A Autonomia é para nós uma palavra mágica. Diz tudo o que sentimos e nada do que ficou lavrado na definição dos velhos dicionários e enciclopédias.

A Autonomia é uma realidade vivencial que não se compadece com a frieza dos conceitos.

A Autonomia pertence-nos e só nós a entendemos, através da sua fruição diária. É o reconhecimento do estatuto de diferença dentro da unidade nacional. Sim, porque a autonomia hoje implica necessariamente esta relação umbilical.

A Autonomia não é geradora de consensos: amada por uns, é odiada e incompreendida por outros. Esses outros que maldizem o nosso estatuto de diferença estão do lado dos que sempre nos amordaçaram.

A Autonomia, segundo M.Pestana Reis(1921), Anão é grito de revolta, mas simplesmente petição de justiça". Também, não deve ser entendida como uma conquista do momento mas sim a concretização de um direito histórico. A conjuntura realça apenas a necessidade da sua concretização como via para ultrapassar o diálogo de surdos entre o centro e a periferia, isto é a metrópole e a "colónia". Aqui, abre-se a ferida da orfandade só sarada com o reconhecimento deste estatuto de diferença. Entre a metróple e a Acolónia@ fala-se de uma forma de escravidão, cujas mordaças só serão cortadas com a autonomia. Para o homem da primeira metade do século XIX, empenhado na luta pela abolição da escravatura, tudo o que indiciasse uma relação de subordinação era condenado e anametizado com o epíteto de escravatura.

A Autonomia cresce e frutifica-se na consciencialização política e cultural dos intervenientes e projecta-se no pleno exercício dos orgãos de governo próprio. A Celebração dos vinte anos da autonomia deve ser, por isso mesmo, uma forma de apelo a essa ancestral aspiração que todos nós temos a felicidade de ver concretizada.

A Autonomia mantem-se viva através da pratica e do conhecimento que dela temos. Daí a necessidade de sondar o passado para compreender o presente e construir o futuro. Divulgar a História e debater a realidade sócio-política que ela encerra é também construir a autonomia.

A Autonomia, na verdade, não se esgota na dimensão política, pois precisa da histórica e cultural que a enformam e lhe retiram a carga negativa do imediatismo.

A Autonomia, enfim, é uma conquista fruto de várias batalhas do passado e presente. Recordá-la é carregar energias para embates presentes e futuros.

A 20 de Outubro de 1922 lia-se no Diário de Notícias que "no dia em que for decretada a completa autonomia, ter-se-á descoberto a Madeira pela segunda vez". O momento era oportuno para esta associação. Comemorava-se, então, o V Centenário do descobrimento da Madeira. A isto juntava-se o fervor dos intelectuais e políticos madeirenses na defesa da autonomia. Os jornais abriram-se ao debate, marcado pela defesa de uma ampla autonomia, condição necessária para a evocação do sucesso destes cinco séculos de História. Daqui surgiu a ideia dos partidos regionalista que, depois, se desfizeram com o fascínio do Estado Novo.

Num folheto evocativo do quinto centenário do descobrimento da ilha, coordenado pelo Padre Fernando Augusto de Silva, foi feito o panegírico à autonomia, pela pena de Manuel Pestana Reis. Aliás, o autor começa o seu texto com a evocação da descoberta henriquina:" Ha quinhentos anos as caravelas do infante entregaram às penedias da ilha, os primeiros povoadores.(...)Em quinhentos anos a arvore genealógica dos primeiros povoadores desenvolveu-se em linha recta. Os madeirenses não podem renegar a Patria pela razão natural de não poderem negar a Raça". Daqui resulta que a História estabelece esta relação umbilical mas também projecta a autonomia, a nossa carta de alforria.

Nada disto era estranho à sociedade madeirense da década de vinte, um dos mais promissores momentos de debate e reivindicação da autonomia. A crise económica foi a origem de tudo isto, porque era nestes momentos que mais se fazia sentir o opressivo abandono a que a ilha fora votada pela metrópole. E a situação era mais grave quando as receitas do estado arrecadadas na ilha eram conduzidas para Lisboa e usadas em empreendimentos, como o do porto de Leixões. A história da autonomia tem neste primeiro quartel do século uma página dourada.

Lamentavelmente, este debate foi sol de pouca dura pois que se afogou na esperança adiada, que foi o Estado Novo. Este apagou a autonomia o político e procurou trazer para o seu seio alguns dos principais arautos, como foi o caso de Manuel Pestana Reis. A autonomia ficou adormecida até que nova mudança política veio trazer ao de cima esta ancestral reivindicação que nos possibilitou as armas para vencer os desafios do presente e projectar os rumos do futuro.

Não sabemos se aqueles que estabeleceram o dia 1 de Julho, como o da Região Autónoma e, acima de tudo, da autonomia tiveram por inspiração o texto de Manuel Pestana Reis e todo o debate da década de vinte. Copiada ou original, esta decisão merece o nosso aplauso. A 1 de Julho evoca-se (ainda que para muitos esta data da descoberta oficial ofereça dúvidas) o descobrimento português da Madeira. É o momento de encontro dos navegadores quatrocentistas com o espesso negrume. Este singelo gesto permitiu que a Ilha se projectasse no mundo luso como a primeira jóia atlântica.

A autonomia, finalmente conseguida com a constituição de 1976, é a segunda descoberta da Madeira. Isto é, a Europa descobriu este estatuto de diferença e o madeirense revelou-se a si próprio nas suas capacidades de autogoverno. Deste modo autonomia combina com descobrimento e a esta coincidência num só dia de comemoração não deve ser entendida como ocasional. Abril de 1976 trouxe-nos a segunda descoberta. Agora, resta saber se o futuro nos reserva novas descobertas para que a autonomia continue a sua marcha.

A autonomia pode ser enquadrada na tradição localista, materializada no municipalismo. A criação desta estrutura descentralizada de poder obedece precisamente a essa necessidade de aproximação dos governados aos governantes. Note-se que antes das transformações ocorridas no século dezanove reconhecia-se ao município o carácter autónomo da administração, sendo o seu poder assente na jurisdição local (foral e posturas) e no exercício dos magistrados eleitos. Por isso, recordar a autonomia será também o recordar desta multissecular instituição.

A autonomia é hoje a mais perfeita materialização da dimensão regional e a melhor via para a solução dos seus problemas. Ela fundamenta-se na História, afirma-se pela consciencialização política e cultural dos seus intervenientes e projecta-se no pleno exercício dos orgãos de governo próprio.

Hoje podemos dizer que a autonomia política não é uma palavra vã e que nos foi dada a possibilidade de afirmação da nossa vontade e especificidades próprias. E, tal como referiu M. Pestana Reis em 1922, podemos repetir hoje com segurança que "a autonomia não é um grito de revolta, mas simples petição de justiça. Adquirimos direitos, exigimos que os reconheçam e nos garantam o seu livre gozo e exercício".