimo em peixe, especialmente numa série de bancos que constituem uma plataforma de águas pouco profundas (entre os 11 e os 200 metros). Desde o século XVI que os portugueses aí pescam o bacalhau, uma das principais espécies desse pesqueiro. No início do século XX, a Inglaterra e os Estados Unidos disputaram direitos de pesca nos mares da Terra Nova e, em 1910, o Tribunal Internacional de Haia decidiu a contenda a favor da Inglaterra.

Actualmente, além de Portugal, aí pescam, nomeadamente, o Canadá, os Estados Unidos, a Espanha, a Inglaterra e a França. É considerado um dos maiores pesqueiros do mundo, mas as capturas excessivas levaram o governo canadiano a impor restrições em 1977(6). E, na primavera de 1995, nova diminuição de cotas foi imposta a Portugal e a Espanha, com manobras de intimidação e apresamento de navios por parte do Canadá a quem a União Europeia não conseguiu convencer, episódio que ficou conhecido por "guerra da palmeta".

As Bermudas são um grupo de 360 pequenas ilhas, ilhéus e rochedos de coral assentes sobre soco vulcânico, com uma superfície total de apenas 53 km2, situadas a 950 km a leste do cabo Hatteras, na Carolina do Norte, entre 32o 14’ e 32o 25’ de latitude norte e 55o 30’ e 55o 44’ de longitude oeste.

Descobertas pelo espanhol João Bermúdez, em 1522, só em 1609 e por circunstâncias fortuitas, começaram a ser povoadas, quando um grupo de colonos britânicos, chefiados por George Somers, aí naufragou.

Apenas 20 ilhas são habitadas. Em 1964 tinham uma população de 44.617 habitantes (3.000 na capital, Hamilton), mais de metade dos quais descendentes de antigos escravos africanos. Entre os brancos, contavam-se cerca de 3.000 portugueses, na sua maioria horticultores e fruticultores.

Actualmente são uma colónia de governo autónomo, integrada na Commonwealth. Ponto de escala da navegação marítima entre a Inglaterra e a América do Norte, as Bermudas viram reforçada a sua importância geo-estratégica com a navegação aérea e a nova correlação de forças no Atlântico, emergente da Segunda Guerra Mundial. É neste contexto que, em 1944, foi cedido aos Estados Unidos, por um período de 99 anos, o direito de instalação de bases navais e aéreas que, a par do turismo, são hoje uma importante fonte de receitas do governo das Bermudas(1).

A concluir, convirá esclarecer a forma como encarámos o caso particular das ilhas britânicas. Tendo sido a Inglaterra uma das potências colonizadoras, foi dado o devido enquadramento ao seu papel na construção do Mundo Atlântico, no decurso deste estudo. Haverá, naturalmente, a ter em conta a sua secular participação, a par da Irlanda (ambos membros da actual União Europeia) na construção da Europa, mas tal cai fora do âmbito deste trabalho. Recordemos, apenas, que a sua condição insular lhe confere características estratégicas muito próprias, evidenciadas, nomeadamente, na concentração das forças militares aliadas que prepararam o desembarque na Normandia no longo "Dia D" - 6 de Junho de 1944 - que assinala o início da libertação da Europa Ocidental ocupada pelas tropas de Hitler e a derrota das potências do "Eixo" na Segunda Grande Guerra Mundial.