1. LOCALIZAÇÃO DAS ESTRUTURAS
Grutas:
Cais do Campanário, Calhau da Pesqueira (P. do Pargo), Furna do Negro (Ribeira Seca), Ribeira da Tabua, Lapa do Castelhano (Paul da Serra), Eira da Moira (Serra de Água), Furna da Moira (Lugar da Serra)
Construções na Pedra
2. TOPONÍMIA como evidencia étnica
3. UTILIZAÇÃO
Todas as grutas do litoral e interior denotam uma actualização recente, tornando-se difícil saber a autoria e o início do seu funcionamento. No caso do Campanário e Ponta do Pargo liga-se à actividade do mar, enquanto as do interior, caso esteja próximas de terrenos agrícolas, são armazéns de guarda dos utensílios agrícolas e palheiros para o gado, e, as da zona de floresta denotam utilização por carvoeiros, pastores e viajantes.
4. A TRADIÇÃO
A tradição associa todas as estruturas com aparato sagrado aos mouros, seguindo uma tradição peninsular em que tudo o que não é cristão é merecedor deste epíteto. Na Madeira segue-se esta tradição apontando-se todas estas construções ao culto de "mouros".
5. ESCRAVOS MOUROS E CANÁRIOS NA MADEIRA
Está documentada a presença de escravos mouros e canários na Madeira. Os canários foram aliás os primeiros escravos a chegar à ilha desde 1425, altura em que os portugueses iniciaram as incursões regulares para captura de escravos nas Canárias. Em algumas destas expedições é evidente uma participação activa dos povoadores da ilha, como foi o caso de Álvaro de Ornelas e Álvaro Fernandes em 1445.
A presença dos escravos de Canárias foi considerada desestabilizadora pelas autoridades que em 1483 ordenaram uma devassa que levou à sua proibição de permanência na ilha a partir de1490, exceptuando-se apenas os que fossem mestres de açúcar. De acordo com este documento os canarios eram pastores de gado na serra, actuando em conjunto com os "fujões" em roubos e violência aos transeuntes.
Também está documentada a presença de mouriscos na ilha na condição de escravos e libertos. Esta presença resulta das ligações permanentes da Madeira com as praças africanas. À Madeira estava acometida a função de acudir a estas praças sempre que acontecesse algum assalto, sendo dominante a participação de famílias ilustres do Funchal e Ribeira Brava. Daqui resultaram algumas presas que assumiram o estatuto de escravos. Mesmo assim o número de mouriscos é reduzido.
6. DA TRADIÇÃO À HISTÓRIA
Da presença dos canarios e mouros na Madeira ficou rastro na documentação, toponímia e tradição oral. No caso da toponímia, que identifica acidentes geográficos e grutas, é de salientar a sua localização no interior da ilha e que os relaciona com os fugitivos ou pastores, maioritariamente canarios.
Por outro lado é conhecida a tradição dos canários no tratamento dos couros, nomeadamente do gado caprino, que usavam como vestuário ou bota para transporte de líquidos (leite, vinho). Tenha-se em conta que, quer os canários (em Mesquer na ilha de Fuerteventura) quer os berberes em Marrocos (em Marrakech), tinham instalações para o curtume de peles cuja estrutura se apresenta semelhante à da Serra de Água.
A situação destas estruturas da Ribeira da Serra da Água e Ribeira da Tabua, em pleno leito da ribeira, indicia a sua relação com qualquer indústria de curtumes que deverá ter existido e a que não deverá ser alheia a presença de escravos canarios e mouriscos. Todavia, a documentação e tão pouco os locais deixam indícios deste tipo de utilização, ficando esta apenas como a hipótese mais plausível do seu uso.
Estas estruturas escavadas na rocha, com esta ou outras formas de utilização, são merecedoras da nossa atenção e devem, por isso mesmo, ser preservadas, evitando qualquer atentado, como já sucedeu na da Serra de Água com a colocação de um posto de distribuição de energia eléctrica.
Funchal. 12.05.99
Alberto Vieira